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ESTADO

PF descobre código em árabe usado por clã para pagar propina a policiais

Investigação aponta que termos como “askari” registravam pagamentos a agentes públicos no esquema da família Haidar.

06/11/2026 às 05:37
3 min de leitura
Adule Vasques Haidar em selfie com policiais da Garras, alvos da Operação Ifrit da PF
Adule Vasques Haidar em selfie com policiais da Garras alvos de PF (Foto: Reprodução)

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A Polícia Federal identificou na contabilidade de uma organização criminosa o uso da palavra “askari”, que significa “militar” ou “soldado” em árabe, para registrar supostos pagamentos de propina a policiais. O termo, também abreviado como “aska” ou “ask”, apareceu em arquivos na nuvem de Adule Vasques Haidar, um dos investigados na Operação Ifrit.

De acordo com a decisão judicial que autorizou o sequestro de bens, os registros não usavam nomes ou cargos. Em vez disso, os integrantes do chamado “Clã Haidar” utilizavam as expressões para ocultar transferências financeiras destinadas a agentes de segurança pública.

Termo em árabe e a origem da família investigada

A palavra “askari” tem origem árabe, mesma língua de origem da família alvo da operação. A tradução do termo chamou a atenção dos investigadores, mas são os valores, as transferências bancárias e as relações entre os destinatários que sustentam as suspeitas de corrupção.

Segundo a PF, três irmãos da família Haidar, estabelecidos na região de Ponta Porã, comandavam uma organização internacional de tráfico de drogas e armas. Em dois anos, o grupo teria movimentado mais de R$ 500 milhões, com auxílio de operadores financeiros, empresas e agentes de segurança pública.

Quem são os principais investigados

Os irmãos Adel Hassan Haidar, Bassam Hassan Haidar Ahmed e Nasser Haidar aparecem na cúpula da organização. A geração seguinte também participaria dos negócios, principalmente Adule Vasques Haidar, filho de Adel, e Maroan Fernandes Haidar Ahmed, filho de Bassam. Conforme a PF, Adule administrava recursos, coordenava operadores e mantinha contato com policiais suspeitos de prestar serviços ao grupo.

Registros financeiros e valores milionários

Os investigadores encontraram os lançamentos na nuvem de Adule. Entre as anotações, há pelo menos duas remessas superiores a R$ 5 milhões cada, registradas como pagamentos em favor de “aska”. A contabilidade também apresenta referências a “askarie” acompanhadas de cálculos envolvendo exportações, quantidades de mercadorias e valores a receber.

Para a PF, os registros ajudam a reconstruir o funcionamento de um esquema no qual parte do dinheiro movimentado pelo tráfico teria sido destinada à cooptação de integrantes das forças de segurança.

R$ 800 mil em um único dia

Uma das descobertas mais expressivas aparece nos registros de 10 de fevereiro de 2025. A PF encontrou três lançamentos identificados com a expressão “ASK”, que somaram R$ 800 mil:

  • R$ 400 mil com referência a Jonas Vinícius Benfica Ferreira, primo da companheira do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa;
  • R$ 120 mil também associado a Jonas;
  • R$ 280 mil com referência à Benfica Representações, empresa vinculada ao mesmo familiar.

Outros lançamentos com a mesma expressão incluem uma transferência de R$ 500 mil, também em 10 de fevereiro de 2025, além de operações posteriores de R$ 35.555,56, R$ 30 mil e R$ 100 mil.

Depósitos em espécie e incompatibilidade patrimonial

A suspeita ganhou força com a análise de movimentações atribuídas ao próprio delegado e a pessoas próximas. Segundo a decisão, Hoffman realizou um depósito de R$ 276 mil em espécie na própria conta, apresentado como doação, sem identificação do doador. A PF também identificou que a Benfica Representações transferiu R$ 250 mil ao vendedor de um terreno no condomínio Alphaville, em Campo Grande, adquirido por Hoffman e a mulher em maio de 2024.

Investigação aponta que Jonas movimentou aproximadamente R$ 2,08 milhões em 15 depósitos feitos em espécie. A LK Assessoria e Cobrança, empresa que teria repassado pelo menos R$ 400 mil à Benfica Representações, também entrou no radar dos investigadores. Os valores são considerados incompatíveis com a renda formal e o patrimônio dos envolvidos.

Papel dos policiais no esquema

A PF suspeita que os pagamentos relacionados a agentes públicos fossem uma contrapartida por serviços prestados à organização, como fornecimento de informações sigilosas, antecipação de operações policiais, proteção de carregamentos e interferência na liberação de veículos e drogas apreendidas.

No caso de Hoffman, a suspeita mais grave envolve aproximadamente duas toneladas de cocaína que teriam desaparecido do depósito da Denar durante sua gestão. A venda dos entorpecentes teria rendido cerca de R$ 15 milhões ao delegado.

Aproximação registrada em imagens

A proximidade entre Hoffman e a família Haidar também aparece em fotografias e vídeos. O delegado foi registrado em uma confraternização com karaokê ao lado de Adel e em reuniões com integrantes da organização. A PF encontrou ainda imagens de Adule e Vitor da Silva dentro da Denar, em dezembro de 2025.

O investigador Andrey Elesbão Silva aparece em conversas nas quais Adule solicita informações sobre pessoas, veículos, endereços e patrimônio. A investigação também chegou a Douglas Tobias, citado em apurações sobre o desvio de drogas e suspeitas de colaboração policial.

Alcance da Operação Ifrit

A ofensiva de quarta-feira (4) se espalhou por sete estados para cumprir 25 mandados de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 76 de buscas e apreensões, além de três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis. Também autorizou bloqueios bancários de até R$ 300 milhões e medidas sobre imóveis, fazendas, veículos e outros bens.

O nome da operação traz outra referência à cultura árabe, também presente na origem familiar dos principais investigados. No folclore árabe e nas tradições islâmicas, “ifrit” designa uma criatura sobrenatural, frequentemente associada ao fogo.

O que dizem as defesas

A defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa informou que ainda não teve acesso integral aos autos e considera prematuro comentar as acusações, ressaltando que a prisão preventiva não representa condenação. O advogado Luiz Renê Gonçalves, que representa Douglas Tobias, afirmou que não recebeu toda a documentação e que ainda não há definição sobre eventual indiciamento. O escritório Hazime Advocacia, responsável pela defesa de Fahd Haidar, declarou que analisa os elementos da investigação e está convicto de que demonstrará a inocência do investigado. O espaço segue aberto para manifestações dos demais citados.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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