Oyarzabal e a releitura do falso 9
Falso: não verdadeiro, não verídico, fingido e simulado. Se formos além, enganoso, mentiroso, desleal e traidor. Tudo de acordo com o dicionário da língua portuguesa. No futebol, o falso 9 é a vanguarda de muitas revoluções táticas. No século XXI, suas releituras apresentam soluções para um jogo cada vez mais congestionado, mas não deixam de “enganar” os rivais como a palavra sugere.
O futebol continua a ser jogado por 11 jogadores ou jogadoras, isso nunca mudou. Mas os avanços físicos e táticos do jogo fazem o campo parecer menor, embora as dimensões, tampouco, tenham passado por grandes mudanças.
O jogo, que desde Herbert Chapman com o WM, há 100 anos, já tinha seu lado estratégico em evolução, nunca foi tão pensado. Os duelos são vistos por torcedores, analistas, treinadores, jogadores, repetidas vezes e ao detalhe. Tudo para achar um atalho no campo.
A tática surgiu para resolver problemas espaço-temporais dentro de uma partida de futebol. Tanto na fase ofensiva quanto na defensiva. Os jogadores são verdadeiros intérpretes do tempo e do espaço em 90 minutos, com segundos, e às vezes milésimos de segundos, para tomar decisões. Aonde se posicionar? Para aonde o jogo deve fluir? Qual linha de passe criar, ou fechar?
Lá na década de 1950, quando o WM ficava obsoleto (pelo menos naquela versão inicial, dos anos 1920), o falso 9 foi criado como uma resposta inteligente para desarticular a linha defensiva do 3-2-2-3. A linha quase estática de defensores estava acostumada a enfrentar um atacante de vigor físico, mas diante de um jogador técnico, capaz de atuar mais recuado, como se comportaria?
A resposta veio em um Inglaterra x Hungria em Wembley, no ano de 1953. Os húngaros, campeões olímpicos no ano anterior, já adotaram antes o falso 9 com Péter Palotás. Mas foi Nándor Hidegkuti que participou do enterro do WM em Wembley nessa função.
Recuado e atuando entre as linhas, deixou sem resposta a linha defensiva inglesa, acostumada a marcar posições fixas. Logo no primeiro minuto, para resumir a partida, Hidegkuti recebeu livre pelo meio, girou e soltou uma pancada para abrir o placar do encontro. O 6 a 3 foi um duro golpe nos ingleses, e o falso 9 viveu sua primeira noite de gala.
Avançando pouco mais de 50 anos, chegamos em El Clasico. “Pep me ligou um dia antes do clássico e disse para eu ir para o centro de treinamentos”. Messi foi, e aprendeu em um dia como ser a nova versão do falso 9.
O Real Madrid, já defendendo em uma linha de quatro zagueiros, não contava com La Pulga recuado. Messi foi um 9,5. Atuou quase como 10, mas chegando na área para ser decisivo. Ditou o ritmo do jogo no meio, com aproximações com Xavi e (principalmente) Iniesta, foi garçom para Thierry Henry abrir o placar com passe nas costas da defesa, e marcou outros dois gols. 6 a 2 no Santiago Bernabéu, em um dos clássicos mais marcantes da história.
Fabio Cannavaro sofreu para entender a posição de Messi no início do jogo e por diversas vezes saltou pressão, deixando espaço nas costas não apenas para Henry e Eto’o infiltrarem, mas também para Iniesta. Quando Diarra tentou ajustar a marcação e focar em Messi, Xavi ficou solto e terminou o jogo com quatro assistências.
O falso 9 de Messi criou uma trinca no meio com Xavi e Iniesta para encarar de frente os três volantes merengues, que pouco tiveram voz com a bola nos pés, e permitiu que Henry e Eto’o atuasse nos meio-espaços entre os laterais e os zagueiros. Os movimentos do argentino deixaram em pane a defesa de Juande Ramos.
Essa versão do falso 9 foi vista bastante ao longo dos últimos anos. Kane fazia função semelhante no Tottenham para Lucas Moura (ou Kulusevski) e Son infiltrarem nas costas da marcação.
Em 2025, o WM, de certa forma, voltou a estar em moda no futebol, com as equipes organizando uma fase ofensiva em 3-2-2-3. Do Barcelona de Hansi Flick ao Palmeiras de Abel Ferreira, temos vários exemplos. O duplo-pivô, tão defendido por Unai Emery, voltou a ser tendência.
Na fase defensiva, boa parte das equipes tem adotado o 4-4-2. Como Portugal na final da Nations, com Vitinha e Bernardo Silva como meias defensivos, Pedro Neto e Francisco Conceição abertos e Bruno junto com Ronaldo na frente.
Nos embates do meio-campo, se Bernardo e Vitinha faziam os encaixes de marcação em Fabián Ruiz e Pedri, Oyarzabal aparecia recuado para criar superioridade numérica no meio. Assim, surgiu o primeiro gol espanhol, com Zubimendi aproveitando o pivô de Oyarzabal para avançar por dentro e pisar na área.
Oyarzabal havia feito isso muito bem contra a França, e não só. O objetivo, aqui, é criar superioridade numérica no meio, mas atuando de costas para o gol, e com um trabalho de pivô libertar os meias para jogarem de frente para a meta adversária. Oyarzabal tem ótima capacidade de retenção de bola, controle e passe. É protagonista na Espanha de De la Fuente, uma das principais seleções hoje em dia, e usa a nova releitura do falso 9 para fazer fluir o jogo espanhol.
Fonte: Ogol
Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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