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ESTADO

Grávidas percorrem até 250 km para ter parto em Mato Grosso do Sul

Em MS, 13 cidades não têm estrutura para parto; gestantes enfrentam longas viagens de ambulância até a Capital.

08/10/2026 às 05:46
3 min de leitura
Gestante grávida viaja de ambulância por estrada de MS para ter parto na Capital
Cintia mora em Rio Verde, viajou até Coxim, mas veio ter a filha em Campo Grande. (Foto: Juliano Almeida)

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Risco na estrada e medo de perder o bebê

Kethelyn Mariany Artiaga de Souza, de 22 anos, viveu o desespero de uma viagem de 141 km de Camapuã a Campo Grande com a bolsa rompida, aos sete meses de gestação. Dentro de uma ambulância do Samu, sob temporal, ela torcia para que o filho não nascesse no meio do caminho. A cozinheira já havia perdido um bebê em 2023, na mesma situação, por falta de atendimento rápido no distrito de Pontinha do Cocho.

Dessa vez, o parto ocorreu no Hospital Universitário (Humap/UFMS) e ela descobriu que esperava gêmeos. Os recém-nascidos estão na UTI e se recuperam bem. O relato expõe o drama da “ambulancioterapia” em Mato Grosso do Sul, onde 13 municípios não oferecem assistência ao parto.

13 cidades sem estrutura para parto em MS

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES), não há hospital ou unidade que realize partos nos seguintes municípios:

  • Dois Irmãos do Buriti
  • Nioaque
  • Bandeirantes
  • Corguinho
  • Jaraguari
  • Rochedo
  • Terenos
  • Ladário
  • Douradina
  • Taquarussu
  • Paraíso das Águas
  • Paranhos
  • Batayporã

Essas gestantes são encaminhadas para cidades polos, como Campo Grande, muitas vezes viajando centenas de quilômetros.

Rotina de deslocamento e falta de pré-natal

Maria Roméria de Sá, 35 anos, moradora de Terenos (a 31 km da Capital), vinha a cada 15 dias para consultas em Campo Grande. “Passava pelo médico, fazia ultrassom. Tenho diabetes e pressão alta”, conta. Todos os seus seis filhos nasceram na Capital. O caçula veio ao mundo em 30 de setembro, de parto normal, enquanto ela estava na cidade para marcar a cesárea.

Cíntia Magalhães, 22 anos, mora em Rio Verde de Mato Grosso e precisou ir para Coxim (40 min de viagem) e depois ser transferida de ambulância para Campo Grande, percorrendo 253 km. Os dois filhos mais velhos ficaram com a avó.

Médicas apontam falhas na triagem

A médica Isabela Pierezan, do Humap, explica que muitas gestantes chegam sem pré-natal adequado. “A gente só recebe a ponta do iceberg. Muitas vezes o exame não é feito por especialista, a paciente é triada pela enfermagem. Nem sempre a gente atende paciente que teve boa triagem”, relata.

Para a médica Rosineia Martos, o problema começa antes: “Falta de pré-natal, de diagnóstico e de qualidade técnica. Às vezes elas vêm com um diagnóstico, mas quando chega aqui é completamente diferente”.

Rede Alyne: plano do governo para reduzir mortes

Lançada em setembro de 2024 pelo governo federal, a Rede Alyne substitui a antiga Rede Cegonha e tem metas de reduzir em 25% a mortalidade materna e em 50% a de mulheres negras até 2027. Em Mato Grosso do Sul, a SES elaborou o Plano de Ação Regional (PAR) com propostas para novos serviços.

Já foram aprovados pelo Ministério da Saúde:

  • Ambulatórios Especializados para Gestação e Puerpério de Alto Risco (AGPAR) em Campo Grande, Dourados, Jardim e Três Lagoas.
  • Ambulatórios para recém-nascidos egressos de UTI neonatal em Aquidauana, Jardim, Campo Grande, Dourados, Ponta Porã e Três Lagoas.
  • Centros de Parto Normal intra-hospitalares em Sidrolândia, Dourados e Três Lagoas.

A estratégia prevê ainda ampliação do ultrassom obstétrico, fortalecimento da assistência neonatal e recursos para transporte inter-hospitalar especializado.

O que dizem as prefeituras

O prefeito de Camapuã, Manoel Nery (PP), afirma que a cidade tem centro cirúrgico e obstetra, mas falta anestesista e UTI. “Realmente, a recomendação é que cesáreas sejam feitas em centros com UTI. É segurança para a mãe e o filho”.

Terenos informou que não possui estrutura cirúrgica, e a referência para partos é Campo Grande. Em Rio Verde de Mato Grosso, o prefeito Réus Fornari (PP) diz que reformas no hospital e falta de anestesista obrigam cesáreas a serem feitas em Coxim, a 50 km de distância.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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