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POLICIA

Diário de vítima de feminicídio revela pedidos de ‘socorro’ e medo do marido

Em anotações apreendidas pela polícia, fisioterapeuta relatou controle e violência psicológica antes de ser morta pelo marido em Campo Grande.

28/08/2026 às 13:08
3 min de leitura
Página do diário de vítima de feminicídio com pedidos de socorro e relatos de medo
Fabíola Marcotti e João Jazbik Neto durante festa, em 2014.(Foto: Reprodução)

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Um diário escrito por uma fisioterapeuta de 40 anos, morta em maio deste ano em Campo Grande, revela em letras garrafais o pedido de socorro que ela fez antes de ser assassinada pelo marido, o médico João Jazbik Neto. Os registros foram apreendidos durante a investigação da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) e constam do relatório final do inquérito, que apontou o médico como autor do feminicídio.

Diário registra medo e controle do marido

Em uma das páginas, datada de 13 de abril de 2024, a vítima escreveu três vezes a palavra “socorro”. Logo abaixo, relatou que não aguentava mais a situação vivida no relacionamento, que o problema estava piorando e que havia chegado ao limite naquele ano. Em outra anotação, de 29 de abril, o mesmo pedido se repete. Nos escritos, ela também descreve que não podia olhar para outras pessoas, não manter amigos homens e sofria controle de horários e questionamentos constantes sobre onde estava e com quem.

Segundo a delegada Analu Lacerda Ferraz, responsável pelo caso, os registros mostram os efeitos desse comportamento sobre a fisioterapeuta. “A frieza e o silêncio eram armas de tortura psicológica”, escreveu no relatório. Apesar do medo, a vítima ainda se referia ao companheiro como “o homem que eu amo” e “a pessoa que acreditei ser o amor da minha vida”.

Ciclo da violência doméstica é apontado pela polícia

Para a delegada, essa contradição revela o ciclo da violência doméstica: a alternância entre momentos de tensão, agressão e “lua de mel”, que mantém a vítima presa à relação. “A violência psicológica, descrita no diário, não é um crime menor ou acessório. Ela é a base sobre a qual o feminicídio foi construído”, afirmou. A investigação também cita ameaças e punições por meio do silêncio.

Perícia confirma autoria e reforça material como prova

O caderno passou por exame grafotécnico, que comparou a escrita com a assinatura da vítima no passaporte. Os peritos analisaram formato das letras, proporções e traços, concluindo que os escritos e as assinaturas partiram da mesma pessoa. Com a confirmação, a delegada ressaltou a importância do material: “Este documento não é mero papel, mas a voz escrita de Fabíola, o registro de sua dor, de seu medo e da violência silenciosa que a consumiu antes do golpe fatal”.

Em outro trecho, afirmou: “O diário de Fabíola é o documento mais pungente da violência psicológica que a antecedeu e que, em última instância, a matou. João Jazbik Neto não apenas desferiu os golpes físicos que a levaram à morte. Ele a matou todos os dias, durante meses, com a violência silenciosa do controle, do medo e da anulação de sua personalidade”.

Familiares relatam isolamento e dependência financeira

Depoimentos de familiares também foram considerados. Eles disseram que a fisioterapeuta vivia sob controle, não podia sair sozinha, havia deixado de trabalhar e dependia financeiramente do marido. Um irmão contou que ela chorou durante uma chamada de vídeo e pediu ajuda para deixar o relacionamento.

O inquérito ainda cita episódios de violência física e psicológica. A investigação descartou a versão de suicídio apresentada inicialmente por João. Para a Polícia Civil, ele tentou simular o suicídio e esconder provas. Com a conclusão, o médico foi indiciado por feminicídio.

A defesa de João Jazbik Neto sustenta que o médico é inocente e afirma que os laudos periciais usados na acusação são “precários” e “amadores”, com interpretações que considera “distorcidas e fantasiosas”. O advogado José Belga Trad informou que contestará os exames no processo e ressaltou que o recebimento da denúncia não representa condenação.

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Fernando Bastos

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura política e econômica de Mato Grosso do Sul. Especialista em administração pública e bastidores do poder. No MS Digital News, coordena a equipe de reportagem e assina as principais análises sobre o desenvolvimento do estado.

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