Especialistas destacam desafios na prevenção e no combate à violência de gênero
No Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta sexta-feira (8), a luta contra a violência de gênero ganha ainda mais destaque. Em Mato Grosso do Sul, o combate ao feminicídio continua sendo um dos maiores desafios das autoridades. O Estado registrou a segunda maior taxa de feminicídios do país em 2023, e os números seguem alarmantes.
Dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP-MS) apontam que, entre 2022 e 2024, foram registrados 107 feminicídios no Estado, sendo nove em Dourados. Somente neste ano, já são seis casos, incluindo um no município.
Motivos banais e ciclos de violência
O promotor de Justiça Luiz Eduardo Pinheiro, que atua no Tribunal do Júri de Dourados, reforça que o feminicídio geralmente ocorre após um histórico de violência.
“Na prática, vemos que esses crimes estão sempre ligados a motivos frívolos, banais e torpes. Muitas vezes, os assassinos agem por ciúmes, não aceitam o fim do relacionamento ou chegam em casa embriagados e se tornam agressivos”, explica.
Para o promotor, a prioridade deve ser a prevenção, evitando que a violência escale até o feminicídio.
Mudanças na legislação e ampliação da proteção
Em outubro de 2024, entrou em vigor o Pacote Antifeminicídio (Lei 14.994/24), que instituiu o feminicídio como crime autônomo e aumentou a pena para 20 a 40 anos de prisão.
Em Dourados, uma das dificuldades no enfrentamento da violência doméstica é o horário de funcionamento da Delegacia da Mulher, que opera apenas em horário comercial. O delegado regional Adilson Stiguivitis afirma que uma comissão estuda a possibilidade de atendimento 24 horas.
Além disso, a Polícia Civil tem investido em ações como a instalação da Sala Lilás na Depac, um espaço humanizado para acolher vítimas de violência.
A frieza dos criminosos e a brutalidade dos casos
Casos recentes em Dourados revelam a crueldade dos feminicídios. Um deles envolveu um homem que assassinou a esposa e, depois, enviou mensagens à mãe da vítima demonstrando total indiferença, dizendo que “não daria em nada”.
O crime ocorreu na frente do filho da vítima. No dia seguinte, sem perceber que a mãe já estava morta, o menino preparou o café da manhã e levou até o quarto dela.
A socióloga Marisa Lomba, da UFGD, ressalta que feminicídios raramente ocorrem de maneira “simples”.
“Mulheres são esganadas, golpeadas na cabeça, asfixiadas, queimadas. Esses crimes carregam um simbolismo violento, revelando um desejo de aniquilar a identidade da vítima. Isso está ligado ao sentimento de posse e dominação”, analisa.
A raiz do problema e o papel da educação
Para especialistas, a violência contra a mulher é um problema cultural, e o combate precisa ir além da punição.
“Se não olharmos para a raiz do problema, os crimes vão continuar acontecendo. Precisamos de políticas públicas voltadas à prevenção, incluindo processos educativos desde a infância”, destaca a socióloga.
Ela defende que a escola seja um espaço de transformação, ensinando desde cedo sobre respeito, abuso e autoestima, para que meninas não desenvolvam dependência emocional de agressores.
Onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência podem buscar apoio em Dourados por meio de redes de proteção que oferecem suporte jurídico, psicológico e social. O incentivo à denúncia e o fortalecimento dessas instituições são essenciais para combater o feminicídio e garantir segurança às vítimas.
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