Túmulos dentro de igrejas guardam histórias de fé e devoção em MS
Em Mato Grosso do Sul, sepulturas dentro de igrejas preservam a memória de líderes religiosos e comunitários e atraem fiéis e familiares.
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No estado de Mato Grosso do Sul, algumas igrejas guardam túmulos de lideranças religiosas e comunitárias. Esses espaços sagrados reúnem fé, memória e afeto. No Dia de Finados, a reportagem visitou locais onde a história dos mortos permanece viva no cotidiano das comunidades.
Igreja de São Benedito mantém viva a história de Tia Eva
Na comunidade de Tia Eva, em Campo Grande, a Igreja de São Benedito abriga a sepultura da matriarca que fundou o local. Vânia Lúcia Batista Duarte, tataraneta de Tia Eva, visita o túmulo para reverenciar a fundadora. O espaço fica à esquerda de quem entra pela porta principal.
Conforme Vânia, a decisão de transferir os restos mortais para a igreja partiu das lideranças mais antigas, depois que o cemitério da comunidade foi desativado. A igreja passou por reformas e deve reabrir em 11 de novembro, com uma festa pelos 100 anos da morte de Tia Eva.
Para o historiador Fábio William de Souza, o túmulo representa o reconhecimento de uma liderança. “A comunidade não recorda apenas a pessoa, mas também sua obra, sua liderança e os valores que ela representava”, afirmou.
Túmulo de padre João Crippa reúne agradecimentos de fiéis
Na Paróquia São José, também em Campo Grande, o túmulo do padre João Crippa recebe homenagens de devotos. Placas e cartazes registram agradecimentos por graças atribuídas à intercessão do sacerdote. O fundador da paróquia morreu em 1951, aos 89 anos.
- Atuação: padre Crippa trabalhou em Campo Grande por cerca de 20 anos.
- Contribuição: ajudou a criar o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.
- Beatificação: o inquérito diocesano foi aberto em outubro de 2016.
O pároco Paulo Roberto de Oliveira contou que os restos mortais do padre foram trasladados de Três Lagoas em 1951, acompanhados por uma procissão. “Eu vejo que foi pelo amor que o povo teve, um pequeno gesto desse povo que ele ajudou tanto”, disse.
Catedral de Campo Grande guarda túmulo de dom Antônio Barbosa
Sem visitação pública, a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Abadia preserva a sepultura de dom Antônio Barbosa, primeiro bispo e primeiro arcebispo de Campo Grande. A lápide traz a inscrição: “Amou a Igreja. Morreu por ela”.
Dom Antônio morreu em 1993, em São Paulo. O corpo foi trasladado para Campo Grande e sepultado sob o altar da catedral.
Sepulturas em outras cidades atraem visitantes
Em Dourados, a cripta da Catedral Imaculada Conceição abriga o túmulo de dom Teodardo Leitz. Em Corumbá, a Catedral de Nossa Senhora da Candelária guarda os restos mortais de dom Vicente Priante, fundador da Congregação das Irmãs de Jesus Adolescente.
Durante uma reforma na catedral de Corumbá, os restos de dom Vicente foram acondicionados em uma urna especial. A sepultura, recolocada no mesmo local, é visitada por fiéis e turistas conduzidos por guias locais.
Sepultamento em igrejas tinha significado religioso e social
O historiador Fábio William de Souza explica que, por séculos, o sepultamento dentro de igrejas carregava grande valor religioso. A proximidade com o altar era associada à esperança de salvação. No entanto, a prática também reproduzia diferenças sociais: os locais mais próximos do altar eram reservados a pessoas de maior prestígio.
A partir do século XIX, enterros em templos passaram a ser contestados por médicos e autoridades. O pensamento higienista associava a decomposição dos corpos à transmissão de doenças. A mudança encontrou resistência, como na Cemiterada de Salvador, em 1836.
Para o historiador, o papel do pesquisador não é confirmar ou negar a fé de uma comunidade. “Mas compreender como essa fé foi construída, transmitida e preservada ao longo do tempo”, concluiu.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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