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Temporais em Campo Grande escancaram desafios no abastecimento de água

O abastecimento de água em Campo Grande enfrentou desafios com os temporais de setembro, que geraram 3.808 ordens de serviço e expuseram fragilidades no sistema.

19/10/2026 às 06:40
3 min de leitura
Temporais em Campo Grande expõem dificuldades no abastecimento de água
A gerente de Operações, Luciara Peruzzi, mostra a central de monitoramento da empresa (Foto: Luiz Donizete)

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Temporal de setembro expõe gargalos no abastecimento de água

O temporal que atingiu Campo Grande em 10 de setembro provocou estragos no sistema de abastecimento da Águas Guariroba. Em três dias, a concessionária contabilizou 3.808 ordens de serviço, das quais 66% foram abertas na sexta-feira, um dia após a tempestade. Os chamados incluíram hidrômetros danificados, rompimentos de adutoras e travessias, além de ocorrências de falta d’água.

  • Hidrômetros: danificados pela chuva e granizo
  • Adutoras e travessias: rompidas
  • Abastecimento: interrompido em bairros residenciais

Os bairros mais afetados foram Novos Estados, Vila Nasser, São Conrado, Chácara dos Poderes, Rita Vieira, Jardim Veraneio, Cidade Jardim, Estrela Dalva e o distrito de Anhanduí. A normalização do serviço ocorreu no domingo (13), com São Conrado sendo o último setor recuperado. A gerente de Operações, Luciara Peruzzi, informou que furtos de cabos durante a tempestade também atrasaram a retomada.

A demora para restabelecer a água não se deve apenas à falta de energia. Após uma parada prolongada, é preciso encher novamente as tubulações e recuperar a pressão na rede, processo que leva tempo e varia conforme a extensão da área e o período de interrupção. Para acelerar a recuperação, a concessionária colocou em campo 114 equipes, utilizou geradores a diesel em unidades críticas e fez manobras para transferir água de setores operantes para as áreas afetadas. A concessionária recorreu a interligações entre setores para levar água de regiões não atingidas para as prejudicadas. No total, mais de 350 pessoas foram mobilizadas.

O impacto atingiu diretamente os moradores. Alex Tabosa, que vive na Moreninha 2 há 16 anos, contou que a caixa-d’água da sua casa secou no dia seguinte à chuva, e a família precisou pedir água a uma vizinha. “Ficamos cerca de meio período sem água”, relatou.

Plano de contingência divide opiniões

O engenheiro Peter Batista Cheung, professor de Hidráulica da UFMS, defende que o planejamento para emergências deve começar antes da tempestade. “Quando falo de contingência, falo de plano, processo e gente”, afirmou. Para ele, simulações computacionais permitem prever falhas e definir procedimentos para cada cenário, como interrupção de energia ou parada de equipamentos. O conhecimento dos pontos vulneráveis e o treinamento das equipes são fundamentais para uma resposta eficaz. Ele também destaca que a manutenção preventiva das redes e equipamentos é essencial para reduzir falhas durante eventos climáticos.

Cheung ressalta que o plano precisa considerar os mais vulneráveis, como famílias sem caixa-d’água, e prever atendimento emergencial em parceria com poder público e regulador.

Luciara Peruzzi, da Águas Guariroba, declarou que a empresa mantém um plano de contingência com unidades críticas mapeadas e procedimentos para diferentes regiões e tipos de falha. Ela citou a utilização de geradores e manobras de rede como parte do plano, mas não detalhou o documento nem informou se houve atualização após o temporal. A concessionária foi questionada sobre possíveis mudanças, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

O temporal de setembro evidenciou a importância de uma preparação robusta. Apenas a mobilização de 350 pessoas e 114 equipes não garantiu uma retomada rápida em todas as áreas, algo que, para Cheung, reforça a necessidade de planos bem estruturados.

Chuva intensa exige mais do tratamento de água

As chuvas fortes não apenas sobrecarregam a rede de distribuição como também afetam a qualidade da água nos mananciais. O pesquisador Thiago Rangel Rodrigues, do Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS, explica que o escoamento superficial carrega solo, sedimentos e matéria orgânica para córregos e reservatórios. Isso eleva a turbidez e obriga a estação de tratamento a aumentar a dosagem de produtos químicos e ajustar as fases de coagulação, floculação e filtração. O tratamento padrão é desenhado para garantir a potabilidade, mas em eventos extremos o monitoramento precisa ser mais frequente. O monitoramento da qualidade é intensificado, com coleta mais frequente de amostras para garantir a potabilidade.

“Chuva intensa não significa necessariamente água imprópria, desde que o tratamento opere adequadamente”, ressalta Thiago. Na captação do Córrego Lageado, em área urbana, Luciara Peruzzi relata que a areia e outros materiais tornam o tratamento mais trabalhoso, exigindo maior tempo e produtos para atingir os padrões.

Segundo a gerente, a Águas Guariroba realiza limpeza na captação, cuidados com estruturas e manejo de processos erosivos a montante. Thiago complementa que proteger a vegetação nas margens e controlar a erosão são fundamentais para reduzir a carga de poluentes e favorecer a infiltração.

Diversidade de fontes garante abastecimento de água

Campo Grande conta com um sistema misto de abastecimento, combinando captações superficiais nos córregos Guariroba e Lageado com água subterrânea de poços. Ao todo, são duas ETAs, 150 poços, 107 reservatórios e 4.166 km de rede de distribuição. Essa diversidade oferece flexibilidade: se uma fonte falha, outras podem suprir a demanda.

  • ETAs: duas (Guariroba e Lageado)
  • Poços: 150
  • Reservatórios: 107
  • Rede de distribuição: 4.166 km

Luciara exemplifica que, quando um poço importante da região das Moreninhas apresentou falha, o sistema foi alimentado por interligações com os setores Dom Antônio e Paulo Coelho. O Centro de Controle Operacional monitora em tempo real a produção, os níveis dos reservatórios e a pressão, utilizando uma ferramenta que projeta o comportamento do sistema nas próximas seis horas.

Além disso, a concessionária firmou parceria com a UFMS para desenvolver inteligência artificial capaz de prever as vazões dos córregos Lageado e Guariroba com até seis meses de antecedência, auxiliando no planejamento da disponibilidade hídrica.

No campo da gestão de riscos, o pesquisador Thiago Rangel alerta que a temperatura elevada e a irregularidade das chuvas, como as previstas pelo Cemtec para a primavera de 2026, aumentam a demanda e a pressão sobre o sistema. No entanto, ele ressalta que fenômenos como o El Niño não significam automaticamente desabastecimento. “O risco efetivo depende da combinação entre condições meteorológicas, disponibilidade de água e capacidade de gestão do sistema.”

Para ele, a melhor estratégia é antecipar os riscos por meio de manutenção preventiva, redução de perdas, proteção das bacias e planos de contingência robustos.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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