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INTERNACIONAL

Papa Leão XIV Clama Contra a Poluição Mafiosa na “Terra dos Fogos”

Em visita carregada de emoção a Nápoles, pontífice abraça famílias enlutadas e denuncia impunidade de empresas e do crime organizado, reforçando a agenda ambiental do Vaticano.

24/05/2026 às 13:16
3 min de leitura
Leão XIV

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O Papa Leão XIV proferiu ontem, 23 de maio, uma contundente crítica às empresas poluidoras e ao crime organizado que devastam a região próxima a Nápoles, conhecida como “Terra dos Fogos”. Em uma visita de profundo impacto emocional, o pontífice dedicou tempo a cumprimentar uma a uma as famílias que perderam entes queridos devido ao despejo ilegal de resíduos tóxicos. A agenda de Leão XIV sublinha o compromisso da Santa Sé com a justiça ambiental, um dia antes do 11º aniversário da encíclica ecológica “Laudato Si”, de seu antecessor, o Papa Francisco.

Na catedral de Acerra, Leão XIV discursou para familiares e membros do clero local, expressando sua dor. “Vim, antes de tudo, recolher as lágrimas daqueles que perderam entes queridos, mortos pela poluição ambiental causada por pessoas e organizações inescrupulosas que, por muito tempo, puderam agir com impunidade”, declarou. Muitos presentes compartilharam fotografias e memórias de crianças e jovens que sucumbiram ou lutam contra o câncer, doenças diretamente ligadas a um esquema criminoso bilionário orquestrado pela máfia.

O pontífice recordou que a área, hoje sinônimo de desolação, já foi celebrada como “Campania felix” – campo abençoado ou fértil em latim – um “hino à vida” que encantava por sua produtividade e cultura. “E, no entanto, aqui está a morte, da terra e dos homens”, lamentou, contrastando a antiga prosperidade com a atual tragédia. A “Terra dos Fogos” abrange 90 municípios ao redor de Caserta e Nápoles, afetando uma população de 2,9 milhões de pessoas.

A gravidade da situação foi confirmada no ano passado, quando o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos validou uma série de queixas de moradores, atestando que o despejo, enterro e queima de resíduos tóxicos pela máfia – a Camorra, que controla o descarte de resíduos – provocaram um aumento alarmante nas taxas de câncer e outras doenças. O tribunal constatou que as autoridades italianas tinham conhecimento da poluição desde 1988, mas falharam em tomar as medidas necessárias para proteger a população. A decisão vinculativa concedeu à Itália dois anos para criar um banco de dados sobre os resíduos tóxicos e os riscos à saúde.

O bispo Antonio Di Donna, em suas observações iniciais, estimou que 150 jovens morreram em Acerra, cidade de cerca de 58 mil habitantes, nas últimas três décadas, ressaltando que esse número não inclui adultos ou vítimas de outros municípios. Ele pediu ao Papa que repreendesse os que persistem na poluição, mencionando que toneladas de resíduos tóxicos foram despejadas novamente nas proximidades de Caserta um dia antes da visita papal. Di Donna alertou ainda para dezenas de outros locais de contaminação humana identificados em todo o país, como o porto veneziano de Marghera e a lixiviação de substâncias químicas PFAS no lençol freático perto de Vicenza.

Entre as vozes das vítimas, Angelo Venturato busca um momento com o Papa para compartilhar a história de sua filha, Maria, que faleceu de câncer em 2016, aos 25 anos. Seu testemunho é um entre muitos que clamam por justiça e um futuro livre da contaminação que rouba vidas e esperanças na outrora abençoada Campânia.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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