Contra tudo e contra todos: A saga de time do Haiti para disputar (e vencer) na Champions
Anuncie Aqui
Contra tudo e contra todos. O lema é recorrente no futebol e no caso do Violette AC, do Haiti, ele pode muito bem ser usado sem remorsos. Pobreza e violência são a rotina para os jogadores do clube, que mal pode atender o título de profissional e precisa defender seus jogos fora do país. Nada disso impede o clube de sonhar com a Liga dos Campeões da Concacaf, uma meta atrapalhada por uma dificuldade pouco usual: a falta de vistos para atuar nos Estados Unidos.
O caso do Violette tem quebrado as fronteiras da Concacaf – o futebol por aquelas bandas raramente ganha destaque internacional. O motivo para isso é em parte pela história de superação haitiana, depois de vencer o Austin, da MLS, por 3 a 0 no jogo de ida das oitavas de final. Mas é também em parte pelo bizarro. O clube pode se ver impedido de disputar a Liga dos Campeões e corre até o risco de ser suspenso do torneio por conta da incapacidade para conseguir autorização de entrada de seus jogadores para encarar o jogo de volta, nos EUA. Tudo isso com a Concacaf lavando suas mãos.
Ao que todo indica, a partida desta terça-feira vai se tornar realidade, com um contingente de jogadores “suficientes” para entrar em campo. Mas a jornada para chegar até aqui tem sido atribulada e avançar parece improvável até mesmo com a vantagem de três gols.
Longe do abastado mundo do rival da MLS, o Violette é um time que conta com atletas semi-profissionais. Embora pagos, a dedicação exclusiva ao futebol é uma realidade distante para os jogadores locais. A maior parte divide o tempo com outra profissão, ou com os estudos, quando podem. Mas tradição não falta à equipe.
A classificação para a Liga dos Campeões atual veio depois de título no Campeonato Apertura de 2020/21. A temporada completa não foi realizada por conta dos conhecidos problemas locais com um combo de desgraças: Covid-19, inflação, violentas disputas internas, assassinato do presidente Jovenel Moise e um terremoto que matou mais de 2 mil pessoas e deixou milhares de desabrigados.
Com poucos jogos disputados desde então e longos meses de inatividade, a aposta era que o Violette seria apenas um figurante contra o Austin, com estrutura e orçamento muito superior. O time do Haiti foi ainda obrigado a jogar na República Dominicana. O resultado foi surpreendente: 3 a 0, com o pouco conhecido Michenaider Chery em destaque, autor de dois gols.
A goleada do Violette tornou toda a epopeia para o jogo de volta ainda mais interessante. Não está claro há quanto tempo o clube se mobilizou para conseguir os vistos, mas o fato é que há pouco que possa ser feito contra a apertada política norte-americana. Para habitantes de um país pobre e com tantos problemas como o Haiti, não é fácil e muito menos garantido entrar nos EUA, mesmo que todos os procedimentos corretos tenham sido adotados.
Quatro dias antes do jogo de volta, a Concacaf teve de se pronunciar para garantir que o jogo iria acontecer. Mas a entidade evita falar publicamente do assunto, delicado, por expôr problemas institucionais difíceis de resolver. Impedir um time que acabou de ganhar de 3 a 0 de participar de um jogo por conta do veto nos vistos não é exatamente algo que contribua para a imagem de uma disputa justa dentro dos princípios do esporte. Ainda mais quando a equipe vencedora tem de lutar já com uma desigualdade de estrutura e orçamento, entre outras intempéries. Mas o regulamento é claro: a culpa do que acontecer é apenas do clube, ou no caso, da vítima.
Além de uma multa, o Cavaly foi punido com exclusão por dois anos das competições da Concacaf. O Violette tenta evitar o mesmo destino, e apelou para uma estratégia inusitada.
Com a certeza de que não terão força completa, e com receio de não terem sequer um time para mandar a campo, o Violette recorreu para o jogo de volta contra o Austin para uma estratégia incomum: buscar reforços dentro dos Estados Unidos.
O apoio virá do FC Motown Celtics, da segunda divisão da USL, liga menos abastada que a MLS. Samuel Pompée é ex-jogador do Violette, e Maudwindo Germain fez parte das seleções de base do Haiti. Ambos foram liberados para jogar pelo clube na Liga dos Campeões. Outros ex-atletas do Motown foram também recrutados, como Dumy Fede. “Mercenários” contratados a princípio para apenas um jogo com uma missão complicada pela frente.
Ainda não está claro que time vai a campo para enfrentar o Austin, mas a missão será tentar fazer do time montado às pressas segurar a boa vantagem conquistada com força máxima. Ao que tudo indica, ao menos o Violette já havia antecipado a possibilidade de utilizar os jogadores baseados nos EUA, aprendendo com a lição da punição ao Cavaly.
Para o Violette, apenas o fato de competir na principal competição da América do Norte contra todas as expectativas é motivo de orgulho. Mas por que não sonhar com mais?
Fonte: Ogol
Anuncie Aqui
Alcance milhares de leitores
Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
Ver mais matérias
Comentários