Casos de suicídio no início do ano em Dourados acendem alerta sobre cuidados

Casos de suicídio no início do ano em Dourados acendem alerta sobre cuidados

A ‘virada de ano’ está simbolicamente ligada à reflexão sobre os ‘balanços’ da vida, o que pode ser especialmente difícil para quem já está emocionalmente fragilizado.

Diante disso, a prevenção ao suicídio requer ainda mais atenção em tempos de festividades. Em Dourados, por exemplo, foram dois casos registrados logo nas primeiras horas de 2026.

Uma mulher indígena, de 20 anos, deixou o marido e a filha de quatro anos de idade. O corpo dela foi encontrado na manhã de ontem, dia 1°, ao lado de um reservatório de água próximo a residência da família, na Aldeia Jaguapiru. No final da tarde, um jovem, de 26 anos, foi achado dentro de casa, no bairro Jardim Flórida.

Dor não tem calendário

“É fundamental lembrar que o sofrimento psíquico não segue calendários. Ele pode se intensificar em qualquer época, e cada pessoa vive essas datas de forma única. Por isso, mais importante do que focar apenas nos números, é olhar com empatia para quem está sofrendo, oferecer escuta, presença e apoio, e reforçar que ninguém precisa enfrentar a dor sozinho”, explica o psicólogo clínico e analisa comportamental, Adriano Marcos Oliveira da Silva.

Ele lembra que apesar das festividades, como Ano Novo, Natal ou até Aniversários, não estarem associadas a casos de suicídios como causadoras, essas datas são consideradas fatores de risco, justamente pelo simbolismo. Pesam na organização pessoal e funcionamento psicossocial da pessoa que já está em sofrimento profundo, não buscou ou não conseguiu acesso ao tratamento adequado.

“Datas festivas costumam carregar fortes expectativas de alegria, união e realização pessoal. Para quem está passando por perdas, solidão, conflitos familiares, luto, depressão ou outras dores emocionais, esse contraste pode se tornar ainda mais doloroso. A sensação de ‘não estar à altura’ do que socialmente se espera, ou de perceber a ausência de pessoas e vínculos importantes, pode intensificar sentimentos de tristeza, inadequação e desesperança que esta pessoa já vem sentindo ao longo do tempo”, explica o psicólogo.

O reconhecimento da necessidade de ajuda profissional, é o primeiro passo. “Quando uma pessoa perde a vida por suicídio, ela não busca morte. Ela acredita que não tem saída para um sofrimento existencial que somente ela consegue sentir. O fato de não estar em tratamento contribui para que esta pessoa se convença de que seu sofrimento existencial é eterno e sem cura. É essencial reforçar que o suicídio não é sinal de fraqueza, mas um pedido silencioso de ajuda diante de uma dor que parece insuportável naquele momento”, explica.

Como identificar um caso

Adriano Marcos de Oliveira, psicólogo clínico e analista comportamental – Foto: Arquivo Pessoal

Os sinais de alerta do pensamento de morte podem variar de uma pessoa para outra. Mas, características gerais que podem ser observadas estão associadas a uma mudança de comportamento muito abrupta. “Um adolescente que deixa de ter interação social e somente quer ficar trancado no quarto, um indivíduo que passa a faltar no trabalho sem motivos aparentes, pensamentos de desesperança sobre o próprio futuro, comportamento e humor em constante mudança, culpa excessiva, tristeza profunda relacionada a traumas e processos de luto, são alguns sinais que não devem ser minimizados”, pontua o psicólogo.

Ele ainda lembra que o suicídio não tem uma única causa, é um fenômeno complexo e multifatorial, relacionado a questões emocionais e psicológicas, ambientais e sociais, sofrimento prolongado não acolhido, experiências de perdas e traumas não curados, problemas familiares, isolamento social, solidão, entre outros.

“Especialmente na cidade de Dourados temos casos relacionados ao contexto indígena que chamam a atenção ao alto índice, evidenciando, por exemplo, fatores de risco ligados à pobreza, péssimas condições de vida e vulnerabilidade dos povos em meio a disputas por terra, negligenciamento de direitos fundamentais, entre outros”, detalha.

Adriano Marcos ainda lembra que no Brasil, os casos já são encarados como uma questão de saúde pública e, portanto, precisam ser levados cada vez mais a sério no que diz respeito a implantação de polícias de prevenção. “É um consenso entre os profissionais que é preciso de criar estratégias mais eficazes que envolvem a manutenção e fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde), com ampliação e fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), capacitação dos profissionais de saúde e educação para identificação de sinais precoce de sofrimento psíquico, além disso, promoção de saúde mental e prevenção desde a infância”, afirma. 

Na rede pública é possível buscar ajuda nos Caps (Centros de Atendimento Psicossocial). Já o CVV (Centro de Valorização da Vida) recebe ligações gratuitas através do 188, com pessoas preparadas para orientação e acolhimento.

Fonte: Dourados News

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