‘Alerta para a Nova Geração’, por Rodolpho Barreto
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‘Alerta para a Nova Geração’, por Rodolpho Barreto
HOJE NÃO vamos falar de política. Há um tema mais importante para refletir. Um tema de Educação e de Saúde pública! É um alerta aos PAIS e aos JOVENS! “Há 10 anos que luto na linha de frente contra o suicídio de adolescentes e tenho constatado que o abuso dos ecrãs (telas) faz com que os jovens percam competências para enfrentar a vida, além de aprofundar o seu sentimento de desconforto e deteriorar a sua saúde mental”, diz o Dr. Francisco Villar. Para ele, os telemóveis deviam ser proibidos até os 16 anos. Muito radical? Pode ser. Infelizmente, as consequências negativas da utilização cada vez mais precoce dos eletrônicos e da internet são uma realidade crescente.
Sou pai de três crianças, todas nascidas após 2009. Elas pertencem a uma geração que desconhece o prazer de brincar na rua, algo que marcou minha infância. Lembro-me de passar horas jogando bola, andando de bicicleta, brincando com os amigos do bairro… Pergunto-me: era uma época de mais liberdade? Só sei de uma coisa: hoje, meus filhos passam o tempo livre com a cara enfiada no celular. É um contraste constrangedor entre uma infância baseada no brincar e uma vivida em redes sociais e joguinhos eletrônicos. Não sou saudosista; sou um pai preocupado. Como professor, também me preocupo com essa geração “dancinha do TikTok”… (Ricardo Razzo)
O LIVRO de Jonathan Haidt, “A Geração Ansiosa: como a grande reestruturação da infância está causando uma epidemia de doenças mentais”, oferece uma análise detalhada sobre os efeitos de uma infância digitalizada. A obra explora como a relação entre superproteção e o uso excessivo de dispositivos eletrônicos transformou uma geração inteira. Não há precedentes na história humana. Nossos filhos estão ansiosos e, além disso, são incapazes de enfrentar desafios. O livro de Haidt traz reflexões sobre o que nossos filhos enfrentarão. Mas o diagnóstico de Haidt não é totalmente pessimista; traz também lições para que possamos consertar isso.
Jonathan Haidt é um psicólogo e professor na Universidade de Nova York, conhecido por suas contribuições ao estudo da moralidade, política e comportamento humano. Embora suas obras sejam bastante científicas, Haidt tem se destacado por seu trabalho acessível ao público em geral. Em “A Geração Ansiosa”, Haidt examina a chamada “Geração Z”. Para o leitor se situar, o esquema é o seguinte: a Geração Z inclui aqueles nascidos a partir de 1995. Esses são aqueles que cresceram completamente imersos na era digital. Antes deles, temos os Millennials, nascidos entre 1981 e 1994, que testemunharam a transição da era analógica para a digital.
A GERAÇÃO X, nascida entre 1965 e 1980, só começou a abraçar a tecnologia no fim da década de 80. Ou seja, a geração que cresceu brincando na rua valoriza mais as interações pessoais e físicas. Antes de todos, temos os Baby Boomers, nascidos entre 1946 e 1964, uma geração marcada pelo pós-guerra e pela revolução cultural dos anos 60. Essas classificações, embora imperfeitas, ajudam a compreender as diferenças culturais e comportamentais que surgiram ao longo das décadas. Jonathan Haidt demonstra como estamos criando uma geração mais vulnerável emocionalmente e menos preparada para os desafios da vida adulta.
Haidt argumenta que a combinação de uma educação excessivamente protetora e a exposição constante às redes sociais gerou um aumento significativo nos índices de ansiedade e depressão entre os jovens da Geração Z. Ele chama a atenção para o fato de que estamos “superprotegendo nossos filhos do mundo real e não os estamos protegendo o bastante da internet”. É algo realmente peculiar: de uma lado, a superproteção das interações reais, com pessoas, natureza e todo um universo real e presencial; de outro lado, a falta de qualquer proteção ou critério para o mundo virtual, onde um celular é totalmente liberado para uso irrestrito de uma criança ou adolescente.
QUANDO? O pano de fundo dessa transformação, que ele chama de a “Grande Reconfiguração”, surgiu a partir de 2010. Nesse ponto, ele explica os prejuízos do declínio da infância baseada no brincar e a ascensão da infância baseada no celular. Haidt aponta que, em gerações anteriores, as crianças passavam grande parte do tempo explorando o mundo, interagindo com outras crianças e desenvolvendo, desta forma, habilidades sociais e emocionais fundamentais. Com a redução das oportunidades de interagir e brincar de forma independente, essas experiências têm se tornado cada vez mais raras. E isso contribui para o desenvolvimento emocional desequilibrado dos jovens.
Essa nova realidade, marcada pela constante conexão com as redes sociais e o entretenimento digital, tem transformado a forma como as crianças e adolescentes interagem com o mundo. Haidt alerta que essa dependência tecnológica está substituindo experiências essenciais de vida. A Grande Reconfiguração afeta o bem-estar mental e emocional dos jovens. Em termos sociais, o efeito nocivo é o enfraquecimento da capacidade de lidar com conflitos e desafios. Por exemplo, em vez de aprenderem a debater ideias, os jovens são incentivados a evitar ou censurar discursos controversos. Além de ansiosa, a geração é de mimados intolerantes.
ESTUDO realizado na Noruega concluiu que a proibição das telinhas nas escolas melhora a saúde mental dos alunos. Outro estudo, da Dinamarca, estende o benefício à saúde física. Os trabalhos, publicados no European Journal of Public Health, envolveram o banimento de celulares nas escolas, especificamente no recreio, de crianças entre 10 e 14 anos. Os autores concluíram que “a frequência de atividade física cresceu significativamente” nessas crianças. Já um estudo na Inglaterra detalha que 20% dos adolescentes britânicos sofrem com doenças mentais, na maior parte depressão e ansiedade.
É preciso considerar que metade dessas doenças mentais estão começando muito cedo, antes dos 14 anos. A esmagadora maioria desses jovens (98%) tem smartphone e 93% são usuários ativos das redes sociais. É cada vez maior o número daqueles que estão viciados nas plataformas sociais. Os estudos afirmam que o tempo gasto por adolescentes nas redes e celulares está associado a piores níveis de ansiedade e depressão. Os celulares também parecem atrapalhar o tempo de atividade física, o desempenho escolar e acadêmico, o comportamento em sala de aula e o sono na faixa etária. (Fonte: gazetadopovo.com)
SOLUÇÃO? “Não conseguimos manter nossos filhos fora da Internet”, disse Haidt, em entrevista, “mas devemos mantê-los longe do acesso contínuo, de 24 horas por dia e sete dias por semana, à Internet em seus bolsos”. Para ele, o notebook é melhor: “O que eu digo para minha filha é ‘se você quer ter contato virtual com seus amigos, navegar na internet, então use o seu laptop’. A tecnologia touchscreen [telas responsivas ao toque dos celulares e tablets] tem um poder singular. No laptop, você tem que mover o cursor: você clica em alguma coisa e leva alguns segundos para acontecer. No celular, é tudo muito instantâneo”, afirma Haidt.
“Deixe seus filhos saírem, dê um celular para eles, mas que seja dos antigos, o celular tijolo”, diz Haidt. Ele recomenda essa política até os 14 anos. Se for introduzido o smartphone a partir dessa idade, ele recomenda que haja períodos de restrição, “sem telas na hora das refeições, todas as telas fora dos quartos depois de certa hora”. Haidt afirma que os próprios jovens já reconhecem que as telinhas são viciantes e há movimentos criados por eles pedindo que os ajudem a largar o vício. “Eles sabem que esta coisa os está destruindo e que precisam de uma saída. Não foi assim com os quadrinhos, a televisão ou qualquer outra coisa. É bem diferente”.
BANIMENTO do celular nas escolas? “Sim”, diz Ronai Pires da Rocha, escritor e doutor em educação. Para o especialista, a intensidade do banimento deve ser maior no ensino fundamental. Se o celular estiver ao alcance do aluno, “é um fator de perturbação do espaço”. Até a idade de 13 ou 14 anos, “o uso de telas deve ser diminuído e controlado. As evidências todas apontam que a permissividade gera na criança um uso intenso e pernicioso”. Rocha pensa que o banimento não deve acontecer somente em horário de aula, mas que deve incluir o período de recesso (recreio) e intervalos, pois esses períodos existem para interação social entre os alunos. “O que tenho percebido, na minha vivência em muitas escolas, é que aquelas que permitiram tablet e celular estão voltando atrás”, afirma o professor.
Ana Rita Dias Resende, psiquiatra, diz que “os pais não conseguem ter tanto controle no uso de telas e acabam buscando ajuda psicoterápica e psiquiátrica. Tendo em vista as salas de aula com uma grande quantidade de alunos, aqueles de comportamento mais hiperativo, opositor e desafiador, não conseguem ser ensinados pelos professores de forma mais individualizada e, em casa, os pais já não conseguem conter o comportamento e suspender as telas”, observa a psiquiatra. Ela também destaca “o início cada vez mais precoce de uso de substâncias psicoativas como maconha, que também causam alterações cognitivas e comportamentais”.
Simone Fuzaro, mestre em Educação pela PUC-SP, também nos traz a seguinte reflexão: “Enquanto a criança está olhando para a tela, está hipnotizada, só enxerga aquele desenho… É uma coisa passiva, mas que ao mesmo tempo gera uma atividade neurológica muito grande, e a criança fica muito agitada. O que eu sempre aconselho tanto a pais como professores de crianças é que diminuam o tempo de tela. Mas que diminuam radicalmente. E, com isso, a gente nota um aumento na capacidade de concentração e de aprendizagem. Isso é uma coisa que precisa muito ser considerada hoje”, alerta.
Fonte: Dourados News
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Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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