A Conmebol é responsável, os EUA falharam e a sociedade fracassou
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O Hard Rock Stadium, em Miami, foi palco de mais um episódio triste do futebol latino. Antes de começar a final da Copa América, uma confusão generalizada na entrada do estádio quase gerou uma tragédia do tamanho de Hillsborough. Com torcedores esmagados nas grades de acesso ao estádio, a saída foi abrir as portas para todo mundo entrar: gente com e sem ingresso. A falta de organização que quase virou tragédia ainda procura culpados. E, na verdade, culpados não faltam.
A Copa América 2024, como um todo, foi um dos campeonatos mais desorganizados dos últimos tempos. O primeiro e mais claro fator para isso é, talvez, o principal responsável pelo sucateamento do futebol sul-americano: a ganância dos cartolas.
Vamos voltar alguns anos atrás. Oito. Em 2016, os Estados Unidos sediaram a Copa América Centenário. Na época, porém, a força da Conmebol não foi a mesma. A entidade estava buscando se livrar do escândalo do Fifa Gate, investigação de corrupção na Fifa que resvalou nas confederações. Nesse período, a preocupação principal dos cartolas da Conmebol era se manter no poder sem sofrer as consequências da investigação, liderada pelo FBI e pelo IRS.
O escândalo estava prestes a vir à tona quando os Estados Unidos foram escolhidos como sede da Copa América. Na época, a federação estadunidense de futebol teve um papel mais protagonista na organização do torneio, recebendo, também, uma fatia maior dos lucros do torneio. A Soccer United Marketing, braço comercial da MLS que, à época, também era responsável pelo marketing da U.S Soccer, participou diretamente de pontos importantes da organização do evento: logística, planejamento e organização, além, claro, de participar da venda de cotas comerciais.
Para a Copa América de 2024, a Conmebol se juntou a Concacaf e assumiu as responsabilidades organizacionais da Copa América, para ficar com uma fatia (bem) maior dos lucros. Basicamente, ofereceu um valor bem menor para a federação estadunidense, já sem a participação da Soccer United Marketing, e assumiu ela (Conmebol) as rédeas do torneio.
Começou um efeito dominó de ações que atuaram contra a boa organização do torneio. Da qualidade da grama nos estádios ao tamanho do campo, a entidade adotou medidas que revoltaram os protagonistas do espetáculo: técnicos e jogadores.
Muitos dos estádios que receberam a Copa América são usados por equipes da NFL (futebol americano), com campos menores do que costumam receber grandes eventos futebolísticos. A Conmebol, então, aceitou padronizar os campos da Copa América em 100 x 64m, enquanto nos eventos da Fifa os campos são padronizados em 105 x 68m.
Campos menores e de qualidade pior. Principalmente para sessões de treinamento. Em muitos campos, a entidade só solicitou a mudança de grama sintética para grama natural em cima da hora.
“Estivemos em centros de treinamento que dissemos: ‘desculpem, pessoal, mas é inaceitável, não podemos treinar aqui'”, revelou Marcelo Bielsa, técnico da seleção uruguaia, que foi endossado por Lionel Scaloni, treinador da Argentina.
“Concordo absolutamente com tudo o que ele (Bielsa) disse. Contra o Equador, jogamos em um campo ainda pior”, disse Scaloni, que recebeu uma punição por críticas contra a Conmebol já na primeira coletiva de imprensa do torneio.
A falta de qualidade dos gramados em eventos da Conmebol não é novidade, por sinal. Lembro-me de, na cobertura da Copa América do Brasil, em 2019, ouvir duras críticas de Messi, Scaloni e companhia a respeito dos gramados brasileiros.
Brigas e mais desorganização
Infelizmente, nesta edição da Copa América, os problemas foram além dos gramados ruins e dos campos menores dos que os atletas estão acostumados. A integridade de jogadores, familiares e torcedores foi colocada em jogo mais de uma vez.
Em Charlotte, no Bank of America Stadium, jogadores do Uruguai foram até as arquibancadas proteger seus familiares por conta de uma postura agressiva de torcedores colombianos.
“Vocês sabem de quem é a responsabilidade por proteger os torcedores nas arquibancadas. Vocês precisam perguntar a mim se os jogadores receberam um pedido de desculpas por parte dos responsáveis por garantir a segurança”, afirmou Bielsa, que, em seguida, ironizou a organização da Copa América por parte da Conmebol.
“Os Estados Unidos, quando sentiram que seus interesses estavam sendo atacados, criaram o ‘Fifa Gate’, com o FBI, fizeram o que fizeram, mas era pelos seus interesses. Aqui, não aconteceu nada: os campos, foi uma festa extraordinária, estádios cheios, uma competitividade, arbitragem, não há nada do que se queixar”, ironizou.
A imagem de Darwin Nuñez recebendo um soco de um torcedor na arquibancada talvez seja a mais marcante do atacante no torneio. Infelizmente. Mas era ainda apenas um indício do que estaria por vir…
No Hard Rock Stadium, o caos foi completo. Como vimos algumas vezes no Maracanã, com diversas tentativas de invasão por parte de torcedores. Ou na final da Liga dos Campeões em Paris.
As entidades oficiais jogaram a batata quente nas mãos alheias: a Conmebol culpou a organização do estádio e a polícia. A prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine Cava, responsabilizou a entidade que comanda o futebol na América do Sul.
“A final da Copa América é organizada pela Conmebol e o departamento de polícia de Miami-Dade dá o suporte de efetivo policial”, disse Daniella em comunicado.
A Conmebol, que é a organizadora majoritária na divisão dos lucros, alega não ter tido poder de decisão durante toda a confusão.
” A Conmebol esteve sujeita às decisões tomadas pelas autoridades do Hard Rock Stadium, de acordo com as responsabilidades contratuais estabelecidas para a operação de segurança. Além das disposições determinadas nesse contrato, a Conmebol recomendou às referidas autoridades os procedimentos comprovados em eventos dessa envergadura, os quais NÃO foram levados em consideração”, diz comunicado divulgado pela entidade.
Basicamente, a Conmebol fugiu de qualquer responsabilidade como entidade organizadora do torneio. Mais uma vez.
Em Miami, certamente não houve apenas um culpado. Assim como em Charlotte. A Conmebol tem a parcela de culpa maior, sem dúvida alguma. Mas 550 policias eram suficientes para atender a um evento desse porte, com tamanha expectativa por parte de duas comunidades muito grandes na Flórida, principalmente a colombiana? Terá sido a melhor decisão fechar todas as entradas quando os torcedores começaram a invadir o estádio?
Talvez exista uma outra pergunta, talvez ainda mais importante: quando falhamos tanto como sociedade, a ponto de as pessoas não respeitarem umas as outras? Foram bárbaras as cenas de “torcedores” pulando muros, cercas, tentando entrar por meia dos dutos de ventilação do estádio, jogando sacos de pipoca no chão, pisoteando uns aos outros…
A Copa América 2024 foi um fracasso para a Conmebol, para os Estados Unidos, e para a sociedade. Há culpados de todos os lados. E mesmo na mídia, em não apontá-los (ou apontar apenas um ou outro lado). Fracassamos como sociedade…
Fonte: Ogol
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Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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