“Não há outra opção, é preciso ter coragem”, diz primeira indígena a se tornar mestre na FM da USP
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“Não há outra opção, é preciso ter coragem”, diz primeira indígena a se tornar mestre na FM da USP
“As conquistas indígenas sempre são conquistas coletivas, demandam lutas, resistências e competência”. A afirmação é de Indianara Ramires Machado, 32 anos, primeira indígena a se tornar mestre na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), em 110 anos de instituição.
Natural da Reserva Indígena de Dourados, ela conta que escolheu a área da saúde dentro do intuito de trabalhar em apoio a comunidade das aldeias.
A primeira formação universitária foi a graduação em Enfermagem na UEMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e como desafios até alcançar o sonhado diploma, ela pontua o deslocamento da reserva até a universidade e fatores como recursos financeiros e preconceito.
Formada em 2011, a jovem atuou em importantes instituições da Reserva Indígena como a Missão Caiuá e a SESAI (Secretaria de Saúde Indígena) polo base de Dourados. Posteriormente, a opção pelo mestrado ocorreu diante da busca em abordar o aspecto médico e cultural das doenças negligenciáveis existentes na Reserva Inígena de Dourados. A dissertação defendida com maestria foi “Análise interdisciplinar e intercultural sobre as pessoas vivendo com Vírus da Imunodeficiência Humana e a Síndrome da Imunodeficiência na população Guarani da Terra Indígena de Dourados em Mato Grosso do Sul”.
“Na Pesquisa levamos em consideração, entender e compreender, como que o aparecimento da infecção pelo HIV dentro das aldeias indígenas transforma e ressemantiza a maneira como essa doença é vista pela biomedicina”, destaca.
Para Indianara, as crianças e jovens indígenas lidam com “as vulnerabilidades sociais dos Povos Indígenas, bem como, a falta de perspectiva de vida e carregam o trauma cultural do genocídio, de não pertencimento e, portanto, de abandono” e “quando se nasce indígena a escolha é seguir em frente, carregando a coragem dos ancestrais e dos contemporâneos de luta”.
Veja a entrevista na íntegra:
D.N- Conte um pouco de sua trajetória e o que te motivou a cursar Enfermagem na UEMS.
Indianara- Minha formação sempre foi uma construção coletiva, para mim, minha família e principalmente para a comunidade indígena. Me formei na UEMS em dezembro de 2011, logo em seguida fui trabalhar no hospital da Missão Caiuá como enfermeira assistencial, ficando lá até junho de 2013, após isso, fiz o processo seletivo para enfermeira assistencial da SESAI (Secretaria Especial de Saúde indígena, posteriormente fui trabalhar na Unidade Básica de Saúde Indígena Ireno Isnarde. Em 2016 fui chamada para compor a Coordenação Técnica do Polo base de Dourados da SESAI. Saí da SESAI em Dezembro de 2020. Também atuo como apoiadora nas pesquisas em andamento da FIOCRUZ-MS (Fundação Oswaldo Cruz de Mato Grosso do Sul) e da FIAN (Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas). Além de ser voluntária da AJI – Ação dos Jovens Indígena de Dourados.
Como foi concluir a graduação de Enfermagem?
Indianara– Na época de formada eu gostaria muito de trabalhar com minha comunidade, após formada, fiz os processos seletivos e consegui atuar como enfermeira assistencial e na gestão técnica da saúde indígena. Atuei no Hospital da Missão Caiuá como enfermeira assistencial, foi meu primeiro emprego e também foi onde nasci, o parto da minha mãe foi lá, para mim foi muito significativo, nasci enquanto pessoa e nasci enquanto profissional naquele local. Logo fui atuar na atenção básica de saúde indígena e depois na gestão técnica. Finalmente, o mestrado. Na enfermagem a gente vive em constante formação e aprendizado.
D.N-Quais foram os principais desafios?
Indianara– Durante a graduação e pós-graduação os desafios de permanência na universidade são semelhantes para os estudantes indígenas, como por exemplo: deslocamentos das comunidades de origem até a universidade, que está localizada na cidade, preconceitos dos não-indígenas, dificuldades financeiras, acesso as línguas estrangeiras, custeio para participação em eventos da área e publicação de artigos entre outros.
D.N-Qual foi a motivação para cursar mestrado na USP?
Indianara– As populações indígenas são as principais afetadas pelas doenças negligenciáveis, sendo assim, tive conhecimento de duas grandes áreas na Pós-graduação em Fisiopatologia Experimental na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a qual gostaria de me inscrever e também me aprofundar sobre o tema, as Grandes Endemias e a Antropologia Médica, posto isso, busquei formular perguntas de pesquisa que abordassem tanto o aspecto médico quanto o aspecto cultural do problema. Os professores me acolherem muito bem e incentivaram a pesquisa, principalmente o Dr. Carlos Corbett do Laboratório de Patologia das Moléstias Infecciosas (LIM/50) da FMUSP. As Professoras Dra. Elia Tamaso Espin Garcia Caldini, Dra. Márcia Dalastra Laurenti bem como a minha orientadora Profª Dra. Maria de Lourdes Beldi de Alcântara e a co-orientadora Dra. Cláudia Maria de Castro Gomes.
D.N- O que te motivou a escolher o tema da dissertação “Análise interdisciplinar e intercultural sobre as pessoas vivendo com Vírus da Imunodeficiência Humana e a Síndrome da Imunodeficiência na população Guarani da Terra Indígena de Dourados em Mato Grosso do Sul”?
Indianara– Na Pesquisa levamos em consideração, entender e compreender, como que o aparecimento da infecção pelo HIV dentro das aldeias indígenas transforma e ressemantiza a maneira como essa doença é vista pela biomedicina. São universos simbólicos que se entrecruzam, porém não na mesma dinâmica, na mesma velocidade e, principalmente, na mesma situação de poder. Buscamos assim que a pesquisa contribua para o aperfeiçoamento de políticas e programas de saúde em situações de interculturalidade, em especial na população indígena. Existe uma necessidade de compreensão mais ampliada dos fatores relacionados a infecção pelo HIV e a AIDS. Isso mesmo depois de tantas décadas após o surgimento do HIV e a AIDS.
D.N-Como avalia ser a primeira indígena a defender o trabalho de mestrado na Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP)?
Indianara– As conquistas indígenas sempre são conquistas coletivas, demandam lutas, resistências e competência. A pós-graduação para os indígenas ainda é recente, espero que muitos indígenas venham ocupar os espaços das universidades, fico feliz e honrada com finalização dessa etapa, mas, tenho plena consciência que há muito que avançar em relação aos Povos Indígenas no Brasil, principalmente no que tange a pesquisa.
D.N-Em algum momento pensou em desistir?
Indianara-As vulnerabilidades sociais dos Povos Indígenas, bem como, a falta de perspectiva de vida de muitos jovens e crianças indígenas, carregam o trauma cultural do genocídio, de não pertencimento e, portanto, de abandono. Nesse sentido, não há outra opção é preciso ter coragem. Recuar nunca foi uma escolha. Quando se nasce indígena a escolha é seguir em frente, carregando a coragem dos meus ancestrais e dos meus contemporâneos de luta.
D.N-Quais passos pretende dar daqui para a frente na carreira?
Indianara- O doutorado é uma porta aberta, amo ser pesquisadora, todavia, adoro estar na assistência da enfermagem.
D.N- O que diria para pessoas que buscam um sonho de carreira e contam com grandes desafios, como foi no seu caso?
Indianara- É preciso avançar, embora haja medos e desafios. Que a força dos nossos ancestrais nos encoraje. Aguyjevete!
Foto: Indianara durante defesa do mestrado/ Crédito: Thaise Yumie- Adusp

Fonte: Dourados News
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Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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