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Lángara, Zubieta e Muniain: O San Lorenzo dos bascos

20/09/2024 às 05:38
3 min de leitura

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A última janela de transferência no futebol brasileiro ficou marcada pelos inúmeros casos de contratações aleatórias de jogadores europeus que passaram por grandes equipes. O fenômeno ocorrido no mercado brasileiro contagiou os vizinhos hermanos, que recorreram aos livros de história para reacender uma longeva relação, e protagonizar uma grande contratação nada aleatória.

No dia 6 de setembro, o San Lorenzo surpreendeu no mercado, venceu a disputa com os petrodólares e oficializou a chegada de Iker Muniain, ídolo do Athletic Bilbao. A contratação emblemática não aconteceu por acaso e marcou mais uma página da história entre jogadores bascos e o time de Boedo. A relação entre o clube e a região está diretamente ligada à política, história e futebol.

No início da década de 1930, despontava no Real Oviedo o atacante Isidro Lángara. O destaque das competições regionais rapidamente ganhou uma oportunidade na seleção espanhola e liderou a Fúria a sua primeira Copa do Mundo em 1934, marcando sete dos 10 gols da seleção nas Eliminatórias.

No Mundial, disputado na Itália, Lángara atuou em dois jogos e marcou um gol, justamente na vitória que mandou o Brasil para casa, nas oitavas de final. A trajetória do atacante, entretanto, durou pouco pela seleção.

Nascido na província de Guipúzcoa, região do País Basco, Lángara escolheu defender seus ideais também dentro de campo e abriu mão da Fúria para formar uma seleção apenas com atletas de origem basca, a “Euzkadiko Selekzioa“. Além do atacante, o selecionado contava com outros nomes como Ángel Zubieta, destaque do Athletic Bilbao. Com o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936, os dois jogadores e todos aqueles que defendiam a seleção foram obrigados a deixar o país por questões de segurança.

Lángara, Zubieta e companhia então iniciaram uma excursão com o selecionado para angariar fundos aos exilados e divulgar as causas republicanas. A seleção basca percorreu a Europa e, depois, rumou ao México, em busca de asilo político. Em 1939, a equipe decidiu encerrar suas atividade e a dupla de jogadores, sem enxergar em um futuro próximo o retorno à sua terra, precisou procurar um novo lar. Foi então que o San Lorenzo abriu as portas para os jogadores bascos.

Zubieta foi o primeiro a aceitar o convite do time argentino e desembarcou no bairro de Boedo ao lado de muitos outros bascos exilados no México. Pouco depois chegou o seu companheiro e reforçou a relação entre o clube e os nativos da região europeia.

Sobre mitos e idolatria

A chegada de Lángara ao Nuevo Gasômetro se tornou um mito até hoje entre os torcedores dos Cuervos. Alguns torcedores contam que o atacante desembarcou do Navio, vindo do México, e foi diretamente para o estádio realizar sua estreia (após ter realizado o aquecimento no convés, segundo a lenda). Outros, menos entusiastas, acreditam que o jogador chegou alguns dias antes do primeiro jogo. Mas o fato confirmado desta história foi a atuação de gala do basco que marcou quatro gols em 35 minutos na sua estreia.

Após o início marcante, Lángara permaneceu por quatro anos, marcando 110 gols, e se despediu como o segundo maior artilheiro da história do clube (hoje, sexto). Zubieta ficou e fez ainda mais história. O meia defendeu o San Lorenzo por 13 temporadas, levou o time ao título do Campeonato Argentino em 1946 e virou o segundo jogador que mais vestiu a camisa do clube.

A relação entre Lángara e Zubieta com o San Lorenzo virou sinônimo de idolatria pelos números e pela reciprocidade. O clube argentino se tornou uma referência basca na América do Sul.

Resgate de relação histórica

Após 72 anos, o clube de Boedo volta a ter um basco no seu elenco. Em tempos muito menos conflituosos como na década de 1936, no auge da guerra civil, Iker Muniain chega ao San Lorenzo exaltando os mesmos ideais dos seus antecessores.

Natural de Pamplona, no País Basco, o atacante se formou e defendeu somente o Athletic Bilbao por 15 temporadas. Ídolo do clube, Muniain recusou as investidas do futebol árabe para realizar o sonho de atuar na Argentina e seguir os passos dos seus compatriotas.

Na sua chegada, o atacante tratou de reforçar que a sua escolha pelo futebol argentino e pelos Cuervos não foi nenhuma casualidade. Em uma carta aberta, Muniain resgatou a história dos seus ídolos e reascendeu a relação entre o São Lorenzo e os bascos .

Vasco (Lángara), estou aqui na Argentina há pouco tempo, mas te digo que me falaram de você. Me disseram que você veio fugindo da guerra, que deixou sua família, que estava sozinho, que ninguém te conhecia. Me contaram que quando você desceu do avião te falaram: ‘entra’ e na sua estreia você marcou quatro gols. Ouvi dizer que homens de terno e gravata te aplaudiram, que você fez as pranchas rangerem e isso. Você ia marcar 110 gols no total. Eu sei que Boedo era terra de bascos e seus tangos, há muito tempo E que Boedo sempre será seu lugar. A partir daí entendi que nós, bascos, temos histórias pendentes… Mas eu cuidarei disso.

Uma publicação compartilhada por San Lorenzo de Almagro (@sanlorenzo)

Fonte: Ogol

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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