Delegado que caçava traficantes é preso por desvio de drogas
Hoffmann D'Ávila, ex-comandante da Denar, é denunciado pelo Gaeco por chefiar esquema de desvio de cocaína.
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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), denunciou o delegado Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, de 56 anos, por chefiar uma organização criminosa formada por policiais e traficantes. O grupo é suspeito de desviar drogas apreendidas pela própria Polícia Civil e revendê-las no mercado ilegal.
Hoffmann comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) de 2019 até fevereiro de 2026. A denúncia da Operação Infiltrados, protocolada em outubro, envolve 23 pessoas, entre policiais, traficantes e outros investigados.
Delegado exercia comando do esquema, aponta Gaeco
Segundo a denúncia, Hoffmann não se limitava a fazer vista grossa às irregularidades. Ele exercia papel decisivo na estrutura criminosa, autorizava desvios de entorpecentes e estava entre os principais beneficiários financeiros da organização.
“Em síntese, as provas produzidas demonstram que Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, na condição de delegado de polícia, ocupava posição de comando e chancela institucional do esquema”, diz trecho da peça.
O Gaeco afirma que o grupo atuou entre 2021 e 2026 e aproveitava a estrutura da Polícia Civil, o acesso a informações sigilosas e a custódia de entorpecentes para abastecer o tráfico.
Apreensão de cocaína é alvo de suspeita
Em 22 de maio de 2024, Hoffmann concedeu entrevista coletiva para anunciar a apreensão de 650 quilos de cocaína em Bela Vista. A carga, avaliada em R$ 15 milhões, foi considerada a maior da história da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
A investigação, porém, aponta que a operação contou com informações do traficante Lucas da Silva dos Santos, o “LK”. Segundo o Gaeco, LK informou sobre um depósito com cerca de 1 tonelada de cocaína, mas apenas 643 quilos foram oficialmente apreendidos. Os investigadores suspeitam que aproximadamente 400 quilos tenham sido desviados antes do registro da ocorrência.
No dia da coletiva, LK comentou com comparsas que o delegado deveria estar falando com a imprensa naquele momento e que o andamento do desvio seria definido depois.
Celulares ficaram sete meses sem perícia
Quatro aparelhos celulares apreendidos durante a operação ficaram meses sem análise pericial. Segundo o MPMS, os telefones sequer foram incluídos no boletim de ocorrência inicialmente. O registro só foi complementado em 8 de outubro de 2024.
Em 10 de janeiro de 2025, Hoffmann determinou que os aparelhos fossem enviados à Promotoria de Bela Vista sem passar pelo Instituto de Criminalística. Para o Gaeco, a atitude foi uma tentativa deliberada de impedir que os dados revelassem outros integrantes do grupo.
Traficante cobrava 20% das drogas apreendidas
Em 3 de maio de 2024, policiais da Denar apreenderam 793 quilos de maconha em Campo Grande. Parte da droga teria sido entregue a LK pelo policial civil Douglas Tobias, com autorização de Hoffmann.
Em conversas captadas, LK reclamou da quantidade recebida e disse que tentaria convencer os policiais a liberar outros 30 quilos. Ele também mencionou um acordo pelo qual o grupo receberia 20% das drogas recolhidas em operações:
“O certo é os caras pagarem 20%”, afirmou o traficante, segundo a denúncia.
LK ainda orientou um comparsa a conferir a reportagem no Instagram da Denar. Para os investigadores, isso mostra que os traficantes negociavam drogas retiradas de operações reais.
Transferências e patrimônio milionário
A denúncia também cita movimentações financeiras entre Hoffmann e o policial Neverson Vieira de Araújo. Foram três transferências por Pix, em setembro de 2021, totalizando R$ 5,9 mil. Neverson é apontado como um dos responsáveis pela aproximação entre LK e o grupo.
A análise patrimonial do delegado identificou R$ 436,7 mil em créditos com origem desconhecida. Desse total, R$ 328,5 mil correspondem a 32 depósitos em dinheiro feitos entre outubro de 2021 e junho de 2025.
Os investigadores também apontam:
- Depósito de R$ 276 mil em espécie em 11 de março de 2024, com saque de R$ 265,6 mil no mesmo dia;
- Investimentos superiores a R$ 1,2 milhão em pouco mais de um ano;
- Residência no Alphaville 1, em Campo Grande, com investimento de cerca de R$ 1,6 milhão;
- Empréstimo declarado de R$ 750 mil no Imposto de Renda, com origem não comprovada.
O Gaeco considera que a movimentação de dinheiro vivo e a aquisição de bens de alto valor são indícios de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico.
Denúncia pede perda do cargo e R$ 10 milhões
Os 23 denunciados respondem por crimes como organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico, peculato-desvio, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, obstrução de Justiça e violação de sigilo funcional.
Hoffmann foi enquadrado em seis tipos de crime. O MPMS pede a perda do cargo público, o confisco de bens relacionados às atividades criminosas e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.
Carreira de 17 anos terminou em prisão
Hoffmann começou como escrivão em Goiânia por cerca de cinco anos antes de virar delegado em Mato Grosso do Sul, em 2014. Passou por Costa Rica e pela Depac da Vila Piratininga, em Campo Grande, até assumir a Denar em 2019.
Depois de deixar a Denar em fevereiro, ele comandou o Garras por 113 dias e foi transferido para a 6ª Delegacia de Polícia em junho. Quando a operação estourou, estava na delegacia de Terenos. Delegado de classe especial, com salário bruto próximo de R$ 40 mil, segue afastado, mas recebendo normalmente.
Preso preventivamente, cumpre prisão na carceragem do Garras, unidade onde já foi chefe. A denúncia foi protocolada em 9 de outubro e ainda não foi recebida pela Justiça.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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