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ESPORTES

Dele Alli relembra traumas da infância, revela vício e confessa quase ter se aposentado

13/07/2023 às 17:55
3 min de leitura

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Quem vê o jogo (e só) tem noção apenas de uma parte, pequena, do que envolve o meio do futebol. Quem vê o jogo (e só), e por ai baseia todas as suas opiniões, tem visão limitada, e esquece que o jogo é jogado, feito e trabalhado por e para pessoas. Dele Alli, em entrevista reveladora para o ex-jogador Gary Neville, em seu programa The Overlap, talvez tenha nos lembrado disso. Mesmo que daqui a pouco esqueçamos novamente. O meia, ex-Tottenham, desnudou-se por completo, falando de uma infância de traumas, de uma carreira que poderia ter acabado e da luz no fim do túnel que agora pode ver, depois de superar (ou em processo de) um vício. 

Alli passou as últimas semanas em uma clínica de reabilitação nos Estados Unidos. Quem não sabia, e tentou entrar em contato com o jogador, pode ter se preocupado com a demora para retorno. Alli lutou contra os traumas do passado, contra um vício e aprendeu que lidar sozinho com os problemas não ajuda (pelo contrário). Hoje, quer falar isso para todo mundo, para impactar a vida das pessoas de forma positiva (como toda figura pública deveria fazer). 

Neville já conhecia Alli. Já havia trabalhado com o meia na seleção inglesa, da qual fazia parte da comissão técnica. Mas na entrevista, a verdade é que conheceu um outro Alli. Aberto, disposto a falar de tudo. Principalmente da luta que viveu nas últimas semanas, para recuperar a vontade de fazer o que mais ama: jogar futebol. 

“Eu estava acordando todo dia e estava ganhando a batalha, indo para o treino, sorrindo, mostrando que estava feliz, mas por dentro, eu estava definitivamente perdendo a batalha. E era o momento para eu lidar com isso”, contou o meia. 

Há anos, Dele Alli tem um adversário difícil de superar. “Sempre foi uma luta minha contra eu mesmo. Sempre fui meu próprio herói e também meu maior inimigo”. 

A decisão pela internação, no momento em que se recuperava de uma lesão na Turquia, onde defende o Besiktas, veio por conta do vício em comprimidos para dormir. 

“Eu me tornei viciado em pílulas para dormir. E não acho que seja um problema que apenas eu tenha, é algo que está por aí muito mais do que as pessoas desconfiam, no mundo do futebol. Talvez eu vir aqui e falar ajude as pessoas, porque, não me entenda errado, eles trabalham, no nosso calendário, você tem um jogo, tem de acordar cedo para treinar, tem toda essa adrenalina, e, às vezes, tomar um comprimido para dormir é ok. Mas quando seu sistema nervoso está tão danificado quanto o meu, o comprimido pode ter o efeito oposto, porque ele funciona em cima dos problemas que você quer lidar. Esse é o problema, ele funciona até não funcionar. Então eu, com certeza, abusei demais disso. Eu parava às vezes, passava alguns meses sem eles, mas eu não estava realmente lidando com o problema. Em alguns momentos, fiquei muito mal, mas nunca entendia o quão ruim era e nunca tratei a raíz do problema”, confessou. 

O jogador revelou que tomava os comprimidos “às 11h da manhã, em dia de folga”. Era como se ali, procurasse a solução de seus problemas. Mas, como o próprio atleta agora chegou a conclusão, estava longe de combater, de fato, os verdadeiros problemas. 

A infância traumática

A raiz do problema de Alli estava em uma infância conturbada. Filho de Kehinde Alli, um homem de negócios nigeriano, com Denise Alli, Dele não teve um ambiente familiar estável. A sequência de revelações de uma infância traumática de Dele é impressionante. O jogador chegou a chorar ao contar. 

“Aos seis anos, fui abusado por um amigo da minha mãe que frequentava nossa casa. Minha mãe era uma alcoólatra. Então fui enviado para a África (casa do pai biológico), para aprender sobre disciplina. Aos sete, comecei a fumar, aos oito comecei a vender drogas. Uma pessoa mais velha falou que não iriam parar uma criança em uma bicicleta, então eu andava com minha bola de futebol, e por baixo ficavam as drogas. Aos 11, fui pendurado em uma ponte por um homem (que tentou enforcá-lo). Aos 12, fui adotado. Fui adotado por uma família incrível, não poderia esperar pessoas melhores”, contou. 

Foram 12 anos de pura turbulência. Uma sequência de traumas que poderiam acabar com a perspectiva de futuro de qualquer um. Mas Alli passou a ter uma base familiar de bons exemplos, na família que o adotou, e encontrou no futebol um refúgio. 

Dele conseguiu deixar de lado a infância de muitos traumas para se tornar um jogador de futebol profissional. Saiu do modesto Milton Keynes para o Tottenham, e dos Spurs para o English Team, disputando uma Copa do Mundo. Com Maurício Pocchetino, viveu seu melhor momento. “Pocchetino foi o melhor técnico da minha carreira, não poderia ter pedido outra pessoa melhor naquele momento”. 

Quanto maior a altura, maior é a queda. Já nos tempos de José Mourinho no comando dos Spurs, o mundo de Dele virou de cabeça para baixo. Aí, então, veio o vício, e os traumas do passado começaram a cobrar um preço. 

Alli foi perdendo o foco na carreira, começou a tomar pílulas descontroladamente e fazia festas regadas a muito álcool em sua casa. “Inconscientemente, estava repetindo um comportamento da minha mãe”. O jogador recorda que, nessa época, chegou a pensar em abandonar o futebol. 

“Para mim, o momento mais triste foi quando Mourinho era o técnico, acho que eu tinha 24 anos. Lembro que teve um treinamento, uma manhã eu acordei e tinha que ir para o treinamento, e foi quando ele parou de me colocar para jogar. Eu estava em um lugar muito ruim, lembro que olhei no espelho e estava me perguntando se eu poderia me aposentar. Aos 24. Fazendo o que amo. Para mim, aquilo partiu meu coração”, recordou. 

Essa fase foi retratada em um documentário do Prime Video, que acompanhava de perto os bastidores da temporada dos Spurs. Em um dos episódios, Mourinho chamou Alli de “preguiçoso”. O atleta relembra o episódio, mas garante que o português o pediu desculpas dias depois. 

“Ele me chamou de preguiçoso, foi no dia de recuperação física. Uma semana depois, ele me ligou para pedir desculpas, porque me viu treinando e jogando de verdade. Mas essa parte não estava no documentário, e ninguém fala sobre isso”, revelou o meia. 

Mourinho, Tottenham e o vício parecem ter ficado para trás (apesar de o jogador ter lembrado com carinho de alguns ex-companheiros de Spurs que se preocupavam com ele, como Eric Dier, Harry Kane e Son). Alli vive, agora, um novo momento, de esperança, e acredita que, com a sua história, pode ajudar muitas pessoas.  

“Quero ajudar  outras pessoas, mostrar que elas não estão sozinhas nos sentimentos que elas têm, que pedir ajuda não torna ninguém fraco. Estar vulnerável… Há muita força nisso. Então estou feliz em compartilhar minha história”, disse Alli, que garante estar em um bom lugar nesse momento. 

“Mentalmente, estou no melhor lugar que poderia estar. Me sinto bem. Obviamente me lesionei, mas recuperei a paixão pelo futebol. 
Quando voltei da Turquia, descobri que precisava ser operado, então estava em um lugar muito ruim. Mentalmente. Então decidi ir para uma clínica de reabilitação da saúde mental. Senti que era o momento para isso. Agora, me sinto bem”. 

Ainda vinculado ao Everton, o meia revelou que conversou algumas vezes com Sean Dyche, técnico dos Toffees, mas ainda não sabe qual será seu destino na próxima temporada. O mais importante é que esteja feliz, e possa, de novo, sorrir em campo (e fora das quatro linhas). 

Fonte: Ogol

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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