O fim do soccer
Conhecido no mundo inteiro como futebol, derivado do inglês football (pé + bola), o esporte mais popular do mundo vive uma crise de identidade nos Estados Unidos, com “promessa” até de mudança de nome.
Na América do Norte (EUA e Canadá), o futebol é chamado de soccer, por um motivo simples: o futebol americano, que eles chamam por aqui de Fooball, e é conhecido em outros lados como American Football, é infinitamente mais popular.
Na verdade, o futebol, ou soccer, não se encontra nem entre os cinco esportes mais populares por aqui (e incluo também o Canadá, já que receberá jogos da Copa ano que vem). Ligas como a NFL, a NHL, a NBA e a MLB estão na frente da MLS em popularidade e interesse comercial. Tanto que a Copa do Mundo de Clubes teve jogos em estádios… De futebol americano.
Pude acompanhar de perto como os norte-americanos receberam a Copa do Mundo de Clubes. Vamos começar a excluir os canadenses da conversa e focar no país que recebeu os jogos do Mundial de Clubes: talvez o grande desafio da Fifa ao longo do torneio, para além das adaptações estruturais necessárias (principalmente em termos de gramados), foi chamar a atenção do público norte-americano.
Apesar de ser promovido com muita força pela Fifa, o torneio não pegou entre os estadunidenses. O público do soccer, mais forte entre os latinos, vive momento complicado com o governo Trump e acabou em boa parte afastado dos jogos.
Lembro de, por exemplo, acompanhar o Fluminense x Al Hilal no JFK em Nova York e, apesar dos lugares na frente da TV estarem cheios, praticamente ninguém olhava para o jogo. Vez ou outra, um curioso ou outro tentava entender o que acontecia.
A entidade máxima do futebol fez o possível para não ter estádios vazios: fez promoção de ingressos, ofereceu entradas em universidades locais e praticamente abriu as portas de alguns estádios. Nem sempre foi suficiente…
Cinco jogos do Mundial receberam menos de 10 mil torcedores, com destaque para o duelo entre Ulsan x Mamelodi, que recebeu pouco mais de 3 mil pessoas. O campeão Chelsea enfrentou o Los Angeles FC na primeira fase diante de 22 mil pessoas em um Marcedes-Benz Stadium onde cabem mais de 70 mil pessoas.
A primeira fase, que teve uma média de público de 34,746 mil torcedores, teve, segundo a Associated Press, cerca de 1 milhão de lugares vazios, levando-se em conta os públicos presentes e as capacidades dos estádios. Nas fases decisivas, uma drástica redução no preço dos ingressos ajudou a alterar o panorama. Na semifinal entre Chelsea e Fluminense, por exemplo, ingressos que eram avaliados inicialmente em 475 dólares americanos passaram a custar 13.
Quase 2,5 milhões de pessoas estiveram nos estádios para acompanhar o Mundial de Clubes, com uma média de 39,557 pessoas por jogo e uma estimativa de 62% dos lugares preenchidos. Tais números seriam um pesadelo para a Fifa na Copa do ano que vem. No Mundial do Catar, 3,4 milhões de pessoas assistiram aos jogos, com 96% dos lugares preenchidos (segundo dados da própria Fifa).
Em ação conjunta com o governo Trump, a Fifa tenta reverter o quadro para não depender quase 100% de torcedores de outros países ao longo da próxima Copa. O presidente estadunidense recebeu Infantino no Salão Oval, se apoderou do troféu da Copa do Mundo de Clubes e concedeu algumas entrevistas para promover o esporte no país.
Trump falou de Pelé, de sua relação com o esporte e tentou roubar a cena dos jogadores do Chelsea na celebração do título mundial. Foi além: prometeu, em tom de brincadeira, mudar o nome do esporte.
“Eles chamam de futebol, acho que nós chamamos de soccer, mas posso mudar isso facilmente”, afirmou Trump para o Dazn, emissora que adquiriu globalmente os direitos de transmissão do Mundial de Clubes. O presidente estadunidense continua acreditando que qualquer problema global pode ser resolvido com uma canetada sua.
Nos últimos anos, os Estados Unidos investiram em estrutura: estádios dedicados exclusivamente para o futebol foram construídos e são palcos de jogos da MLS. Mas com capacidades para cerca de 20 mil pessoas. Mais que isso seria utópico.
Algo que Pelé não conseguiu décadas atrás, Messi e outra Copa do Mundo tentam fazer nos Estados Unidos: com forte apoio do governo federal, buscam enterrar o soccer para que o futebol se torne popular na região.
Fonte: Ogol
Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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