Em tempos cada vez mais polarizados no futebol, é muito difícil imaginar clubes como Olympique de Marseille, Feyenoord e PSV brilhando na Liga dos Campeões. A realidade do trio, hoje, é a “terceira divisão” das competições da Uefa, na recém-criada Conference League. No passado, porém, a equipe francesa e a dupla holandesa já foram donos da Europa, e fizeram isso nos degraus mais altos, contra os principais adversários do continente.
Nesta quinta-feira (14), Marseille, Feyenoord e PSV entram em campo na Conference Lague em busca de uma vaga na semifinal do torneio. Apenas o Marseille vai em vantagem para o jogo de volta, depois de ter batido o PAOK, da Grécia, por 2 a 1 no jogo de ida. Feyenoord e PSV emparam na ida, contra Slavia Praga (República Tcheca) e Leicester (Inglaterra), respectivamente.
Passado glorioso, presente nem tanto
Entre os três antigos vencedores da Liga dos Campeões, o único que levantou o troféu na “Era Moderna” da competição, que teve início em 1992/93 foi o Olympique de Marseille. E o time francês fez isso justamente naquele ano de transição da Copa dos Campeões Europeus para Liga dos Campeões.
Desde que conquistou a Champions em 1992/93, o Marseille vive tempos inglórios na disputa. Para começar, o número de participações do clube é baixo, apenas nove das 22 edições disputadas depois de seu título. Para piorar, o time só passou da fase de grupos em duas oportunidades: 2010/11, quando caiu nas oitavas de final, e 2011/12, nas quartas.
A descida de patamar do Marseille é evidente desde aquele título e é ilustrada mesmo a nível nacional. Em 1992/93, o clube conquistaria também seu pentacampeonato francês, mas o perdeu por um escândalo de manipulação de resultados. Não houve grande punição esportiva, apenas a perda do título que não foi herdado por ninguém, mas o tempo tratou de ser severo com o Marseille, que só voltou a vencer o francês uma vez, em 2009/10.
Os franceses já haviam descido um degrau na Europa quando deixaram de ser participantes assíduos da Champions para serem frequentadores da Liga Europa. Ainda assim, não foi o suficiente para conquistar mais uma vez o título continental, com três batidas na trave em vice-campeonatos em 1998/99, 2003/04 e 2017/18.
Ofuscados pelo Ajax
Poucos costumam ser os clubes que se intrometem na hegemonia espanhola-inglesa-alemã-italiana na Liga dos Campeões. Mesmo entre esses quatro países, há no cenário atual uma grande diferença entre a Itália para os demais. Fora os clubes desses países, um dos poucos que costuma incomodar é o Ajax, e isso tudo tem a ver com a derrocada de PSV e Feyenoord.
O primeiro clube holandês a vencer uma Liga dos Campeões foi o Feyenoord, numa conquista da temporada 1969/70. Naquele tempo, anos 1960, o Feyenoord rivalizava com o Ajax para saber quem era a grande potência do país, com quatro títulos para cada lado a nível nacional na década.
O título do Feyenoord há mais de 50 anos é perfeito para ilustrar como a Liga dos Campeões e o contexto do futebol europeu mudou em cinco décadas. Naquela competição, entre os oito melhores, haviam equipes da Bélgica, Polônia, Turquia, Itália, Inglaterra, Alemanha e até mesmo Escócia, que ficou com o vice-campeonato, após o Celtic perder para os holandeses.
Depois de viver seus anos gloriosos na década de 1960, o Feyenoord ainda seguiu como intercalando posição com o PSV como segunda (ou terceira) força do país, que sempre teve o Ajax como protagonista. A nível europeu, o Feyenoord disputou apenas duas Champions nos últimos 20 anos, em 2002/03 e 2017/18, ambas caindo na fase de grupos. Na Liga Europa, por outro lado, costumava sempre estar por lá e foi campeão em 2001/02. Nos últimos tempos, porém, acabou por ver a hegemonia espanhola crescer até mesmo na “segunda divisão”, com o Sevilla sempre abocanhando títulos, e hoje está relegado à Conference League.
Por fim, a história do PSV parece seguir mais ou menos o mesmo roteiro de Feyenoord e Marseille. A conquista da equipe de Eindhoven na Liga dos Campeões foi em 1987/88, após vencer uma disputa de pênaltis na final com o Benfica. Entre Feyenoord e Marseille, por sinal, o PSV até é quem mais vezes aparece pela Champions nos últimos tempos e não é raro vê-los por lá, mas é bem difícil que se façam notar, igualmente na Liga Europa. O time ligado à empresa de tecnologia Philips até tem uma conquista da segunda divisão europeia, mas foi nos tempos de Taça da Uefa, conquista anterior ao seu próprio título de Champions League.
Não existe muito bem uma conclusão para este texto, que o que mais fez foi percorrer páginas gloriosas de três dos mais tradicionais clubes europeus – ainda que a geração dos anos 2000 possa achá-lo um pouco louco. O que parece é que a Conference League vai deixando de ser apenas uma terceira divisão estranha, com clubes que sequer sabemos pronunciar ou a origem, como os exóticos Lincoln Red Imps, Qarabağ, Kairat, FK Jablonec, Anorthosis e outros mais que frequentavam a fase de grupos. Ao afunilar, a Conference League tem uma cara de passado saudosista, que dá a luz aos que foram esquecidos no fundo da gaveta.
Fonte: Ogol




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