PF descobre código em árabe usado por clã para pagar propina a policiais
Investigação aponta que termos como “askari” registravam pagamentos a agentes públicos no esquema da família Haidar.
Anuncie Aqui
A Polícia Federal identificou na contabilidade de uma organização criminosa o uso da palavra “askari”, que significa “militar” ou “soldado” em árabe, para registrar supostos pagamentos de propina a policiais. O termo, também abreviado como “aska” ou “ask”, apareceu em arquivos na nuvem de Adule Vasques Haidar, um dos investigados na Operação Ifrit.
De acordo com a decisão judicial que autorizou o sequestro de bens, os registros não usavam nomes ou cargos. Em vez disso, os integrantes do chamado “Clã Haidar” utilizavam as expressões para ocultar transferências financeiras destinadas a agentes de segurança pública.
Termo em árabe e a origem da família investigada
A palavra “askari” tem origem árabe, mesma língua de origem da família alvo da operação. A tradução do termo chamou a atenção dos investigadores, mas são os valores, as transferências bancárias e as relações entre os destinatários que sustentam as suspeitas de corrupção.
Segundo a PF, três irmãos da família Haidar, estabelecidos na região de Ponta Porã, comandavam uma organização internacional de tráfico de drogas e armas. Em dois anos, o grupo teria movimentado mais de R$ 500 milhões, com auxílio de operadores financeiros, empresas e agentes de segurança pública.
Quem são os principais investigados
Os irmãos Adel Hassan Haidar, Bassam Hassan Haidar Ahmed e Nasser Haidar aparecem na cúpula da organização. A geração seguinte também participaria dos negócios, principalmente Adule Vasques Haidar, filho de Adel, e Maroan Fernandes Haidar Ahmed, filho de Bassam. Conforme a PF, Adule administrava recursos, coordenava operadores e mantinha contato com policiais suspeitos de prestar serviços ao grupo.
Registros financeiros e valores milionários
Os investigadores encontraram os lançamentos na nuvem de Adule. Entre as anotações, há pelo menos duas remessas superiores a R$ 5 milhões cada, registradas como pagamentos em favor de “aska”. A contabilidade também apresenta referências a “askarie” acompanhadas de cálculos envolvendo exportações, quantidades de mercadorias e valores a receber.
Para a PF, os registros ajudam a reconstruir o funcionamento de um esquema no qual parte do dinheiro movimentado pelo tráfico teria sido destinada à cooptação de integrantes das forças de segurança.
R$ 800 mil em um único dia
Uma das descobertas mais expressivas aparece nos registros de 10 de fevereiro de 2025. A PF encontrou três lançamentos identificados com a expressão “ASK”, que somaram R$ 800 mil:
- R$ 400 mil com referência a Jonas Vinícius Benfica Ferreira, primo da companheira do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa;
- R$ 120 mil também associado a Jonas;
- R$ 280 mil com referência à Benfica Representações, empresa vinculada ao mesmo familiar.
Outros lançamentos com a mesma expressão incluem uma transferência de R$ 500 mil, também em 10 de fevereiro de 2025, além de operações posteriores de R$ 35.555,56, R$ 30 mil e R$ 100 mil.
Depósitos em espécie e incompatibilidade patrimonial
A suspeita ganhou força com a análise de movimentações atribuídas ao próprio delegado e a pessoas próximas. Segundo a decisão, Hoffman realizou um depósito de R$ 276 mil em espécie na própria conta, apresentado como doação, sem identificação do doador. A PF também identificou que a Benfica Representações transferiu R$ 250 mil ao vendedor de um terreno no condomínio Alphaville, em Campo Grande, adquirido por Hoffman e a mulher em maio de 2024.
Investigação aponta que Jonas movimentou aproximadamente R$ 2,08 milhões em 15 depósitos feitos em espécie. A LK Assessoria e Cobrança, empresa que teria repassado pelo menos R$ 400 mil à Benfica Representações, também entrou no radar dos investigadores. Os valores são considerados incompatíveis com a renda formal e o patrimônio dos envolvidos.
Papel dos policiais no esquema
A PF suspeita que os pagamentos relacionados a agentes públicos fossem uma contrapartida por serviços prestados à organização, como fornecimento de informações sigilosas, antecipação de operações policiais, proteção de carregamentos e interferência na liberação de veículos e drogas apreendidas.
No caso de Hoffman, a suspeita mais grave envolve aproximadamente duas toneladas de cocaína que teriam desaparecido do depósito da Denar durante sua gestão. A venda dos entorpecentes teria rendido cerca de R$ 15 milhões ao delegado.
Aproximação registrada em imagens
A proximidade entre Hoffman e a família Haidar também aparece em fotografias e vídeos. O delegado foi registrado em uma confraternização com karaokê ao lado de Adel e em reuniões com integrantes da organização. A PF encontrou ainda imagens de Adule e Vitor da Silva dentro da Denar, em dezembro de 2025.
O investigador Andrey Elesbão Silva aparece em conversas nas quais Adule solicita informações sobre pessoas, veículos, endereços e patrimônio. A investigação também chegou a Douglas Tobias, citado em apurações sobre o desvio de drogas e suspeitas de colaboração policial.
Alcance da Operação Ifrit
A ofensiva de quarta-feira (4) se espalhou por sete estados para cumprir 25 mandados de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 76 de buscas e apreensões, além de três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis. Também autorizou bloqueios bancários de até R$ 300 milhões e medidas sobre imóveis, fazendas, veículos e outros bens.
O nome da operação traz outra referência à cultura árabe, também presente na origem familiar dos principais investigados. No folclore árabe e nas tradições islâmicas, “ifrit” designa uma criatura sobrenatural, frequentemente associada ao fogo.
O que dizem as defesas
A defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa informou que ainda não teve acesso integral aos autos e considera prematuro comentar as acusações, ressaltando que a prisão preventiva não representa condenação. O advogado Luiz Renê Gonçalves, que representa Douglas Tobias, afirmou que não recebeu toda a documentação e que ainda não há definição sobre eventual indiciamento. O escritório Hazime Advocacia, responsável pela defesa de Fahd Haidar, declarou que analisa os elementos da investigação e está convicto de que demonstrará a inocência do investigado. O espaço segue aberto para manifestações dos demais citados.
Anuncie Aqui
Alcance milhares de leitores
Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
Ver mais matérias
Comentários