Há um novo tetracampeão na Rússia. Um feito histórico e inédito para o Zenit, que conquistou o campeonato local mais uma vez. Uma grande conquista, em um país gigante, com farta tradição no futebol, mas que acabou envolta em nuvens negras e sem receber o devido destaque internacional. Financiado pela estatal Gazprom, conhecido como o “time de Putin” e com histórico longo de casos de racismo, o clube russo levanta a taça como um pária entre os campeões europeus.
O Zenit sagrou-se campeão com três rodadas de antecipação ao vencer o Lokomotiv por 3 a 1, abrindo nove pontos para o Dínamo Moscou, e com melhor retrospecto no confronto direto, critério de desempate. Um título conquistado de forma incontestável dentro de campo. O quarto em sequência, algo inédito para o clube.
Em outros tempos, o tetracampeonato mereceria certamente destaque internacional. Mas falar de grandes conquistas e de festa em São Petersburgo soa imoral em meio a guerra, provocada diretamente pela Rússia, com a invasão a Ucrânia. É fácil entender a falta de entusiasmo quanto a conquista. Há motivos de sobra para o Zenit contar com a antipatia fora de seus domínios.
Financiamento estatal e relação com Putin
Quantas vezes na história do futebol vimos o domínio de times com relações estreitas com o Estado e com seus dirigentes – muitas vezes ditadores. Pois bem, Putin nunca escondeu seu entusiasmo em relação ao Zenit. Mais que isso, o clube sobrevive a custas de investimento estatal.
Com a logo da Gazprom, maior exportadora de gás natural do mundo, o Zenit se transformou em uma potência nas últimas duas décadas. Campeã soviética em 1984, voltou a conquistar o torneio nacional em 2007, já como Campeonato Russo, e desde então somou mais sete conquistas, incluindo o tetracampeonato atual.
A Gazprom é hoje a empresa que causa maior desconforto hoje entre os governos europeus, e com a Alemanha no centro da polêmica. Boa parte do continente é dependente do gás russo vendido pela estatal e, apesar do discurso quase unânime em defesa da Ucrânia, nem mesmo os alemães conseguiram cortar completamente os negócios com a Gazprom. Para os críticos, um financiamento indireto à Rússia na guerra. “Ganham dinheiro com o sangue ucraniano”, disparou Volodymyr Zelensky, presidente do país invadido.
Apesar dos laços estreitos com a Gazprom e com Putin, o Zenit está longe de ser um caso à parte no futebol russo. A maior parte dos clubes da elite no país tem algum financiamento estatal.
Casos de racismo mancham imagem do Zenit
Muito antes da entrada na guerra, o Zenit já tinha de lidar com a imagem arranhada por outro motivo: o racismo. A torcida do clube de São Petersburgo tem longo histórico de casos de racismo, homofobia e xenofobia, e costuma manifestar o seu lado mais negro sem nenhum pudor, e sem grandes represálias por parte do próprio clube e da organização do futebol russo.
“Nós não somos racistas, mas a ausência de jogadores negros na escalação do Zenit é uma importante tradição que enfatiza a identidade do clube e nada mais”, lê-se em um dos mais famosos comunicados de uma torcida organizada do clube, publicado há mais de 10 anos.
“Queremos jogadores mais próximos da nossa alma e mentalidade para jogar pelo Zenit. E somos contra a inclusão de representantes das minorias sexuais no time”, continua em outra parte.
Muitos brasileiros sentiram na pele os efeitos da “tradição” do Zenit. Roberto Carlos viu serem atiradas bananas em sua direção. Hulk sofreu em boa parte de sua passagem pelo clube, embora tenha se transformado em ídolo local. Mais recentemente, Malcom foi recebido com pouca cordialidade e faixas acusando a diretoria de desrespeitar a tradição ao o contratar. O Zenit garantiu que faltou compreensão internacional com o caso e que não se tratava de racismo.
Ao contrário de jogadores sul-americanos e africanos, os estrangeiros provenientes da Ucrânia costumavam ser bem recebidos como “irmãos”. A invasão ao país vem mudando a história. Recentemente, Yaroslav Rakitskiy, titular da equipe, deixou o Zenit após mensagens contra a guerra.
Legião brasileira e silêncio incômodo
Douglas Santos, Claudinho, Wendel, Malcom, Yuri Alberto… Todos atuaram como titulares na vitória do Zenit sobre o Lokomotiv. Todos tiveram a oportunidade de deixar a Rússia, ao menos temporariamente, liberados pela Fifa durante o período, e preferiram ficar. Apesar da falta de apoio por parte da torcida, o ambiente hostil costuma mudar com os resultados em campo. E, como natural, em um país onde falar de guerra pode render prisão, o tema pareceu praticamente não existir nas declarações.
“Fico muito feliz em ajudar a equipe mais uma vez, e graças a Deus pudemos sair campeões. Durante a temporada houve muita entrega da nossa equipe. Agora é aproveitar e comemorar”, discursou Malcom.
“Muito feliz por conquistar esse título pelo clube. Espero que venha muito mais. Muito feliz mesmo por colaborar com gols, assistências. Vamos comemorar muito porque trabalhamos demais para que esse momento acontecesse”, festejou Claudinho.
Malcom e Claudinho foram especialmente importantes na conquista. O primeiro anotou oito gols e distribuiu seis assistências. O segundo marcou oito gols e deu três passes para gol. Apenas Dzyuba participou em mais gols, com 11 e cinco assistências, embora com mais jogos que a dupla.
Menções à guerra? Apenas para criticar a decisão da Fifa em excluir a Rússia de torneios internacionais. Com isso, o Zenit dificilmente terá a oportunidade de jogar a próxima Liga dos Campeões.
“Sempre foi proclamado que o esporte deveria se manter distante de política. Infelizmente este princípio foi violado, na situaçáo atual simplesmente foi violado”, disparou Alexander Medvedev, diretor do clube.
O Zenit pode estar sendo punido por uma guerra sobre a qual não tem influência. Justo ou não, o futebol russo, como um todo, vai sofrer com as consequências, e vai demorar até o campeão reconstruir sua imagem internacional.
Fonte: Ogol




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