Moraes visita Alcolumbre antes de abrir processo contra Mendonça
O ministro Alexandre de Moraes esteve por três horas na casa de Davi Alcolumbre horas antes de desencadear medidas contra André Mendonça no inquérito das fake news.
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Na quarta-feira, o ministro Alexandre de Moraes passou três horas na residência de Davi Alcolumbre, no Lago Sul, em Brasília. O encontro ocorreu antes da sessão plenária do Supremo Tribunal Federal (STF) e pouco antes de Moraes adotar medidas contra André Mendonça no inquérito das fake news. Três pessoas próximas confirmaram a reunião à reportagem.
Forte atrito na Corte
A reunião aconteceu em meio a um momento de forte tensão no STF. Mendonça havia solicitado ao presidente Edson Fachin que o plenário analisasse a abertura de investigação contra o próprio Moraes, devido aos vínculos deste com o banqueiro Daniel Vorcaro. Horas depois, no Senado, Alcolumbre respondeu a críticas de parlamentares da oposição por não colocar em pauta o impeachment de Moraes.
Alcolumbre queixou-se das agressões que disse ter sofrido e citou o episódio conhecido como Dark Horse, em que Flávio Bolsonaro teria pedido R$ 130 milhões a Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O senador questionou por que, agora, apenas o ministro do STF seria tratado como responsável.
Aliança política e cálculo estratégico
Aliado e amigo de Moraes, Alcolumbre vinha repetindo que, se alguém deveria enfrentar um processo de afastamento, esse alguém seria Mendonça. Uma fonte próxima às conversas descreveu o movimento de Moraes como uma preparação do terreno para que Alcolumbre possa pautar o impeachment do colega de Corte.
Na decisão, Moraes aponta fortes indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Um senador ouvido em reserva resumiu o cálculo político: seria mais fácil para Alcolumbre sacrificar os demais parlamentares do que abandonar Moraes. Um interlocutor do presidente da Casa reforçou a mesma lógica. Soltar a mão de Moraes, segundo essa avaliação, fortaleceria Mendonça, a quem Alcolumbre considera inimigo declarado.
Parceria anterior e controvérsias
A parceria entre os dois já havia aparecido em outra disputa. Moraes e Alcolumbre atuaram junto com o bloco bolsonarista para derrotar, no Senado, a indicação de Jorge Messias ao STF. Messias é próximo de Mendonça, que trabalhou pela confirmação do nome.
Os relatórios de inteligência usados por Moraes classificam Alcolumbre como um dos prováveis alvos de um suposto direcionamento das investigações por Mendonça. Os papéis são apócrifos, não trazem provas e alertam que qualquer uso externo seria prematuro. Mesmo assim, serviram de base para a decisão contra o ministro.
Decisão e reações
Na própria decisão, Moraes afirma que Alcolumbre teria sofrido atuação enviesada por razões pessoais e políticas e recebido tratamento diferente de outros investigados. O relatório, contudo, registra que o grau de confiança das informações sobre o senador é baixo e que o uso externo do material seria prematuro.
Alcolumbre esteve na degustação de charutos e uísque promovida por Vorcaro em Londres, em 2024, durante fórum jurídico patrocinado pelo Banco Master. O senador também indicou o presidente do fundo de pensão Amprev, dos servidores do Amapá. O fundo adquiriu R$ 400 milhões em títulos do Master, valor que se perdeu com a liquidação da instituição.
Moraes sustenta que Mendonça teria direcionado as apurações contra Alcolumbre por viés político. O documento trabalha com a hipótese de que o parlamentar seria um alvo estratégico, em razão de uma desavença conhecida na época da nomeação de Mendonça ao STF, quando Alcolumbre funcionou como obstáculo.
Sequência coordenada
A ofensiva de Moraes veio três dias depois de Mendonça encaminhar à Procuradoria-Geral da República (PGR) um despacho sobre mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal. Em seguida, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a nulidade de todo aquele conteúdo, que mostraria uma tentativa do empresário de evitar a prisão.
A iniciativa não se limita a um contra-ataque pontual. Na prática, abre espaço para questionar o conjunto da apuração sobre a fraude bancária. Na decisão de cerca de vinte páginas, Moraes aponta direcionamento das investigações e quebra da cadeia de custódia. Essa é a mesma tese que a defesa de Vorcaro estudava para tentar anular o inquérito, depois do fracasso de duas tentativas de colaboração premiada com a PF e a PGR.
O encontro de quarta-feira, a fala de Alcolumbre no Senado e a decisão contra Mendonça formam, assim, uma sequência curta e coordenada. De um lado, a aliança política se reafirma. De outro, a ofensiva jurídica avança sobre o colega de Corte e oferece argumentos que a defesa do banqueiro já buscava para desmontar a investigação.
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Fernando Bastos
Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.
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