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ESPORTES

A teoria da conspiração e a racionalização do fracasso

08/07/2024 às 18:23
3 min de leitura

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O Brasil ficou de fora das semifinais da Copa América pela quarta vez no século. Foi a quarta eliminação nas quartas de final, além de uma queda vexatória na fase de grupos em 2016. Mais uma eliminação precoce com pinta de vexame. Mas foi, de fato? 

Pode ter sido pela forma como a seleção jogou ao longo de (quase) toda a Copa América (com exceção de alguns bons momentos contra o Paraguai). Pode ter sido para um time que carrega cinco estrelas no peito. Mas, antes do encontro, o Uruguai já era dado como favorito. Tanto que isso “incomodou” alguns jogadores brasileiros, que deram declarações que foram verdadeiros tiros no pé. 

Embora esperada por quem acompanha a Copa América, a eliminação brasileira reacendeu várias discussões. Uma queda é sempre seguida por diversas teorias da conspiração. E, dessa vez, não foi diferente. 

“É a pior geração brasileira de sempre, o pior time que já vestiu a Amarelinha!”. 

Diziam o mesmo do time eliminado nas quartas da Copa América de 2001, com derrota para Honduras.”Podemos fazer quatro equipes boas, nada mais que boas. Times medianos, sem craques, sem o jogador que decide”, chegou a dizer o craque e colunista Tostão para a Revista Placar na época. 

Tostão também reconheceu, mais tarde, que o Brasil poderia ser uma surpresa naquela Copa, como uma seleção que ainda tinha potencial para melhorar. O Brasil acabou campeão do mundo. 

Em 1993, a seleção fez campanha pífia nas Eliminatórias, só salva por Romário no histórico jogo contra o Uruguai, no Maracanã. O Brasil também acabou campeão mundial. 

Podemos ir bem além aqui. Até o time de Carlos Alberto Silva que caiu na fase de grupos da Copa América de 1987, com uma goleada de 4 a 0 sofrida para o Chile. Seleção da qual o camisa 10 era Edu Marangon, então na Portuguesa e que passou por equipes como Santos, Palmeiras e Flamengo sem tanto sucesso. 

Você, provavelmente, também lembra dos times de Dunga, principalmente o de 2016, eliminado na fase de grupos com aquela derrota para o Peru, gol de Ruidíaz. Vou deixar ainda mais fresca a memória com a escalação: Alisson; Dani Alves, Miranda, Gil e Filipe Luís; Elano, Renato Augusto, Willian, Lucas Lima e Coutinho; Gabigol. No banco, estavam Diego Alves, Grohe, Marquinhos, Rodrigo Caio, Douglas Santos, Fabinho, Walace, Ganso, Lucas Moura, Hulk e Jonas. 

“Ok, mas é difícil esperar algo de uma seleção que convoca jogadores de times medianos na Europa”. 

Da década de 1980 para cá, a seleção teve, em Copas, diversos jogadores atuando em equipes de menos tradição na Europa e até fora. Vou citar apenas dez: Edinho (1986, jogava pela Udinese, 13º no Italiano daquela temporada); Dunga (em 1990 defendia a Fiorentina, 12º no Italiano, em 1994 o Stuttgart, sétimo na Bundesliga, e em 1998 o Júbilo Iwata – Vice-campeão J-League do Japão); Müller (jogou a segunda divisão do Italiano pelo Torino em 1990); Taffarel (jogava na Reggiana quando foi campeão do mundo, equipe 14º no Campeonato Italiano); Ronaldão (também tetracampeão que defendia o Shimizu S-Pulse, campeão japonês); Mauro Silva e Bebeto (tetracampeões que atuavam pelo La Coruña); Júnior (pentacampeão que atuava pelo Parma, décimo da Serie A); Denílson (pentacampeão que defendia o Betis, sexto em La Liga); Gilberto (convocado na badalada seleção de 2006 quando atuava no Hertha Berlin, sexto na Bundesliga).

Isso fora Gilberto Silva no Panathinaikos, Elano no Galatasaray e os convocados do Shakhtar. Júlio César, o goleiro do 7 a 1 que jogava no Toronto F.C, e Hulk, que também jogou aquela Copa como atleta do Zenit. Podemos ficar aqui muito mais tempo citando exemplos, sem citar Afonso Alves do Heereveen. 

Atuar em Flamengo e Palmeiras ou em Newcastle ou Wolverhampton nunca foi a questão. Chegar na seleção pelo Girona, de campanha histórica em La Liga, não é demérito. Quem fala é o campo… No final do dia, o que importa é o que os jogadores rendem pela seleção… A performance! 

Se Dunga, Taffarel, Mauro Silva e Bebeto eram decisivos mesmo jogando em equipes menos tradicionais, se cinco turcos perseguiam Denílson mesmo ele atuando pelo Betis, por quê a história não pode se repetir? 

“Faltam atitudes de jogadores de seleção brasileira, respeito a camisa”. 

Muita gente contestou a forma como Éder Militão foi para abrir a cobrança de pênaltis contra o Uruguai: pegou a bola, bateu com ela no peito, caminhou como se nada estivesse acontecendo. Soberba? 

Mas e quando Dani Carvajal fez embaixadinhas antes de cobrar pênalti pelo Real na Champions League? É confiança só porque ele acertou a cobrança?

A grande questão ali não foi a forma como Militão foi para a cobrança. Cada atleta tem sua forma de concentração antes de um momento decisivo. Uns tentam fingir naturalidade, outros ficam sério, alguns brincam. O problema foi Militão ser o primeiro a cobrar na decisão de pênaltis! 

A nossa ótica tende a ser uma ótica 100% resultadista. Se ganha, é personalidade. Se perde, é displicência. Se tem samba antes do jogo e ganha, é cultura nacional. Se perde, é soberba e festa antes da hora. Se pararmos para pensar, são mesmo esses detalhes que fazem a diferença no jogo? O Brasil não ganha porque não tem samba na concentração, ou porque não tem futebol em campo?

Precisamos ver, sim, o que o campo fala. Aí é que estão os problemas… Precisamos olhar para o que o time (não) joga. Aí fica claro o que falta. Principalmente: ver que, como em outros tempos, a seleção brasileira não é administrada de forma profissional. O processo já começa corrompido. A mensagem não é clara. E chega no campo ainda menos clara. Como em outros momentos conturbados da seleção, o problema começa longe das quatro linhas. Mas termina nelas. 

Desde a última Copa, o Brasil recomeçou processos três vezes. Com Ramon Menezes, com Fernando Diniz e com Dorival Júnior. Passeou por filosofias e foi da água para o vinho de uma hora para outra. Tempestade atrás de tempestade. Sem calmaria. Agitação em campo, também. 

O Brasil mostrou lampejos. Lampejos de Vinícius Júnior, de Endrick, de Rodrygo, de Paquetá. Pormenores individuais suficientes para alguns momentos positivos, como em Wembley, no Bernabéu e até mesmo nos Estados Unidos. Mas não acompanhados pelo coletivo, fica difícil conseguir um resultado mais sólido. 

A cena de Dorival Júnior na cobrança de pênaltis, atrás na roda de jogadores, sem ter a palavra, talvez seja a cara de um time sem uma identidade tática. Sem referências claras. Dentro e fora de campo. 

É necessário racionalizar o que se passou para buscar saídas práticas, e não mais problemas. Ver o momento com a consciência de que não é a primeira, nem a última, crise na seleção brasileira. Perceber que, para o ciclo da Copa, talento não vai faltar. Neymar ainda pode ser importante, Vinícius tem a chance de desencantar, enfim, pela seleção, Rodrygo pode ser decisivo e Estêvão e Endrick devem ganhar protagonismo. Desde que, por trás, haja um trabalho sério, profissional e um processo respeitado. Não existirá outra “Família Scolari” para nos colocar no topo do mundo de novo. Mas aquela, de 2002, pode ser exemplo aos que não acreditam. 

Fonte: Ogol

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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