Violência contra crianças em MS é 3x maior que média nacional
Estado lidera ranking no Centro-Oeste com 206,5 casos por 100 mil habitantes, contra 77,4 no país.
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O caso de Ayla Godoy de Oliveira, de três meses, ilustra a violência infantil em Mato Grosso do Sul. A bebê deu entrada no Hospital Regional de Campo Grande em 18 de junho de 2026, com hematomas. Ela morreu oito dias depois, e a morte foi registrada como homicídio.
MS tem três vezes mais violência contra crianças que a média nacional
Mato Grosso do Sul é o estado mais violento para crianças e adolescentes do Centro-Oeste. É o que aponta o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com dados de 2025.
No estado, a taxa de vítimas é de 206,5 por 100 mil habitantes até 17 anos. A média nacional é de 77,4 por 100 mil.
- Taxa em MS: 206,5 casos por 100 mil habitantes
- Média nacional: 77,4 casos por 100 mil habitantes
- Casos no Brasil em 2025: 38,9 mil
- Alta em um ano: 14,6%
- Alta desde 2021: 106,1%
No Brasil, 38,9 mil crianças e adolescentes sofreram maus-tratos em 2025.
Rede de proteção exige ação integrada
Quando há suspeita de violência, escolas e unidades de saúde devem comunicar as autoridades e o Conselho Tutelar. O órgão aciona o Ministério Público.
A promotora Fabrícia Barbosa Lima coordena o Núcleo da Infância e da Juventude do MPMS. Ela defende o acompanhamento contínuo das vítimas. “Cabe aos órgãos estabelecer protocolos que definam as atribuições de cada integrante”, afirma.
Adriano Vargas, presidente da Associação dos Conselheiros Tutelares de Mato Grosso do Sul, critica a centralização no conselho. A população poderia acionar outros serviços diretamente. “Muitas vezes a polícia poderia ser acionada na hora”, explica.
Falta de estrutura e protocolo atrasa resposta
Para Adriano, a falta de fluxo definido sobrecarrega os conselheiros. “Falta estrutura, capacitação e clareza sobre o papel de cada instituição”, diz.
“Do outro lado está a criança com o direito violado, que não sabe quando o problema será resolvido”, completa.
Residência é o principal local de maus-tratos
O Anuário aponta que a casa da família é o ambiente mais comum de violência contra crianças. Os agressores geralmente são pessoas próximas, que deveriam proteger os jovens.
Fabrícia ressalta que não existe um perfil único de vítima. “A pobreza e a fragilidade dos vínculos familiares podem indicar necessidade de apoio, mas não significam, por si só, que uma família esteja violando direitos”, explica.
Escola e saúde são espaços de identificação de sinais
A psicóloga infantil Ketlen da Silva Moreira destaca que escolas e unidades de saúde costumam perceber mudanças no comportamento. “Cada um tem um papel fundamental: identificar, acolher, comunicar e acionar a rede”, diz.
Os principais sinais de alerta incluem:
- Isolamento: afastamento do convívio social
- Agressividade: reações violentas sem explicação
- Medo excessivo: receio de pessoas ou situações
- Queda no rendimento escolar: piora no desempenho
- Alterações no sono e na alimentação: mudanças na rotina
- Lesões recorrentes: hematomas frequentes
Para Ketlen, os sinais devem ser analisados no contexto de cada criança. “Nenhum sinal isolado comprova violência, mas mudanças persistentes merecem atenção”, afirma.
Adolescentes necessitam de abordagem específica
Crianças de 10 e 11 anos e adolescentes a partir de 12 anos são os principais alvos de aliciamento e abuso sexual, segundo o Anuário.
Em Mato Grosso do Sul, o Ministério Público instaurou 6,4 mil procedimentos. O objetivo é apurar estupro de vulnerável entre janeiro e outubro de 2026. O número equivale a cerca de 21 casos por dia.
Ketlen afirma que, com adolescentes, é essencial estabelecer confiança. “A vergonha é um impeditivo na hora de denunciar”, diz.
Adriano reforça que os conselhos tutelares apoiam a profissionalização de jovens. “Somos a favor de que o adolescente receba capacitação e proteção no trabalho”, conclui.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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