Rua 14 de Julho perde bares e noite enfraquece em Campo Grande
Bares fecham as portas ou deixam a Rua 14 de Julho, em Campo Grande, por queda de movimento e insegurança.
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Bares fecham as portas ou deixam a Rua 14 de Julho, em Campo Grande, por queda de movimento e insegurança.
Em menos de três meses, o Mistura e o Má Donna Bar encerraram as atividades na via. Nesta sexta-feira (23), o Pizza Pub faz a última noite no endereço e coloca o ponto à venda. Empresários citam queda de movimento, insegurança, concorrência e dificuldade para pagar as contas.
Quem frequentava a região também sente a mudança. A jornalista Thayssa Maluf conheceu a vida noturna da 14 em uma transmissão do Oscar no Copo Bar. “Ali a 14 já me pegou e percebi que ali era meu lugar”, lembra. Depois vieram o samba no Má Donna, as visitas ao Mistura e as sextas no Pizza Pub. Hoje, parte do roteiro não existe mais. Ela deixou de ir com a mesma frequência após presenciar uma briga perto do Má Donna e passou a restringir as saídas ao Balaio, a algumas quadras dali. Segundo Bruno Morais, sócio do Copo Bar, atualmente há cerca de dez bares na região.
Custos altos e segurança tiram Mistura da rua
O Mistura abriu no fim de agosto de 2024, quando a região atraía novos estabelecimentos. Dois anos depois, em agosto de 2026, as irmãs que administravam o negócio encerraram. “No início, foi muito bom. Estava indo muita gente”, afirma Graciela Minna.
O movimento permitia pagar as despesas, mas a redução de clientes pesou. Para cada apresentação, os custos incluíam:
- Aluguel: R$ 5,7 mil por mês
- Imóvel com IPTU: R$ 6,2 mil mensais
- Banda: R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por show
- Som: R$ 500 por locação
- Profissionais: contratação para cada noite
“Antes da dívida ficar maior, a gente resolveu encerrar”, diz. A segurança foi o principal fator. Ela conta que amigas e clientes deixaram de frequentar a região por medo de brigas. Graciela cobra policiamento preventivo, com agentes circulando a pé, e considera insuficiente uma viatura parada em um único ponto.
Concorrência com ambulantes e falta de regras
A empresária relata dificuldade para competir com vendedores que oferecem bebidas a preços menores. Na avaliação dela, a diferença de despesas prejudicava os bares que mantinham equipe, estrutura e atrações musicais.
Graciela participou de reuniões com representantes da prefeitura para pedir fiscalização e regras aplicadas a todos. Ela não quer o fim dos ambulantes. “Não acho que tenha que acabar com os ambulantes”, ressalta. Defende a regularização e o cumprimento de exigências sanitárias para a venda de bebidas.
Ela não descarta voltar a ter um bar em outro endereço, mas, por enquanto, não pretende retomar o negócio.
Má Donna Bar deixa rua e vai reabrir em local mais tranquilo
O proprietário do Má Donna, Kayky Sanches, também viu o movimento cair. O bar abriu em julho de 2024, quando o Copo e o Pizza Pub já funcionavam na região. “Começou a vir gente de todos os lados da cidade”, lembra.
Para ele, o fechamento da rua ao trânsito ampliou a circulação, mas não foi acompanhado da estrutura necessária. “Se o poder público quer fechar, o poder público tem que ajudar a cuidar”, afirma. Ele cita conflitos por causa do volume de som de vizinhos e um episódio com gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar frequentadores.
O estabelecimento chegou a ter oito funcionários e custos próximos de R$ 60 mil mensais, incluindo equipe, manutenção e programação artística. As despesas do imóvel ficavam em torno de R$ 12 mil.
- Funcionários: 8
- Custos totais: cerca de R$ 60 mil por mês
- Imóvel (sem pessoal): cerca de R$ 12 mil mensais
A decisão foi deixar a rua e preparar a reabertura em uma localização considerada mais tranquila.
Pizza Pub faz última festa e fica à venda
O Pizza Pub encerra o atendimento na 14 de Julho nesta sexta-feira (23) e o estabelecimento está à venda. A casa começou na Rua Barão do Rio Branco e depois migrou para a 14. Nas redes sociais, os responsáveis lembraram quase quatro anos de trabalho e agradeceram a clientes, músicos, parceiros e colaboradores.
O proprietário Jean Vernochi critica a segurança no Centro. “O que eu posso falar sobre a segurança ali no centro é que ela não existe”, afirma. Ele questiona a estrutura da GCM e a falta de assistência a pessoas em situação de rua. Não detalhou os motivos da venda.
Revitalização criou corredor cultural, mas falta apoio
A movimentação noturna da 14 ganhou força após a revitalização concluída em 2019 e, principalmente, depois da pandemia. A via foi classificada como corredor cultural em 2024, com o objetivo de ampliar atividades artísticas e culturais no Centro fora do horário comercial.
Os bares chegaram para ocupar esse chamado terceiro turno. Com a saída de estabelecimentos, empresários questionam a falta de estrutura, segurança e incentivo para manter a atividade noturna.
Copo Bar resiste e aposta no potencial da via
O Copo Bar abriu em outubro de 2023 e foi o primeiro dessa leva. Bruno Morais lembra que o movimento intenso no primeiro ano permitiu reinvestir no espaço. Depois, o público diminuiu, com queda mais acentuada no último ano.
Hoje, o Copo tem despesas básicas de R$ 20 mil por mês, incluindo R$ 4 mil de aluguel, e emprega cinco pessoas, além dos dois sócios. Apesar das dificuldades, Bruno pretende continuar.
Ele relata pedidos por banheiros, limpeza, segurança e fiscalização no período de maior circulação. Defende que a 14 seja valorizada como destino gastronômico e turístico. “Poderia ser a Avenida Bom Pastor do centro”, compara. Ele diz que as reuniões com o poder público se concentraram no policiamento, sem continuidade nas discussões sobre turismo.
Bruno considera a região mais tranquila, afirma que as brigas se tornaram raras e nunca registrou uma dentro do Copo. Pede mais presença policial, inclusive depois da meia-noite, quando os bares fecham mas ainda há pessoas nas ruas. Nas sextas e sábados, o movimento continua.
A reportagem solicitou posicionamento da prefeitura de Campo Grande e da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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