Irmãos presos em 2015 viraram clientes de policiais da Denar, aponta Gaeco
Irmãos presos em 2015 com 30 kg de cocaína se tornaram alvo de nova investigação: agora são apontados como clientes de policiais que vendiam drogas apreendidas da Denar.
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Em setembro de 2015, Itamar dos Santos Pereira e Edimilson Santos Pereira foram presos pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) com mais de 30 quilos de cocaína em Campo Grande. Onze anos depois, os nomes dos irmãos reaparecem em uma investigação sobre a própria delegacia.
O esquema apontado pelo Gaeco
Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), policiais passaram a oferecer drogas apreendidas ao grupo ligado aos dois, em negociações intermediadas por Lucas da Silva dos Santos, o “LK”. A prisão de 2015 ocorreu no Jardim Itamaracá, após cerca de cinco meses de investigação. Na época, a Denar informou ter apreendido cocaína avaliada em R$ 260 mil, além de veículos.
A relação investigada começou anos depois. Os “irmãos do tráfico” passaram de alvo a “clientes” do estoque da Denar. Nos autos da Operação Infiltrados, o Gaeco sustenta que, a partir de 2021, policiais civis passaram a usar o acesso a apreensões para retirar drogas dos registros oficiais ou dos depósitos da delegacia e revendê-las.
Policiais envolvidos
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que comandou a Denar por sete anos, é apontado como responsável por comandar o esquema. LK teria feito a ponte entre os agentes e os compradores. Segundo o Gaeco, ele fornecia informações sobre carregamentos, negociava a parcela de droga destinada ao grupo e cuidava da revenda.
Uma das linhas da investigação é que essa aproximação começou após Lucas ser levado à Denar em abril de 2021 pelos policiais Neverson Vieira de Araújo e Adriano Luiz Graeff. A ocorrência foi registrada como desobediência e desacato, sem apreensão de droga. Posteriormente, os investigadores identificaram três transferências de Lucas a Neverson, que somam R$ 1,5 mil.
Negociações com cocaína apreendida
Um dos episódios examinados pelo Gaeco ocorreu em novembro de 2022. Os investigadores Neverson Vieira de Araújo e Nilton Cesar Sales dos Santos participaram de uma apreensão de 30 quilos de pasta-base de cocaína formalizada pela Denar no dia 29. Em 1º de dezembro, Edimilson e Itamar conversaram sobre a carga. Para o Gaeco, o diálogo indica que policiais pretendiam vendê-la ao grupo dos irmãos.
Duas semanas depois, outra apreensão entrou nas conversas. Em 14 de dezembro de 2022, uma carga de 326 quilos de cocaína recolhida em operação da PRF e do Dracco chegou à Denar. Às 13h52, segundo o relatório, Edimilson e LK já tratavam da possibilidade de comprar parte da droga. A investigação associa essa negociação aos policiais Neverson, Nilton e Roberto Palmeira da Silva.
Três dias depois, LK teria enviado a Edimilson a fotografia de um tablete com a inscrição “BUGATTI”, marca também identificada em parte da carga apreendida. Nas conversas seguintes, os envolvidos discutiram valores e a possibilidade de obter 40 quilos da droga. Para o Gaeco, a foto e os diálogos reforçam a suspeita de que policiais ofereciam droga mantida sob custódia da delegacia.
Outros policiais no núcleo operacional
Os autos atribuem a outros policiais funções no núcleo operacional suspeito de rastrear carregamentos, participar de apreensões e repassar entorpecentes. Além dos três nomes ligados à negociação da carga de dezembro, o núcleo inclui:
- Augusto Torres Galvão Florindo
- Douglas Tobias
- Luiz Carlos de Souza
- Marcos André Santos Chaves
- Nelson Ricardo Barros de Oliveira
Edimilson também aparece em outra frente da apuração sobre a infiltração do tráfico no Estado. Na Operação Blindspot, o Gaeco apontou que o policial penal Jonathas Wilson Moraes Cândido compartilhava com ele informações restritas sobre presos, veículos e operações.
As defesas dos policiais e de outros alvos da Operação Infiltrados afirmaram que não haviam recebido acesso integral aos autos e que se manifestariam após analisar os elementos da investigação. A defesa de LK deu resposta semelhante e questionou a prisão de seus familiares. Segundo o Gaeco, Edimilson e Itamar são considerados foragidos.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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