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Do Palmeiras a cidadão do mundo: Roque Júnior repassa carreira em entrevista exclusiva

26/07/2022 às 09:00
3 min de leitura

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Libertadores, Liga dos Campeões e Copa do Mundo. Apenas quatro jogadores têm esses títulos no currículo. Dois deles foram titulares nas finais. Um deles foi o entrevistado numa parceria entre oGol e zerozero: Roque Júnior, o zagueiro pentacampeão mundial pela seleção e com passagem marcante na história de Palmeiras e Milan.

Aposentado desde 2010, Roque Junior nunca abandonou o futebol. Depois de trabalhar como técnico, coordenador e analista de desempenho, o ex-jogador se dedica atualmente a cursos e especializações na Europa com uma promessa: “daqui uns dias estou de volta”. O novo projeto ainda é guardado a sete chaves, enquanto vive em Portugal.

Confira abaixo a entrevista completa com Roque Junior

©Getty / Andreas Rentz

O Roque Júnior nasceu de uma pequena cidade de Minas Gerais, Santa Rita do Sapucai. Qual é a história do menino que saiu daí e conseguiu chegar ao Palmeiras?

No meu caso é fundamental falar dos meus pais. Desde os meus seis/sete anos que eu tinha o sonho e o desejo de ser jogador de futebol. Em certo momento eu combinei com eles esse compromisso: ‘Você quer ir? Então vai, experimente dois/três anos, no máximo, e se não der certo tem de voltar para casa e estudar’. O meu pai apanhou uma carona de uma empresa transportadora, que se chamava Rápido Seda, e fomos para São Paulo. Andamos São Paulo inteira, tentei fazer testes em todos os clubes e não consegui, porque naquele dia estava tudo fechado e era o único dia em que o meu pai podia estar lá comigo. Felizmente, eu tinha – e ainda tenho – uns tios em São José dos Campos e fiquei lá para dormir. O meu tio Renato acabou falando com o clube de lá, o São José, que na época estava na Série B do Campeonato Brasileiro e na primeira divisão do Paulista. Eu voltei para Santa Rita, fiquei lá uns 20 dias, e o meu tio – que vendia livros na zona sul de Minas, no vale de Paraíba – me pegou lá um dia e me levou outra vez para o São José, onde tinha conseguido um teste. Testei ao longo de uma semana, fui aprovado e fiquei três anos no São José. Com 18 anos fui emprestado ao Palmeiras e, um ano depois, a Parmalat (patrocinadora do clube) me comprou. Joguei cinco anos no Palmeiras, depois Milan, Inglaterra, Alemanha, Catar e voltei para o Brasil. 

qVi alguns jogadores muito bons que nunca conseguiram chegar lá acima. Os que caem e se levantam é que são os bem-sucedido

Como é que conseguiu chamar a atenção do Palmeiras? Existiu algum jogo em especial? 

“Não foi só uma coisa, nem só um jogo. Para jogar a um alto nível nós temos de conseguir ter algumas coisas. Qualidade, claro, e depois persistência, vontade, isso é determinante. Vi alguns jogadores muito bons que nunca conseguiram chegar lá acima. Os que caem e se levantam é que são os bem-sucedidos. Nós caímos várias vezes, mas foi a persistência que me fez chegar onde cheguei. Talvez eles me viram em um jogo, mas tudo o que eu fiz até chegar nesse jogo é que me permitiu chegar ao alto rendimento”

Essa caminhada fez com que você se tornasse num dos quatro jogadores da história a ganhar Copa do Mundo, Liga dos Campeões e Libertadores, ao lado de Cafu, Ronaldinho e Dida. Que memórias guarda dessas três competições? 

São fases diferentes da minha vida. No Palmeiras, o time estava em formação, ganhamos a Conmebol (na verdade Mercosul) e depois a Libertadores, eu tinha 23 anos e estava começando a carreira. Peguei um elenco experiente, um treinador como o Felipão que apostou em mim e foi fantástico. Cumpri esses objetivos: sair de casa, chegar ao São José, me mudar para um clube grande e ganhar títulos. No Milan, já foi numa fase diferente, ganhei a Champions um ano depois de ser campeão do mundo. Nós sabemos o quão difícil é ganhar uma Champions, ainda por cima num clube tão grande como o Milan. É para poucos. E, entre essas conquistas, a Copa de 2002. Acredito que é o objetivo de qualquer um, representar o nosso país. Queria defender o Brasil, agora imaginem chegar a uma Copa do Mundo e ser campeão. Foram títulos que consolidaram a minha carreira, que me consolidaram enquanto jogador de alto nível. 

Você trabalhou com o Felipão no Palmeiras e na seleção. O que o diferenciava, o que o tornava especial como treinador? 

Há treinadores que conhecem muito bem o jogo, mas que não têm capacidade de relacionamento e isso é fundamental no futebol. O futebol é 100% relacionamento, é lidarmos com pessoas a todo o momento. Os que sabem muito do jogo e não têm essa outra capacidade, não vão muito longe. Chega a um certo momento e ele não vai ser capaz de desenvolver e tirar algo mais dos jogadores, porque ele não tem essa capacidade de ter uma relação (com o elenco). O Felipão tem essa capacidade de se relacionar e essa é a marca dele, é o ponto principal da carreira dele. Foi isso que eu vi nele, a capacidade de tocar cada pessoa com quem trabalha. 

Na Copa de 2002, há algum momento que considera decisivo, além do jogo da final?

Os dias em que estivemos juntos, antes do início da Copa do Mundo, foram marcantes para mim. Numa Copa temos que conseguir jogadores na sua melhor forma, mas jogadores que tenham também um senso coletivo muito grande. Para mim, e nós ganhamos dessa forma, foi fundamental não haver um ego a atrapalhar. Tivemos grandes jogadores, que souberam deixar o ego de lado. Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo, todos eles já tinham participado de Copas do Mundo e queriam muito ganhar em 2002. E nós, que nunca tínhamos participado, também tínhamos esse desejo, claro.

©Getty / Claudio Villa/ Grazia Neri

O Roque chegou na Europa e no Milan trabalhou diariamente com dois zagueiros históricos: Paolo Maldini e Alessandro Costacurta. Como isso ajudou no seu crescimento?

Eles me ajudaram muito, sem dúvida. Eu cheguei em 2000 e essa parte defensiva na Itália é mais valorizada do que na Inglaterra ou no Brasil. Até na Alemanha. Se um zagueiro conseguir sucesso na Itália, sobe de patamar. O conhecimento sobre o jogo muda muito. Aprendi muito com o Maldini e com o Costacurta, e também com o primeiro treinador que peguei na Itália, o Alberto Zaccheroni. Melhorei muito ao lado deles porque o futebol italiano é jogado de outra forma. Defensivamente, aprendi muito. 

O que existe de tão diferente entre o futebol italiano com o inglês e o alemão?

Todos eles têm alguma característica muito própria. Na Itália se valoriza outras coisas e posso dar exemplos que aconteceram com a gente: podíamos ganhar 5 a 2 ou 4 a 1, mas os gols sofridos eram muito falados e analisados. Na Inglaterra não era assim. Um 5 a 3 é muito apreciado, para os italianos nem tanto. Na Itália é tudo muito tático e qualquer movimentação é valorizada; na Alemanha se olha mais para a força, o futebol é mais solto e há mais posse de bola, sem a mesma preocupação defensiva. Quando joguei na Inglaterra ainda não havia essa preocupação de jogar bem, os clubes médios e pequenos ainda batiam aquela bola na frente, para discutir a segunda bola (risos). E depois jogar a partir daí. Há essas particularidades, mas na Itália era diferente de todos os países. 

qQuando joguei na Inglaterra ainda não havia essa preocupação de jogar bem, os clubes médios e pequenos ainda batiam aquela bola na frente, para discutir a segunda bola (risos)

Desde que você deixou o Milan, passando por Leeds e Bayer, você teve uma diminuição na sua frequência de jogos. As lesões atrapalharam sua carreira? 

Na verdade eu tive uma lesão no Milan, que eu fiquei afastado uns sete meses, depois eu tive uma lesão na Inglaterra e uma na Alemanha. Então foram lesões que me deixaram um tempo fora. Eu machuquei o ombro, aí você fala: ‘não vou ficar fora por causa do ombro’, mas eu fiquei fora quase oito meses por causa do ombro. Depois tive uma lesão no calcâneo e fiquei quase uns oito meses também parados por causa do calcâneo. Eu fiquei quase três anos e meio na Alemanha, gostei muito de jogar, gosto muito da Alemanha, acho um país fantástico, me adaptei muito bem, mas acho que esse foi o problema maior ali, que justamente um ano antes da Copa do Mundo de 2006. Em 2005, fomos campeões com a seleção brasileira, dentro da própria Alemanha, da Copa das Confederações, nós ganhamos da Argentina por 4 a 1 na final, e ganhamos antes da própria Alemanha na semifinal. Depois daquilo eu fiquei quase uns oito meses parado.

Já pegando essa transição na carreira, como foi sua experiência como treinador? 

Na verdade, quando eu parei eu, não pensava em ser treinador. Eu comecei um projeto em São José dos Campos. Eu tinha um clube, ainda tenho, chamado Futebol Clube Primeira Camisa. Então, o foco era muito na base. Hoje na Série A do Brasil deve ter uns três jogadores que foram formados pelo Primeira Camisa, que foi de 2007 a 2012.  Já era um pensamento meu ser um diretor. Depois o clube foi licenciado e eu fui trabalhar como diretor de futebol na Série B, no Paraná Clube, aí eu comecei a fazer os cursos de treinador, mas não para ser treinador. Era para entender na ótica do diretor o que precisava um treinador. Eu comecei a fazer os cursos para entender a função de como ser um treinador, o que era necessário para ser um treinador, mas muito mais para me ajudar na função de ser um diretor. E aí depois eu tive um convite do Felipão para trabalhar como analista de desempenho na Copa do Mundo. Eu já tinha feito alguns cursos também no Brasil como analista de desempenho, aí depois da Copa do Mundo com esse meu trabalho eu falei: ‘gostei, vou tentar uma ida no campo’. Aí fui convidado a trabalhar no XV de Piracicaba, tive uma passagem no XV de Piracicaba jogando o Campeonato Paulista, tive uma passagem pelo Ituano, onde fui campeão do Troféu do Interior, e depois tive o convite da Ferroviária para voltar a ser diretor. 

Durante esse tempo como treinador foi boa essa experiência porque aí que vi que eu queria mesmo era ficar mais na parte de fora. Eu acho que consigo ajudar, tenho essa visão do todo, entender o que se passa com o treinador.

O que é que vem na sua cabeça quando você vê essa fotografia com o jovem Roque Junior com a camisa rossonera?

Aqui é um sonho realizado de jogar numa grande equipe como o Milan. Foram estágios que eu fui colocando como jogador e conseguir jogar num clube como o Milan, que um dos maiores do Mundo, ter conseguido ganhar no Milan uma Champions League, ter meu nome marcado lá é uma coisa de orgulho. Sempre que vejo me dá uma felicidade enorme porque é aquilo que eu sempre quis fazer.

©Getty / Andreas Rentz

Aquele jovem Roque atingiu todas as caixinhas que ele gostaria de ter atingido?

Ah sim, sim… Atingi. O primeiro objetivo era ser jogador profissional, depois jogar num clube grande no Brasil e ser campeão com esse clube, depois jogar fora, ganhar com esse clube e jogar na seleção brasileira e ser campeão. Então não tem mais nada. Faria tudo de novo. Consegui realizar tudo.

Roque, nessa fase final vamos fazer perguntas mais rápidas, mas antes ia pedir que pegasse nessa camisa bonita que tem atrás de você. É diferente de todo o resto? 

Sim, sim… Representar o país é diferente. O lugar onde você nasceu. Por mais que eu ache que, levando para um outro lado, por ter vivido em tantos outros países, eu acho que muito das fronteiras somos nós mesmos que colocamos. Então eu acho que esse é um ponto que me ajudou a não ter tanta fronteira. Tenho orgulho, claro, de ter jogado na seleção e ter sido campeão.

Bate-pronto

O melhor parceiro de zaga?

São as fases né. Eu joguei no Palmeiras com o Junior Baiano, depois eu joguei no Milan com o Maldini e Costacurta, na seleção com Lúcio e Edmílson, no Bayer Leverkusen com o Luan, então não tem como falar um. Joguei com grandes jogadores que me ajudaram de alguma forma e eu sei que os ajudei de outra forma. Então coloco nessas escolhas esses jogadores.

Seus melhores amigos no futebol?

É relativo isso também. Você conhece bastante gente no futebol. Mas os caras que tenho bastante contato hoje são Serginho, Dida, Arce, que joguei no Palmeiras, o Robson Pontes que está em Portugal e joguei no Bayer Leverkusen, então são esses… Alguns outros no Palmeiras, o Junior lateral, são caras que a gente ainda tem contato mais próximo, mas tem tantos outros.

O jogo da sua vida? É a Copa do Mundo?

Sim, sim. Mas eu acho que são em fases. No Palmeiras eu vou falar da final da Libertadores, no Milan da Champions.

O atacante mais difícil que você enfrentou?

É difícil. Quando eu comecei no São José, na minha primeira partida como profissional, eu tinha 16 anos. Não sei vocês vão lembrar, mas era um centroavante antigo que jogava na Ponte Preta, chamava Monga. Ele era muito forte e eu era muito mais fino do que peso hoje. Eu tinha 70 quilos. Então eu lembro da dificuldade que era jogar contra o Monga. Eu fininho, ele só me tirava no corpo. 

Enfrentei grandes atacantes no futebol brasileiro, na época do Palmeiras, na Itália outros tantos, não tem exatamente um. Não vou falar um. Você tinha jogadores que eram muito mais rápidos. Por exemplo, jogar contra Anelka você tinha que tomar cuidado com a bola nas costas, muitas vezes a gente jogava coletivamente fazendo uma pressão no campo adversário, então tinha que tomar cuidado com as costas. Você tinha o Trezeguet que não dominava dentro da área, a bola vinha cruzada e ele bate de primeira, então você tinha que estar atento. O Ronaldo era rápido, força e qualidade no um contra um. Então você tem uma série de atacantes quando se joga nesse nível que é difícil dizer um jogador só.

qO Palmeiras foi o time que me colocou para o mundo

Quando era criança, quem era seu ídolo?

Eu começo a jogar como lateral esquerdo por causa do Junior do Flamengo. Ele era um dos meu ídolos. Sempre gostei dos jogadores que jogavam atrás: Leandro, Mozer… Venho de uma família, meu avô e meu pai eram flamenguistas. Na época, no sul de Minas, na verdade a gente tinha mais contato com futebol carioca do que com futebol mineiro. Por parte de mãe meu avô era atleticano, e por parte de pai era flamenguista. Então a gente via muito campeonato carioca, e como flamenguista sempre tive essa influência da parte de pai e do meu avô. Me lembro desses jogadores do Flamengo, que sempre foram referência. Depois eu tive a oportunidade de jogar com o Aldair no jogo de despedida, que para mim foi um dos grandes zagueiros que o futebol mundial já teve.

Você sentiu falta de ter defendido algum clube no futebol brasileiro?

Não, não… Eu assim, eu tinha esse objetivo de ser profissional, de conseguir jogar profissionalmente e jogar em alto nível. Tenho um relacionamento hoje com o Palmeiras muito grande pela história, foi o time que eu acabei, não só o São José, mas o Palmeiras foi o time que me colocou para o mundo, onde dali saí, fui para o Milan, fui para a seleção eu ainda estava no Palmeiras, então tem esse carinho muito grande pelo Palmeiras. Não tem nenhum outro time que eu penso que deveria ter jogado. Essa relação de quase cinco anos com o Palmeiras foi aquilo, foi o início dessa caminhada que eu tive pelo mundo e do que eu conquistei.

Podemos aguardar notícias suas no futebol?

Sim, sim… Isso com certeza daqui uns dias eu estou de volta.

©Getty / Andreas Rentz

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Fonte: Ogol

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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