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ESTADO

Rua 14 de Julho perde bares e noite enfraquece em Campo Grande

Bares fecham as portas ou deixam a Rua 14 de Julho, em Campo Grande, por queda de movimento e insegurança.

23/10/2026 às 16:39
3 min de leitura
Noite perde força na Rua 14 de Julho com despedida de bares em Campo Grande
Auge da interdição do trânsito na Rua 14 de Julho quando os bares eram lotados (Foto: Arquivo Pessoal)

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Bares fecham as portas ou deixam a Rua 14 de Julho, em Campo Grande, por queda de movimento e insegurança.

Em menos de três meses, o Mistura e o Má Donna Bar encerraram as atividades na via. Nesta sexta-feira (23), o Pizza Pub faz a última noite no endereço e coloca o ponto à venda. Empresários citam queda de movimento, insegurança, concorrência e dificuldade para pagar as contas.

Quem frequentava a região também sente a mudança. A jornalista Thayssa Maluf conheceu a vida noturna da 14 em uma transmissão do Oscar no Copo Bar. “Ali a 14 já me pegou e percebi que ali era meu lugar”, lembra. Depois vieram o samba no Má Donna, as visitas ao Mistura e as sextas no Pizza Pub. Hoje, parte do roteiro não existe mais. Ela deixou de ir com a mesma frequência após presenciar uma briga perto do Má Donna e passou a restringir as saídas ao Balaio, a algumas quadras dali. Segundo Bruno Morais, sócio do Copo Bar, atualmente há cerca de dez bares na região.

Custos altos e segurança tiram Mistura da rua

O Mistura abriu no fim de agosto de 2024, quando a região atraía novos estabelecimentos. Dois anos depois, em agosto de 2026, as irmãs que administravam o negócio encerraram. “No início, foi muito bom. Estava indo muita gente”, afirma Graciela Minna.

O movimento permitia pagar as despesas, mas a redução de clientes pesou. Para cada apresentação, os custos incluíam:

  • Aluguel: R$ 5,7 mil por mês
  • Imóvel com IPTU: R$ 6,2 mil mensais
  • Banda: R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por show
  • Som: R$ 500 por locação
  • Profissionais: contratação para cada noite

“Antes da dívida ficar maior, a gente resolveu encerrar”, diz. A segurança foi o principal fator. Ela conta que amigas e clientes deixaram de frequentar a região por medo de brigas. Graciela cobra policiamento preventivo, com agentes circulando a pé, e considera insuficiente uma viatura parada em um único ponto.

Concorrência com ambulantes e falta de regras

A empresária relata dificuldade para competir com vendedores que oferecem bebidas a preços menores. Na avaliação dela, a diferença de despesas prejudicava os bares que mantinham equipe, estrutura e atrações musicais.

Graciela participou de reuniões com representantes da prefeitura para pedir fiscalização e regras aplicadas a todos. Ela não quer o fim dos ambulantes. “Não acho que tenha que acabar com os ambulantes”, ressalta. Defende a regularização e o cumprimento de exigências sanitárias para a venda de bebidas.

Ela não descarta voltar a ter um bar em outro endereço, mas, por enquanto, não pretende retomar o negócio.

Má Donna Bar deixa rua e vai reabrir em local mais tranquilo

O proprietário do Má Donna, Kayky Sanches, também viu o movimento cair. O bar abriu em julho de 2024, quando o Copo e o Pizza Pub já funcionavam na região. “Começou a vir gente de todos os lados da cidade”, lembra.

Para ele, o fechamento da rua ao trânsito ampliou a circulação, mas não foi acompanhado da estrutura necessária. “Se o poder público quer fechar, o poder público tem que ajudar a cuidar”, afirma. Ele cita conflitos por causa do volume de som de vizinhos e um episódio com gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar frequentadores.

O estabelecimento chegou a ter oito funcionários e custos próximos de R$ 60 mil mensais, incluindo equipe, manutenção e programação artística. As despesas do imóvel ficavam em torno de R$ 12 mil.

  • Funcionários: 8
  • Custos totais: cerca de R$ 60 mil por mês
  • Imóvel (sem pessoal): cerca de R$ 12 mil mensais

A decisão foi deixar a rua e preparar a reabertura em uma localização considerada mais tranquila.

Pizza Pub faz última festa e fica à venda

O Pizza Pub encerra o atendimento na 14 de Julho nesta sexta-feira (23) e o estabelecimento está à venda. A casa começou na Rua Barão do Rio Branco e depois migrou para a 14. Nas redes sociais, os responsáveis lembraram quase quatro anos de trabalho e agradeceram a clientes, músicos, parceiros e colaboradores.

O proprietário Jean Vernochi critica a segurança no Centro. “O que eu posso falar sobre a segurança ali no centro é que ela não existe”, afirma. Ele questiona a estrutura da GCM e a falta de assistência a pessoas em situação de rua. Não detalhou os motivos da venda.

Revitalização criou corredor cultural, mas falta apoio

A movimentação noturna da 14 ganhou força após a revitalização concluída em 2019 e, principalmente, depois da pandemia. A via foi classificada como corredor cultural em 2024, com o objetivo de ampliar atividades artísticas e culturais no Centro fora do horário comercial.

Os bares chegaram para ocupar esse chamado terceiro turno. Com a saída de estabelecimentos, empresários questionam a falta de estrutura, segurança e incentivo para manter a atividade noturna.

Copo Bar resiste e aposta no potencial da via

O Copo Bar abriu em outubro de 2023 e foi o primeiro dessa leva. Bruno Morais lembra que o movimento intenso no primeiro ano permitiu reinvestir no espaço. Depois, o público diminuiu, com queda mais acentuada no último ano.

Hoje, o Copo tem despesas básicas de R$ 20 mil por mês, incluindo R$ 4 mil de aluguel, e emprega cinco pessoas, além dos dois sócios. Apesar das dificuldades, Bruno pretende continuar.

Ele relata pedidos por banheiros, limpeza, segurança e fiscalização no período de maior circulação. Defende que a 14 seja valorizada como destino gastronômico e turístico. “Poderia ser a Avenida Bom Pastor do centro”, compara. Ele diz que as reuniões com o poder público se concentraram no policiamento, sem continuidade nas discussões sobre turismo.

Bruno considera a região mais tranquila, afirma que as brigas se tornaram raras e nunca registrou uma dentro do Copo. Pede mais presença policial, inclusive depois da meia-noite, quando os bares fecham mas ainda há pessoas nas ruas. Nas sextas e sábados, o movimento continua.

A reportagem solicitou posicionamento da prefeitura de Campo Grande e da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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