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DOURADOS

“Não basta ‘bombom’, precisamos que a luta avance, que a mulher seja valorizada”, diz ativista

08/03/2024 às 08:24
3 min de leitura

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“Não basta ‘bombom’, precisamos que a luta avance, que a mulher seja valorizada”, diz ativista

“Não basta para a mulher ganhar flores, ganhar bombom, ganhar uma homenagem ‘bonitinha’. Ela quer nesse dia o apoio da sociedade para que a luta avance, para que o pensamento mude, para que ela seja ouvida, valorizada, seja cuidada de fato por essa sociedade que muitas vezes não valoriza a mulher como valoriza o homem”, afirma a representante do Movimento 8 M, Alline Roberto da Silva sobre o dia 8 de Março, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher. 

Em entrevista ao Dourados News, Alline, que também é da Secretaria dos Trabalhadores Antirracismo e Defesa da Diversidade do Simted (Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação) e Heblisa Mello, do Movimento 8 M e representante do Fórum de Trabalhadoras do Suas (Sistema Único da Assistência Social) e psicóloga explanaram sobre as demandas existentes para o público feminino no município, feminicídio, ‘micromachimos’ enfrentados no dia a dia, avanços ao longo dos anos em questões voltadas para a qualidade de vida ‘delas’ e a busca constante por igualdade e legitimidade de direitos. 

Com o registro de sete feminicídios em Mato Grosso do Sul, em 2024, as representantes do Movimento abordam a necessidade de mais segurança em um todo para as mulheres e citam pequenas violações no cotidiano que precisam ser debatidas, no sentido de que posteriormente, não cheguem a impactar em perder uma vida. 

Pontos como melhorias em políticas públicas, em saúde, em educação são apontados pelas representantes com impacto direto na vida ‘delas’, que muitas vezes são mães solos ou responsáveis por grande parte da renda financeira da casa e, não possuem um apoio eficaz do poder público para desempenharem seu papel como deveriam, de forma profissional, por exemplo. 

Para Heblisa Mello, o debate com a sociedade precisa ser priorizado como uma forma de prevenir a violência contra a mulher e também como ferramenta para entendam e busquem avançar no seu caminho pessoal, ocupando cada vez mais espaços de liderança e não somente espaços ‘subalternos’.

 

Veja a entrevista na íntegra: 

D.N- As mulheres alcançaram muitas coisas ao longo dos anos como o direito ao voto, cargos de liderança. Na sua visão, o que ainda falta ser conquistado?

Alline Roberto- Falta a garantia dos direitos das mulheres e a igualdade de gênero na nossa sociedade. Muitas vezes as mulheres são subjugadas, discriminadas, por serem mulheres, tem sua capacidade colocada em dúvida. Falta segurança, isso deixa as mulheres com receio de ir além, por medo de não serem aceitas, por medo de não serem acolhidas nas suas demandas. Penso que por conta desses pensamentos, desses tipos de tratamentos que a sociedade destina a mulher, nós estamos pedindo visibilidade, indo à luta mesmo nesse Dia 08 de Março para mostrar que nós somos sim capacitadas, habilitadas e somos mulheres que fazem a sociedade girar. 

Em relação a políticas públicas existentes no município para as mulheres, qual sua avaliação?

Alline Roberto- Nós hoje ainda contamos com uma dificuldade de até mesmo poder se locomover, pois a segurança a nós não é garantida, principalmente a noite, de madrugada. Então a mulher, não tem segurança de poder ir e vir, para fazer o que tiver necessidade, isso torna a vida dela mais difícil na sociedade. Na questão da educação muitas vezes, tem se a dificuldade de conseguir uma escola próximo da residência para o filho estudar e, isso atrapalha muito a organização familiar, por conta que as pessoas precisam ou desembolsar valores para levar os filhos longe da residência ou levar muito tempo de bicicleta ou a pé para garantir a educação dessa criança e, quando a essa questão é dificultada, na maioria das vezes acaba sobrecarregando as mulheres. A questão da Saúde, no município, as mulheres estão tendo dificuldade quando precisam realizar seus exames básicos ou até mesmo fazerem uma consulta, muitas vezes a espera para os procedimentos é grande e isso influencia na vida delas. Voltando um pouco na educação, tem a questão do atendimento integral às crianças pequenas, principalmente de zero a cinco a anos, que o atendimento foi cortado em Dourados. Essa dinâmica atrapalha bastante a mulher, que muitas vezes não consegue trabalhar ou vê sua renda diminuída por ter que pagar alguém ou pagar uma escola no contraturno, o que não é barato, para que possa desenvolver seu trabalho na sociedade. Nesse caso, muitas tem que optar por fazer bicos ao invés de ter um trabalho formal, para poder assim conciliar um trabalho com os filhos. Vale destacar que isso também é um direito da criança e a educação em tempo integral é uma necessidade na cidade.   

Mato Grosso do Sul já registra seis feminicídios em 2024. Qual sua avaliação sobre esse dado? Como trabalhar isso?

Alline Roberto-  Esses dados são altos constantemente. Para melhorar essa situação, para poupar vida das mulheres é necessário que a lei Maria da Penha seja cumprida, pois muitas vezes, isso não acontece de forma integral. Outro ponto é que muitas vezes a mulher procura atendimento na delegacia da mulher e ali ela não tem o acolhimento que ela necessita para se sentir acolhida e que a lei vai protegê-la. Aqui em Dourados, esse ano temos a conquista da Casa Mulher Brasileira, que foi anunciada pelo Governo Federal, vai atender as mulheres em situação de violência, mas, o nosso Estado com alto índice de feminicídio, já poderia estar pautando essas políticas antes, não somente agora com a construção dessa Casa. Vale destacar um problema que notamos, que é que no final de semana, muitas vezes que é quando o convívio familiar é mais intenso e a mulher precisa da Delegacia da Mulher e acontecem as confusões, brigas ou outros, a unidade fecha. O atendimento da mulher e dos filhos nessa unidade, precisa ser melhorado. Outro ponto ligado ao feminicídio é que as mulheres muitas vezes não tem a informação adequada sobre as leis atuais, não consegue procurar a ajuda por não ter informação, as vezes ficar no senso comum, não ter a plena conscientização dos seus direitos e, isso prejudica também para que ela busque ajuda e seja protegida.Essa temática precisa ser amplamente divulgada. Nas escolas, esse tema precisa ser abordado e no dia a dia, não só no dia das mulheres para poder orientar a todos e assim diminuir a violência com a categoria. Outro ponto é em casa, tem que ser trabalhado o respeito com as meninas, debater em casa, que os irmãos precisam respeitar. Na escola vemos algumas situações de meninos que já agem de forma desrespeitosa com suas irmãs ali no pátio da escola e a escola precisar intervir, chamar para conversar, é um exemplo que aconteceu comigo em atuação na Reme e explicamos que isso precisa servir de pauta familiar.  

Para muitos, o 8 de março é apenas uma data para dar flores ou chocolate. Como acredita que essa data deveria ser vista? Como mudar esses pensamentos de muitos na sociedade?

Alline Roberto – Nós que somos da luta, já temos essa consciência há muito tempo, de que não basta apenas comemorar, temos que ir a luta pedir a igualdade de direitos e a sociedade como um todo tem que pensar que pode sim ser comemorado, mas não é só um dia de comemoração, é um dia de luta, um dia de movimento, dia de visibilidade sobre a vida das mulheres, sobre como está a organização da sociedade diante da luta das mulheres que é diária. Ela tem dupla jornada de trabalho, muitas precisam trabalhar pelo sustento de sua família. Algumas mulheres mãe solo, elas precisam cuidar de toda uma família e as vezes não apenas dos filhos. Então nesse momento, não basta para a mulher ganhar flores, ganhar bombom, ganhar uma homenagem ‘bonitinha’. Ela quer nesse dia o apoio da sociedade para que a luta avance, para que o pensamento mude, para que ela seja ouvida, valorizada, seja cuidada mesmo por essa sociedade que muitas vezes não valoriza a mulher como valoriza o homem.

O tema da Marcha é “Vivas e Livres: Uma Grande Dourados para as Mulheres”. Descreva como seria de fato, uma cidade para as mulheres. O que precisa melhorar?

Heblisa MelloEscolhemos esse tema pois entendemos que realmente precisamos falar da vida das mulheres, falar da liberdade real que a gente pode ter. Escolhemos colocar também na mesma arte da ação que tinha já a representação das mulheres do campo, indígenas, mães, colocamos também uma plaquinha falando das mulheres palestinas, resolvemos trazer esse ponto para falar sobre a liberdade, como uma luta para todas as mulheres. Precisamos nos sensibilizar com a dor de todas as mulheres.   A gente tem muito caminho para percorrer em relação a melhoria em direitos, implantação e validação destes. Há pouco falávamos sobre a questão do empoderamento, da gente ter conseguido alçar novos postos de poder, mas ainda existe disparidade nessa questão. A presença feminina na política ainda é pequena, os homens dominam dentro da nossa Câmara por exemplo, podemos ter essa noção. Isso mostra claramente para gente que as mulheres são ainda muito colocadas em posições de cuidado, são as professoras, são as psicólogas, são as pessoas que fazem a limpeza da casa, então a gente acaba vendo as mulheres em posições subalternas e é muito difícil uma sociedade que tem traços claríssimos de misoginia valorizar o lugar de representação das mulheres na sociedade. A gente continua com esse tema, pois em todos os âmbitos da sociedade temos pontos sensíveis. Vivas pois o feminicídio aumentou muito, livres vai e denuncia, esse cara às vezes ele se defende, agredindo, se defende restringindo a liberdade, se defende dominando essa mulher tentando dominar e aí, os processos de fortalecimento da consciência das mulheres como um todo, da sua própria liberdade, são coisas que a gente precisa falar. A gente tem muito potencial de fazer as coisas acontecerem a partir dos nossos movimentos de marcha e por isso que insistimos nesses atos. Faço parte ativamente da organização do 8 M desde 2018, mas desde 2008 essa marcha acontece aqui em Dourados. Temos um histórico de muitas mulheres que fazem parte dessa luta com seus coletivos e movimentos na busca pelo básico que é a adequação das leis que já existem para o que a gente precisa na nossa cidade. Uma das cobranças que batemos bastante na tecla ano passado foi a reimplantação da rede de enfrentamento da violência contra a mulher, que é uma responsabilidade da Coordenadoria de Políticas Públicas, então a partir das nossas demandas junto a Câmara Municipal e ao prefeito foi colocada uma representante nessa, porém, efetivamente a Rede não ficou ativa, ainda não estamos vendo o trabalho, ainda está muito distante do que poderia ser útil de fato para Dourados. E esse trabalho seria muito mais do que fazer uma campanha no 8 M é fazer todo aporte organizacional de conectar os pontos entre organizações que protegem a mulher seja a polícia, seja o HU para prevenção e combate no caso de estupro, seja conselho tutelar, o Creas, na Assistência Social, unir esses órgãos fazer um levantamento real do que está acontecendo para poder alinhar os processos. Isso sim seria uma rede de sustentação que assegure a qualidade de vida das mulheres e que de fato enfrente a violência e como fazer isso? Provocando a reflexão de quem precisa pensar profundamente nos problemas sociais muitas pessoas na nossa cidade ainda tem um pensamento misógino e até entre as mulheres, antifeministas. Essas não conseguem entender a profundidade do que são os nossos direitos, do que ajuda nisso, então a gente tem pontos aí que só a partir de uma reflexão profunda da mulher entender como que ela já foi de alguma forma menosprezada por ser mulher, violada ou até violentada. Posso dizer que pela minha caminhada como psicóloga, servidora pública, eu não tenho encontrado alguma que não tenha passado algo, nem que seja o desmerecimento, só por ser mulher. Isso são reflexões que precisamos fazer sobre questões de gênero e como essas nos travam do nosso maior potencial. Então como a gente pode pensar em empoderamento, se por vezes a gente é treinado socialmente a não expor todas as vezes que a gente sofre uma retaliação ou alguma ‘microviolência’. A gente caminha muito até conseguir um mínimo empoderamento e isso muitas vezes faz que uma mulher fique muito tempo dentro de uma relação falida e violenta

Explique um pouco mais sobre quando diz sobre as leis ‘falhas’ no município. 

Heblisa Mello-  Temos muitas leis aprovadas em relação a proteção da mulher. Temos por exemplo, uma lei que foi gerada, com apontamento de que qualquer mulher que esteja sofrendo violência, poderia chegar na farmácia e com um “x” na mão e, desta forma indicar para a pessoa ligar para a polícia. Essa lei nunca foi divulgada aqui, ela foi simplesmente copiada de outros municípios e nunca divulgada.  A Rede de Enfrentamento não divulga essa lei. Tem muitos pontos que dá a entender que é desinteressante para o poder público trabalhar na causa das mulheres. Acaba sendo uma ilusão a gente querer combater o feminicídio somente com questões pontuais. Para conseguir isso, vamos conseguir apenas se a gente combater os caminhos que levam a isso, todos os caminhos no ciclo da violência que levam a isso, que levam a mulher a não se sentir amparada socialmente para poder se proteger de verdade. 
 
Como fazer as pessoas entenderem o sentido da Marcha? 

Heblisa Mello–   De fato a gente espera que cada ano que essa Marcha acontece a gente consiga levar mais mulheres para a rua. É preciso fazer reflexões reais no decorrer do ano sobre como é difícil ser mulher. Então se você é mãe e tem uma sobrecarga maior de trabalho com as tarefas domésticas e cuidar dos filhos, você precisa entender que você tem tudo para se tornar feminista. Se você está com dificuldade de acesso para cuidados com seu filho autista na escola, aqui em Dourados e todos os tratamentos que envolvem essa causa, você tem tudo para se tornar feminista, se você quer fazer uma laqueadura e na unidade pública só permitem se você já tiver dois filhos, você tem tudo para se tornar feminista. Você pode juntamente com outras mulheres se fortalecer a partir da clareza de que as leis nos amparam para que possamos ser mais felizes em sociedade. É só você se compreender um pouco mais e aí que vem o empoderamento, tomar posse dos seus direitos. Vale destacar que antes da gente, vieram muitas que brigaram pelo simples direito de não precisarem se casar com seus abusadores. A gente tem na história da caminhada do feminismo, registros históricos de conquista. Temos a conquista do voto, que fez 92 anos, temos muitas coisas que vão acontecendo. A partir do momento que se abre um pouco a cabeça, vai se compreendendo os micromachismos que a gente vai vivendo e o impacto da misoginia na sociedade, a gente consegue pensar como mulher para primeiro de tudo compreender o que é o feminismo e a gente precisa muito que mais mulheres escutem isso

Como tem sido as ações do 8 M atualmente? 

Heblisa Mello-   Todos esses coletivos e movimentos que compõem a frente feminista cada um já tem seu escopo de atuação. Temos mulheres que estão conectadas com a saúde pública, outras com assistência social, com a educação, do conselho municipal dos direitos da mulher que é um órgão que conecta vários setores e cada um faz suas ações dentro da frente feminista com a organização da marcha e denúncia sistemática de questões. Temos muito a avançar para termos uma qualidade de vida mínima para gente e todas as mulheres. 
 

O Dourados News procurou a assessoria de comunicação da prefeitura para obter respostas sobre as demandas apontadas pelas representantes como o ensino em tempo integral e a demora para conseguir realizar exames ou consultas no município e até o momento da publicação desta entrevista não obteve retorno.

A assessoria informou as ações existentes em março, sendo o “Dia das Poderosas”, no CAM (Policlínica de Atendimento a Mulher), a partir das 7h30 e o torneio de futebol feminino, a partir das 8h, na Tengatui Marangatu.  

Fonte: Dourados News

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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