Vício em apostas chega às igrejas de MS com pedidos de ajuda e famílias em crise
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A proibição das bets, anunciada na sexta-feira (25), encontra em Mato Grosso do Sul famílias que ainda tentam lidar com o que perderam nas apostas. Além do dinheiro, há casamentos e relações de confiança abalados pelas dívidas e pela ludopatia, o vício em apostas e jogos de azar. Parte desse sofrimento chega às igrejas na forma de desabafos e pedidos de ajuda, acolhidos por pastores que também orientam a busca por tratamento. “Você olha para a pessoa em público e não imagina que ela está passando por aquela crise. Depois, a gente descobre que ela vendeu tudo e tem uma dívida de não sei quanto. Nosso papel é instruir sobre os problemas que isso traz. Olhando de longe, a gente não consegue entender a crise dentro de algumas casas”, afirma o pastor Marcus Toneti, da Igreja Sara Nossa Terra, em Campo Grande. Ao Campo Grande News , o pastor relata que a igreja tem direcionado famílias para atendimento. “A crise é real e é muito triste. A gente vê famílias boas destruídas por causa disso”, diz Toneti. Para o pastor, o vício no jogo tem afetado mais o público adulto. “Temos tido mais atendimentos quanto a isso. A gente já viu famílias perderem tudo. Não só homens, mulheres também”. No culto, o tema aposta ganhou atenção especial. Numa celebração divulgada na rede social, o pastor Marcus Toneti questiona se a plataforma está pagando e prossegue: “Mas ela paga o preço da sua alma?”. O pastor cita Gênesis para reforçar a capacidade humana de se perder em busca de riqueza. “Se nós achamos que a riqueza vem de roletas, bets, tigrinhos, estou aqui para te falar que a riqueza que realmente importa vem dos céus”. Toneti alerta que a jogatina surge embalada no sentimento de que a pessoa para quando quiser ou que as apostas vão lhe permitir guardar dinheiro para um “pé-de-meia” ou viagem. “Quantas pessoas você conhece que já foi para Bahamas com dinheiro de apostas? Ninguém”. Placas na sala onde acontecem reuniões dos Jogadores Anônimos em Campo Grande. (Foto: Clara Farias) Presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Dourados, Adriano Vieira afirma que faz algum tempo que as apostas têm afetado as famílias, destruído casamentos, levado pessoas aos vícios e houve crescimento acentuado na procura por aconselhamentos. “Em nossa igreja, além da ajuda espiritual fornecida pelos pastores, também encaminhamos e orientamos a ajuda psicológica. Entendo que a Medicina, alinhada com a igreja, pode levar ao abandono do vício e a um tratamento mais adequado”, diz Adriano. Famílias que perderam tudo – Uma das situações mais delicadas que chegou à igreja foi a de uma mulher viciada no Jogo do Tigrinho, em que o objetivo é a combinação de três figuras iguais nas 3 fileiras que aparecem na tela. “Ela gastou todas as economias da família, cerca de R$ 80 mil. Isso levou à separação do casal. Após aconselhamento, ela aceitou se tratar e aos poucos foi recuperando o casamento e a família. A dor e o sofrimento causados são extremos. Tanto em quem se vicia, quanto em quem está ao lado, no caso, a família”, relata o pastor Adriano. A reportagem tentou contato com padres, mas não obteve resposta sobre o tema. Armadilhas – A exemplo dos antigos cassinos físicos, que estão proibidos no Brasil há 20 anos, o cassino no celular se vale de recursos para prender as pessoas no jogo. Se o ambiente da jogatina tinha aspectos recreativos e bebidas alcoólicas, o cassino de mão também se vale de recursos estéticos, com imagens vibrantes e coloridas. São os chamados padrões obscuros. Celular virou cassino ao alcance das mãos. (Foto: Arquivo) Segundo o psiquiatra Vinícius Andrade, supervisor e doutorando do Ambulatório de Jogo da USP (Universidade de São Paulo), o conceito de padrões que geram maior recompensa é intuitivo. A entrevista ao Campo Grande News foi em 22 de junho. “Quando faço e dá certo, eu começo a repetir e replicar. Com o advento da tecnologia, começa a fazer isso de forma mais massiva. Tenho um padrão que gera mais ganho, vou replicar e aprimorar cada vez mais. Aí entram esses padrões de design. Existem padrões positivos, que vão levar você a ter um melhor comportamento. Mas muitas vezes é usado de forma mais negativa. Com objetivo de ter maior ganho da empresa, sem muito se preocupar com a saúde daquele indivíduo. A gente vê desde padrões de tamanho de letras até cores mais atrativas para aquele indivíduo buscar”, diz Vinícius. O especialista destacou que um comportamento se torna um transtorno quando passa a causar prejuízos significativos na vida da pessoa, afetando áreas como a social, emocional e financeira. “A pessoa não consegue parar. Ela vai voltar a esse comportamento para fugir de uma dor ou em busca de um prazer. Apesar das consequências, como dívidas enormes que a gente vê nas apostas, ela continua com aquele comportamento compulsivo”. Medida provisória – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou na sexta-feira, durante a campanha em que é candidato à reeleição, um pacote de medidas que proíbe a operação de bets, como são conhecidas as plataformas de apostas de quota fixa, no Brasil. A iniciativa prevê o bloqueio de novos depósitos nos sites e o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei que cria crimes específicos para quem explorar ou auxiliar o funcionamento de apostas ilegais. Segundo o governo, os apostadores terão até as 23h59 do dia 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores disponíveis nas plataformas. Após esse prazo, os bancos responsáveis pelas operações financeiras das bets deverão realizar a devolução dos saldos entre os dias 9 e 14 de outubro. Ajuda – Em Campo Grande, o grupo Jogadores Anônimos realiza encontros todas as terças e quintas-feiras, a partir das 19h, na Rua Maracaju, 249, no Centro. Na rede municipal de saúde , a orientação é para que pessoas que percebam sinais de dependência procurem uma USF (Unidade de Saúde da Família) ou um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) para avaliação e definição do tratamento adequado. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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