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DOURADOS

Por opção ou falta de alternativa, morar na rua é desafio e políticas públicas ajudam mudar de vida

19/08/2023 às 07:21
3 min de leitura

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Por opção ou falta de alternativa, morar na rua é desafio e políticas públicas ajudam mudar de vida

“Tenho esperança de um dia buscar sair dessa vida. Penso nisso todos os dias”, destaca Lucas*, 43 anos, morador de rua em Dourados. Em entrevista ao Dourados News, o homem contou que mora na rua há 11 anos, o que ocorreu após se tornar dependente de drogas ilícitas, passar por um término de relacionamento e perder o trabalho. Apesar do desejo, ele disse que no momento não tem aceitado apoio para retomar uma vida social e voltar ao mercado de trabalho e cita buscar “forças”.

Histórias semelhantes a de Lucas (que terá o nome preservado conforme solicitou a nossa equipe de reportagem) são notáveis em muitas cidades, bem como na maior do interior de Mato Grosso do Sul.

No dia que marca a Luta da População em Situação de Rua, o Dourados News mostra os serviços existentes nesse sentido no município e também vivências de quem passa por esse desafio.

Sem contato com familiares atualmente, Lucas diz que mãe já é falecida e o pai mora em outra cidade de Mato Grosso do Sul.  Para ele, o problema principal é a dependência química, mas apesar das circunstâncias, diz crer no poder superior para o seu futuro.  

“O que segura mais é a questão da dependência química, infelizmente, é complicado. A gente acaba perdendo trabalho por causa disso, não sei mais da minha família.  Frequentemente eu peço para Deus para me dar forças pra eu poder conseguir sair dessa situação, tenho vontade de me livrar, de conseguir, de vencer”, diz. 

Lucas é uma das pessoas atendidas pelos serviços do Centro POP (Centro Especializado para População de Rua em Dourados, que presta atendimento socioassistencial, com equipe especializada, inclusive contando com psicólogos e assistentes sociais e atende uma média de 150 por mês.

Além do atendimento na sede do centro, situada no Jardim Água Boa, as equipes vão às ruas diariamente e oferecem serviços públicos para essa população.

“Por encaminhamento ou demanda espontânea, nossos serviços são voltados para quem faz a rua exclusivamente de moradia”, ressalta a coordenadora do Centro, Cristiane Campos de Andrade. Por meio da escuta qualificada, a equipe de profissionais realiza encaminhamentos ‘caso a caso’, deste público, o que pode envolver outros serviços existentes no município como da área de saúde ou de outros segmentos.

“Apoiamos conforme as necessidades, por exemplo, precisa tirar documento, não tem a certidão, entramos em contato com a cidade de origem e fazemos as tratativas. quando quer fazer um tratamento, sair da vida de usuário de drogas, encaminhamos para o Caps AD ou Caps II. Precisa tomar vacina, encaminhamos para o posto de saúde”, explica.

Conforme a coordenadora Cristiane Campos de Andrade, não é possível especificar quantas pessoas estão em condição de rua em Dourados, mas é possível notar que desde 2019, essa situação tem sido mais eminente.

Para ela, tal fator foi motivado devido a vinda de imigrantes para o município, já que alguns vieram por meio do Projeto Acolhida, já com vínculos empregatícios definidos, mas, em outros casos, imigrantes optaram por vim para o município, sem trabalho pré-definido.

Um ponto ressaltado pela coordenação, é que os encaminhamentos e acompanhamentos são individuais e dependem da vontade da pessoa.

“Quando a pessoa não quer ser atendida, a gente respeita, faz as orientações e ‘volta’ nessa pessoa várias vezes, que a gente entende que uma hora ela vai ter confiança na equipe e vai ouvir com mais clareza, aceitando as orientações”, destaca.

Assim como Lucas*, alguns moradores de rua têm conhecimento do apoio existente dos serviços públicos, caso manifestem interesse em voltar ao convívio social, mas optam em permanecer na condição que estão.

“Cada pessoa tem seu motivo, alguns estão na vida de usuário, estão ali acostumado com aquilo, ás vezes não quer sair dessa vida, aí quando ele quiser sair, estamos ali, para ajudar e fazer os encaminhamentos necessários. A gente vai para orientação mais de uma vez com a mesma pessoa, mas cair em si, de sair da situação de rua, tem que partir do indivíduo”, explica a coordenadora do Centro Pop.

O Centro também realiza direcionamentos a partir de informações de populares sobre pessoas em condição de rua, nos pontos diversos da cidade. 

Dourados conta também com o serviço da Casa da Acolhida, destinado às pessoas em situação de rua, que oferece hospedagem temporária, alimentação, inscrição no Cadastro Único Federal, documentação pessoal, agasalhos, alimentação e encaminhamentos como qualificação profissional e apoio na inserção do mercado de trabalho.

A coordenadora da Casa da Acolhida, Marly Maria Morgenrotti cita que as ações também são definidas no local, de forma personalizada para cada indivíduo, envolvendo vários segmentos públicos.

Conforme Morgenrotti, a demanda maior ocorre no período de inverno, com o projeto Noites Frias e o número de atendimento chega a atingir uma média de 120/ mês.

“ Nós temos uma equipe técnica com psicólogo e assistente social, quando os usuários chegam até nosso serviço estes são acolhidos pelos cuidadores e plantonistas, onde é feita a ficha de identificação e em seguida passa por atendimento psicossocial  e através da escuta individual, temos o parecer técnico que depende muito do que o usuário procura, às vezes eles demonstram interesse de estar buscando trabalho ou precisa de atendimento médico as técnicas fazem os encaminhamentos para a saúde e agência de emprego e outros serviços socioassistenciais”, detalha.

Entre as dificuldades existentes diante das demandas do público atendido, a coordenadora cita o acesso a documentação, pois “a maioria perde ou usa como penhora (moeda e troca)”.

Reconstruindo a vida

Cleide Ferreira de Morais, 42, está reconstruindo a vida, após ter vivido cerca de 15 dias em condição de rua, na capital, juntamente com o esposo Alexsandro, de 40.

Ela optou por se deslocar para Dourados e buscou apoio no Casa da Acolhida.

Conforme a dona de casa, fatores financeiros resultaram no fato do casal ter que recorrer às ruas e, após buscar o apoio assistencial, a “volta por cima” chegou. São 15 dias residindo na casa alugada e com novos planos pela frente. 

“Meu esposo ficou desempregado e junto tivemos alguns fatores de saúde. Não foi fácil enfrentar a rua, frio, sol, sede e ficar sem tomar banho, vivenciamos isso, mas Graças a Deus estamos conseguindo vencer agora, alugamos uma casinha, já temos um fogão, um botijão de gás, enfim, acho que também não dá para ficar esperando. A pessoa tem que querer primeiramente e depois correr atrás das coisas”, aponta, ao contar que o momento de escassez fez com que recorresse a pedir abrigo para a filha de 12 anos para a irmã que reside em Rio Brilhante, no entanto, já se deslocou para a cidade para buscar a adolescente. 

Serviço

Em Dourados, o Centro POP está situado na rua João Damaceno Pires, 1365 – Jardim Água Boa. O contato é (67) 3426-1301. 

A Casa da Acolhida está situada na rua Jandáia, 1765 – Jardim Rasslem. O contato é (67) 3411-7716 ou plantão: 8468-8045.  
 

Foto interna: Casa da Acolhida/ Divulgação/ Assecom 

Situação de rua é opção de alguns e falta de opção para outros – Foto: Dourados News

Fonte: Dourados News

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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