PF expõe karaokê, selfies e abraços entre delegado e o tráfico
Imagens da Operação Ifrit ligam delegado a festas, selfies e abraços com cúpula do tráfico.
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Imagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) expõem a relação do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa com o tráfico. Ele é alvo da Operação Ifrit, deflagrada na quarta-feira (4).
Conhecido como “Careca” entre investigados e suspeito de ser o “Batman”, Hoffman comandou a Denar por sete anos. As evidências foram obtidas na Operação Ifrit, que mira o Clã Haidar.
Operação Ifrit mira organização com R$ 500 milhões
A investigação aponta que a família Haidar, de Ponta Porã, comandava uma rede de tráfico internacional de drogas e armas. O grupo teria conexões com o PCC e o PGC e movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos.
Segundo a PF, a proteção de agentes públicos seria uma das engrenagens do esquema. Policiais recebiam dinheiro e vantagens para fornecer informações sigilosas, antecipar operações e localizar adversários. Eles também teriam facilitado a liberação de bens apreendidos. Os dados ajudavam a monitorar veículos, endereços e celulares de rivais, que viravam alvos de ameaças e atentados.
- Mandados cumpridos: 76 buscas, 25 prisões preventivas e 1 prisão temporária em 7 estados.
- Medidas judiciais: afastamento de 3 policiais, bloqueio de até R$ 300 milhões e sequestro de bens.
Karaokê e videochamada com possíveis execuções
Em 31 de maio de 2025, Hoffman participou de uma confraternização com Adel Hassan Haidar. O empresário é apontado como uma das lideranças do grupo.
No vídeo, o delegado aparece de boné, camiseta, crucifixo de ouro e microfone na mão. A festa com karaokê ocorreu em Ponta Porã.
Em outra gravação, Hoffman aparece em uma videochamada com Adel e Adule Vasques Haidar, filho do empresário. Aos 3 minutos e 20 segundos, os três discutiam conflitos internos, ameaças e possíveis execuções. O nome Higor, apontado como informante do grupo, também foi citado na conversa.
Em 22 de novembro de 2025, Hoffman esteve com Adel quando o empresário apareceu com uma arma longa. A PF descreveu a cena como um aparente teste de pontaria.
Selfies dentro da delegacia ligam tráfico a delegado
As imagens também mostram suspeitos dentro da Denar. Em 16 de dezembro de 2025, Adule e Vitor da Silva tiraram selfies na unidade. Os dois posaram em frente à porta identificada como “Diretoria de Investigação”, provavelmente a sala de Hoffman.
Nenhum dos dois integrava o quadro de servidores da unidade. Para os investigadores, o acesso livre à delegacia reforça a hipótese de circulação sem barreiras.
Em 25 de julho de 2021, Adule enviou outra selfie, desta vez em frente a uma viatura da Garras. Os policiais Andrey Elesbão e Douglas Silva, também investigados, aparecem na imagem. Na legenda, Adule escreveu: “Polícia parou aqui, kkkkkkkkkkk”.
PF suspeita de desvio de duas toneladas de cocaína
Nos arquivos, a PF encontrou registros que ligam o grupo ao desvio de drogas apreendidas. A suspeita é que a organização retirava cocaína do depósito da Denar e colocava uma mistura adulterada no lugar.
O esquema teria permitido a retirada de cerca de duas toneladas de cocaína em dois anos. A PF estima que Hoffman lucrou R$ 15 milhões com a venda da droga.
- Bens atribuídos ao delegado: veículos, uma mansão no Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis (GO).
- Movimentação: empresas e pessoas próximas teriam sido usadas para transferir os recursos.
Abraço após troca de comando é registrado pela PF
Hoffman deixou a Denar em fevereiro de 2026 e assumiu a Garras. Ele comandou a especializada até junho.
Em março, agentes federais acompanharam um encontro entre o delegado e Adel. As imagens mostram a despedida com um abraço. Em seguida, um Volkswagen Virtus seguido pela equipe foi até a sede da Garras.
Em conversas com o contato “Batman”, suspeito de ser Hoffman, Adule recebeu fotos de uma apreensão. A carga tinha cerca de 700 quilos de cocaína e pasta-base.
Em dezembro de 2025, Adule perguntou ao “Batman” sobre possíveis operações nas rodovias. O interlocutor disse que verificaria a situação. Para a PF, a troca de mensagens indica acesso antecipado a ações policiais.
Outros policiais são investigados na mesma operação
Douglas Tobias e Andrey Elesbão Silva também são investigados na Operação Ifrit. Eles aparecem em diálogos com Adule sobre consultas a dados restritos.
Andrey teria repassado informações sobre pessoas, veículos, endereços e patrimônio. Os dados eram usados para monitorar adversários da organização.
Douglas Tobias já era investigado pelo Gaeco por suspeita de participação no desvio de drogas da Denar. Durante as buscas, a PF apreendeu na casa dele um Ford Mustang Shelby GT500 avaliado em R$ 370 mil. O veículo estava registrado em nome de empresa da esposa.
Conforme a PF, integrantes das forças de segurança teriam intimidado rivais, interferido em investigações e ocultado provas. Também facilitariam a liberação irregular de drogas e veículos apreendidos. Esses serviços seriam usados para proteger carregamentos, preservar negócios e atingir adversários, principalmente na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
Do “Careca” ao “Batman”
O apelido “Careca” foi revelado pela Operação Infiltrados, do Gaeco, em setembro. A investigação apontou Hoffman como chefe de uma estrutura com 12 policiais suspeitos de desviar entorpecentes.
O esquema teria começado em 2021, dois anos depois de Hoffman assumir a Denar. Enquanto alguns policiais localizavam carregamentos e participavam de apreensões, outros repassavam a droga para compradores. O delegado teria a função de dar respaldo às operações.
Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, seria o intermediário entre os agentes e os traficantes.
A Operação Ifrit acrescenta outra dimensão às suspeitas contra Hoffman. Se a Infiltrados descreve o delegado como chefe de um esquema de revenda, a PF apresenta registros de convivência com a cúpula do tráfico internacional.
Hoffman está preso desde setembro e recebeu novo mandado de prisão preventiva na operação desta quarta-feira. Ele foi levado ao Presídio Federal de Campo Grande.
Defesas
A defesa de Hoffman afirmou que ainda não teve acesso integral aos autos. Por isso, considerou prematuro se manifestar sobre as acusações.
O advogado Luiz Renê Gonçalves, que representa Douglas Tobias, disse que também não teve acesso à documentação completa. Ele ressaltou que a investigação está em andamento e que ainda não há definição sobre indiciamento ou denúncia.
O espaço segue aberto para manifestação dos demais citados.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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