O momento de crise é o mais propício para acordar os profetas do caos, os “idiotas da objetividade”, como chamaria Nelson Rodrigues. Ainda mais no momento em que flertamos com uma verdadeira idiocracia (ao contrário do filme, não fomos congelados por anos e estamos mais para atores do que observadores).
A idiocracia verde e amarela é estrutural e, também, cultural. Se por um lado parecemos não abandonar nosso complexo de vira-lata, por outro não deixamos ninguém, além de nós mesmos, tomar as rédeas de nosso navio desgovernado.
Ao mesmo tempo que criticamos a forma como o futebol brasileiro é conduzido nas últimas décadas, e mesmo antes do penta, não deixamos ninguém falar mal do nosso jogo. “Ninguém além da gente é penta”. Como se o penta bastasse.
Deixamos de falar de futebol (será que falamos, uma vez?) para valorizar status. “Só temos jogadores de times médios da Europa”. E os da Argentina, jogam todos em Real e Barça? O Luiz Henrique do Zenit, não joga mais na seleção por ser agora do Zenit? Mas então o Gerson, se sair do Flamengo, não merece lugar no time? Se o Paquetá voltasse ao Brasil, sim, sua convocação seria justa, mas no West Ham, não?
“Essa geração é ruim”. Mas o eleito pela Fifa para melhor do mundo é brasileiro, e joga no Real Madrid, e um forte candidato a melhor do mundo na nova temporada também nasceu aqui, joga pela seleção e pelo Barcelona. Aí jogar em Barça e Real não vale?
Não valorizamos mais o bom profissional, valorizamos o nosso profissional. “O Brasil foi campeão do mundo cinco vezes com técnicos brasileiros, temos de dar chance aos nossos técnicos”. Mas não demos nos últimos 100 anos? Contratar um treinador estrangeiro é necessariamente sinônimo de fracasso dos nossos treinadores? Mas na verdade não fracassamos com eles, demorando a construir bases sólidas para a sua formação nos últimos anos?
Estamos cegos defendendo narrativas, elucubrando fábulas, quando nos escapa o óbvio: a seleção não tem, hoje, um treinador brasileiro do tamanho dela, e com um trabalho que sustente a sua nomeação para a liturgia do cargo. Como já foi Zagallo, Telê, Felipão, mesmo Tite, sem engrenar bom trabalho desde que saiu e com menos clima ainda para voltar. Já apostou, também, é verdade, em nomes que ganharam casca na própria seleção. Mas a um ano de uma Copa do Mundo, com toda a pressão por duas décadas sem um título, é momento para apostas?
O Brasil está perto de completar seu maior jejum sem títulos mundiais, enquanto a instituição que administra nosso futebol vive crise atrás de crise, estruturalmente corrompida por um ciclo vicioso de escândalos, fracassos e polêmicas.
O Brasil é um navio sem almirante. E ainda querem escolher o comandante pela nacionalidade dele, e seus comandados pelo status das agremiações que defendem. Nada mais natural na idiocracia verde e amarela.
Fonte: Ogol
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