Rock segue vivo em Dourados e músicos locais falam sobre resistência e paixão pelo estilo
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Rock segue vivo em Dourados e músicos locais falam sobre resistência e paixão pelo estilo
O Dia Mundial do Rock é celebrado neste domingo, 13 de julho, com homenagens ao estilo musical que marcou gerações e segue influenciando artistas e fãs em todo o mundo. Embora não seja uma data oficial internacional, a comemoração passou a ser difundida no Brasil nos anos 1990, após rádios de São Paulo e do Rio popularizarem o 13 de julho em referência ao histórico festival Live Aid, realizado em 1985.
Desde então, a data se tornou um momento simbólico para destacar a força do rock no cenário cultural. Em Dourados, o Jornal Dourados News conversou com músicos locais que aproveitam a data para relembrar clássicos e compartilhar suas histórias com o gênero que ultrapassa modismos e permanece atual.
Um desses nomes é Fernando Castro Além, mais conhecido como Dagata. Professor, pesquisador em História, cantor, compositor e músico, ele nasceu em Dourados e teve sua primeira banda em 1988. Com décadas de envolvimento com o rock, Dagata reforça a importância simbólica da data para quem vive o estilo intensamente.
Créditos – Punto Aureo Fotografia e Audiovisual
“O Dia Mundial do Rock representa para mim a celebração da nossa identidade roqueira. É um dia para celebrar esse humor maravilhoso que nos movimenta à atitude roqueira”, afirma. Dagata também destaca a tradição musical de Dourados no segmento. Segundo ele, a cidade sempre foi um reduto de bons músicos.
“Dourados sempre foi um celeiro de roqueiros, bandas ativas, sempre com música autoral. Campo Grande sempre disse que os melhores guitarristas estão em Dourados. Olhando o panorama geral, eu concordo. Então, o rock no município continua muito ativo com bandas novas, bandas excelentes e vai continuar assim”, explica.
Apesar do histórico positivo, o músico reconhece que o cenário atual é mais desafiador para o estilo. Segundo ele, o público jovem não tem mais a mesma ligação com o rock como nas décadas anteriores. “Nesse mundo que a gente tá vivendo, o rock, infelizmente, não encanta mais as massas jovens como encantou há muito tempo atrás, e em Dourados também é assim, infelizmente. Dourados tinha mais bandas e público, tinha mais lugares pra tocar, especialmente lá nos anos 2000. Ainda temos espaços e bandas, mas diminuiu em relação ao que era antes”, avalia.
Créditos – Punto Aureo Fotografia e Audiovisual
Manter o gênero vivo exige esforço contínuo e paixão, segundo Dagata. Ele acredita que é preciso valorizar os espaços que ainda existem e seguir criando. “O desafio é manter a chama acesa, entendendo que existem espaços e a gente tem que continuar mantendo eles em Dourados, fazendo rock autoral na cidade (…) Existem pessoas que ocupam esses espaços e a gente tem que mantê-los vivos.”
A realidade econômica também entra na equação, especialmente para bandas que desejam tocar em casas noturnas e bares da cidade. “Se você tem uma casa noturna, obviamente você quer que a sua casa noturna bombe, e como temos uma geração que poucos ouvem rock, é difícil um empresário da noite investir em bandas de rock.”
Sobre o público que ainda consome o gênero, Dagata destaca que ele é formado majoritariamente por adultos, especialmente os que viveram a explosão do rock brasileiro nos anos 1990 e 2000. “Eles foram a última geração que ouviu o rock, como por exemplo o Charlie Brown Jr, que talvez tenha sido o último grande herói do rock brasileiro e que falou para essa juventude.”
Ao comentar sobre o apoio institucional, Dagata observa que, historicamente, o incentivo à cultura sempre foi limitado, especialmente quando se trata do rock. “Nem a cultura como um todo existe um apoio pleno. Aqui em Dourados o apoio sempre foi limitado, aí você imagina para o rock.” Ele também fala sobre como o estilo acaba ocupando um espaço mais restrito dentro da cena musical atual.
Créditos – Punto Aureo Fotografia e Audiovisual
“A gente é meio que o nicho mesmo, o patinho feio. As pessoas em geral não têm ouvido mais rock, são só os mais velhos, a galera da minha geração, talvez uns 10 anos mais jovens do que eu. Então nós somos o patinho feio, estamos no nicho, estamos no pântano, mas a gente vai sair do pântano”, desabafa.
Para Dagata, mais do que tocar músicas antigas, é preciso criar e apresentar novas vozes e ideias. E isso passa pela valorização do autoral. “Existe a necessidade da visibilidade, a necessidade de aparecer, de vender o produto, só que esse produto tem que ser autoral, né? Não dá pra você sair tocando por aí como cover.”
“As pessoas, infelizmente, ouvem as mesmas músicas de 30 anos. E não adianta você querer tocar com o autoral, pois você vai nadar, você vai estar sempre ao lado [B], porque a juventude deixou de ouvir rock and roll.” Dagata encerra com uma mensagem direta aos fãs: “Continue amando e valorizando esse senhorzinho maravilhoso, subversivo, que a gente ama tanto. É isso, tamo junto.”
“Os princípios básicos do rock são resistência e provocação. Então, você fazer rock em Dourados, nesse contexto onde a cultura dominante não é essa, é outra cultura, é uma resistência. A gente está resistindo a isso. E está provocando, chamando atenção para outros espectros da música, da cultura”, finaliza.
Outro nome conhecido no cenário é Marcos Marin, guitarrista da banda NHS e produtor musical em Dourados. Natural de São Carlos (SP), ele está na cidade desde 2013 e também compartilhou sua visão sobre o rock local.
Foto: Acervo pessoal / Facebook
Segundo Marcos, o Dia Mundial do Rock é mais do que uma celebração: é um momento para reflexões. “Apesar de ser uma data simbólica, fomenta debates sobre a música como linguagem artística e resistência, além de reacender o estilo que deu base e origem a muitos subgêneros ao longo do tempo.”
Ele explica que a recepção ao estilo na cidade é positiva, principalmente entre o público mais maduro. “Sinto que a população gosta muito do rock. Como trabalhamos com um público mais maduro e um repertório de clássicos, somos bem recebidos no cenário musical local.”
No entanto, para Marcos, o maior desafio é a aceitação do rock como algo atual, e não ultrapassado. “Há tempos houve muitos lançamentos locais, e ainda há nos subgêneros do rock local, mas há um problema genérico de divulgação e aceitação, pois a impressão é que o rock é ‘coisa ultrapassada’.”
As plataformas digitais ajudaram, mas não são solução mágica, segundo ele. “Obviamente a tecnologia facilita e muito todo trabalho, mas não é uma tarefa simples. Como toda produção bem feita exige um trabalho intenso e bem formulado para se atingir um objetivo sólido e de qualidade.”
Foto: Acervo pessoal / Facebook
Sobre a atuação da NHS, ele afirma que a banda está ativa, embora ainda não tenha lançado trabalhos autorais. “A Banda NHS tem um posicionamento 100% rock e respeita todos os outros gêneros musicais. Em oportunidades, fazemos fusão com músicos de outros estilos, que acaba sendo um viés de aprendizado. Sobre produção de material novo, a rotina de shows e trabalho não nos permitiu parar pra desenvolver um projeto com músicas autorais até o momento. E, é claro, estamos totalmente ativos nos palcos de Dourados e toda a região.”
Ele acredita que o talento musical na cidade existe, mas ainda é pouco visível. “Talentos há em todos os lugares, basta ser descoberto e lapidado. Existe um número pequeno de bandas aparecendo no cenário no momento. Vejo mais outros gêneros em expansão, mas isso não tira o brilho daqueles que investem no rock como estilo musical e acaba deixando os resilientes em evidência.”
Para manter o estilo vivo, é preciso estrutura, espaço e incentivo. “Acredito que todas as estruturas são fundamentais e bem-vindas. Apesar de parecer fraco, o movimento do rock na cidade atinge uma faixa etária mais madura, que acaba fruindo a música com mais responsabilidade, sentimentos concretos e autonomia. Além de, economicamente dizendo, impulsionar o consumo de estabelecimentos voltados para o estilo.”
Foto: Acervo pessoal / Facebook
Marcos também valoriza os nomes locais e cita artistas que se destacam. “Dourados tem várias produções maravilhosas. Posso citar os trabalhos do Dagata, suas músicas são pura poesia do rock com fusões de gênero, um trabalho digno de se ouvir e refletir. Além das bandas Trajeto 2 e Misbehaviour. Pra quem gosta de um som mais pesado, temos a banda Tonelada, dentre outras.”
Ele acredita que a união e a originalidade são chaves para a resistência do rock. “Como qualquer outro setor, a música precisa de união entre sua comunidade, mas posso dizer que isso já acontece. Pelo menos no nosso círculo de colaboradores, os envolvidos são bastante unidos e se apoiam. Sobre a questão de originalidade, é uma luta, pois somos bombardeados por milhares de produções ‘chiclete’, o que torna difícil a tomada de decisão sem se influenciar.”
E para quem está começando, o recado é direto. “Lutem pelos seus sonhos e não desistam. A perseverança é a virtude mais importante para se atingir um objetivo. Estudem bastante. Haverão dias bons e dias ruins, a questão é saber lidar com atitudes positivas e bem pensadas. O rock sempre estará vivo, não importa o que aconteça e como aconteça, pois ele faz parte de um marco histórico energético e provocador”, finaliza.
Fonte: Dourados News
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Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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