Goleador brasileiro brilha na Champions Africana e faz angolanos sonharem

Nunca um jogador não-africano foi artilheiro da Liga dos Campeões da África. Nunca um jogador estrangeiro havia sido três vezes artilheiro do Campeonato Angolano. Nunca um jogador foi quatro vezes goleador do Angolano. Nunca, na verdade, parece ser uma palavra que não faz parte do dicionário de Tiago Lima Leal, mais conhecido como Tiago Azulão. O atacante brasileiro, de 34 anos, é protagonista de uma história de feitos inéditos e improváveis.

Tiago Azulão é jogador do Petro de Luanda, o maior campeão e um dos mais tradicionais clubes de Angola. Neste momento, o brasileiro lidera a corrida pela artilharia da CAF, a Champions League Africana, com sete gols.

Em entrevista exclusiva a oGol, o atacante, que recebeu o apelido de “azulão” ainda criança, depois de treinar com equipamento totalmente azul, relembrou sua trajetória, e a do próprio Petro, semifinalista da competição que garante uma vaga no Mundial de Clubes.

“No início nosso objetivo principal seria classificar para a fase de grupos, porque são duas eliminatórias bem difíceis. Aqui na África, às vezes o campo não é bom, a arbitragem pode ser complicada, mas conseguimos passar no Camarões (diante do Fovu) e depois no Congo (contra o Otôho d´Oyo). Então caímos num grupo bem dificil, com o Wydad (Marrocos) e o Zamalek (Egito), mas sabíamos que tínhamos condição de passar e conseguimos com duas rodadas de antecedência”, contou Tiago.

“Nas quartas de final pegamos justamente o clube que não queríamos (Sundowns, da África do Sul), tanto pelo estilo de jogo, quanto pela campanha que eles tinham até ali – estavam invictos. Nós fizemos dois grandes jogos, principalmente em casa, e lá fizemos um jogo mais fechado. Depois que sofremos o gol, conseguimos partir para cima e eu fui coroado com aquele pênalti que dificilmente vou esquecer e todos aqui em Angola também”, prosseguiu.

O pênalti a que se refere Tiago, clique aqui para ver, foi o que garantiu o empate e consequente classificação para o Petro de Luanda na CAF. Pela segunda vez na história, e duas décadas depois, o clube angolano está entre as quatro principais forças do continente.

Tiago Azulão
Liga dos Campeões África 2021/22

12 Jogos  1033 Minutos

7    1    0    0 2x

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Além do pênalti convertido com sucesso no último sábado (23), Tiago tem participação fundamental nas grandes campanhas que o Petro faz na temporada. Na Liga dos Campeões, os sete gols que garantem no momento a artilharia para o brasileiro, representam também 39% dos gols marcados pelo time angolano na competição. Com 18 gols em 12 jogos, o Petro de Luanda tem, neste momento, o segundo melhor ataque do torneio, atrás apenas do Wydad, clube marroquino que dividiu grupo com o próprio Petro, e é agora o grande rival na semifinal da CAF.

“A artilharia está sendo muito boa para minha carreira, em termos de números e para aquilo que a gente almeja como atacante. Ainda mais agora sabendo que nenhum jogador de fora do continente africano conseguiu esse feito, é mais uma marca que quero conseguir para minha carreira, principalmente a nível internacional”, afirmou Tiago, surpreendido pela informação de que pode conquistar o feito inédito.

Uma ligação para a história

Tiago Azulão já tinha seus 28 anos e um futuro mais ou menos definido quando uma ligação mudou totalmente sua carreira. O ano era 2016 e à época, o jogador atuava na realidade como meia, camisa 10 da Caldense, e se preparava para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro pelo Mogi Mirim.

“Eu já tinha acertado com o Mogi Mirim, porém não tinha assinado contrato e só estava lá treinando. De repente recebi uma ligação de um treinador de goleiros que trabalhou comigo na Caldense, ele tinha indicado meu nome para a diretoria do Petro de Luanda: eles queriam dois atacantes, o outro que iria comigo não foi. Eu vim para ser o número 10, mas chegando aqui devido a carência do treinador, ele me perguntou se eu jogava de atacante, me colocou lá e foi quando eu comecei a fazer muitos gols e as coisas foram acontecendo naturalmente”, relembrou.

Muitos gols não é falsa-modéstia de Tiago. Foram (e tem sido) muitos gols mesmo. O atacante já soma mais de 100 gols pelo Petro de Luanda e foi três vezes artilheiro do Girabola, como é conhecido o Campeonato Angolano. Esse feito só havia acontecido antes duas vezes na história, mas alcançado por jogadores naturais de Angola, nunca estrangeiros. Tiago Azulão foi o primeiro, com as artilharias das temporadas 2017, 2018 e 2020/21.

Nesta temporada, Tiago persegue a quarta artilharia no campeonato nacional, atualmente como vice-artilheiro. São 16 gols para o brasileiro contra 19 do angolano Depú, que tem menos jogos pela frente em disputa, já que o Sagrada Esperança, clube que defende, tem partidas adiantas em relação ao Petro. Se alcançar a quarta artilharia, Tiago Azulão será o primeiro jogador a conseguir este feito na história, independente de ser como estrangeiro ou não. Mas há um sonho maior em causa.

“A maior marca que quero quebrar é o jejum do Petro, que está há 12 anos sem conquistar o Girabola”, declarou o jogador, que apesar de tantos anos como goleador na equipe, ainda não conseguiu levantar o principal troféu nacional com o clube.

“Aqui na Angola não é igual ao Brasil de ter tantos clubes grandes, são poucos. Basicamente, a briga é entre o Petro e o 1º de Agosto. No caso, o Petro seria o maior no quesito de mais títulos (15 no total), e é considerado o maior clube do país. A briga é mais entre esses dois e nos ultimos anos surgiu o Sagrada Esperança (hoje o 2º colocado)”, completou.

Em sua temporada mais artilheira de toda a carreira, mesmo aos 34 anos, Tiago se permite sonhar. No futebol brasileiro, o jogador teve como clube de maior expressão na carreira o Fortaleza, mas que em sua época estava na Série C.

“Eu tenho um carinho muito especial pelo Fortaleza, tanto pela grandeza, quanto pela cidade, pessoas e amigos que fiz lá, inclusive com o presidente (Marcelo Paz) que acertou minha contratação. Ele era diretor de futebol na época. Um cara de um coração enorme, gente finíssima, e quando vi que ele estava como presidente, eu me tornei ainda mais torcedor do clube”, declarou.

Andarilho da bola, o brasileiro teve também uma passagem curta pela Turquia, onde jogou na segunda divisão, e uma tentativa frustrada de jogar na Malásia, onde devido a uma mudança de regras de permissão para estrangeiros nunca conseguiu atuar pelo Johor.

“A gente nunca deixa de sonhar, me sinto bem ainda, inclusive esse ano está sendo o melhor, em questão de número de jogos e gols. Me sinto bem para caso surja um novo desafio, que seja bom para mim e para minha família, a nível financeiro e de projeto. Mas aqui no Petro eu realmente me sinto bem. Tenho identificação com a história”, contou.

“Às vezes a gente brinca, porque é onde a gente menos imagina: não é normal um jogador sair do Brasil e ir pra África. Aqui acabei me encontrando e as coisas aconteceram: estamos na semifinal da Liga dos Campeões e fazendo história. Caso venha uma situação de fora, do continente, ou outra situação eu vou pensar. Mas estou muito tranquilo e em paz para caso não surja nenhum desafio, eu siga fazendo história no Petro e encerre minha carreira aqui”, finalizou.

Fonte: Ogol

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