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Facções substituem tiros por assistencialismo para dominar interior de MS

Procuradora do Gaeco revela que PCC e Comando Vermelho usam ações sociais para ocupar territórios antes da violência armada.

18/09/2026 às 06:47
3 min de leitura
Pichação da sigla PCC em poste de rua em bairro de Campo Grande (MS)
Sigla do PCC pichada em poste de rua de bairro em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

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Em Mato Grosso do Sul, a aproximação de facções criminosas com a população começa antes dos tiros. Cestas básicas, festas infantis e promessas de dinheiro criam redes de influência que avançam pelo interior. De acordo com a procuradora Ana Lara Camargo de Castro, coordenadora do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), o Estado não está dominado, mas vive uma mudança no perfil da atuação criminosa.

PCC reduz foco no varejo e abre espaço para disputas locais

O PCC (Primeiro Comando da Capital) passou por uma “gentrificação”, segundo a procuradora. A facção concentra esforços em operações de grande escala, como tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Isso deixou espaço para o Comando Vermelho (CV) ocupar o varejo cotidiano em cidades do interior.

A procuradora explicou que o PCC não abandonou o varejo, mas perdeu interesse relativo. “Em certa medida, há um desinteresse do próprio PCC no varejo cotidiano”, afirmou. Com isso, o CV avançou sobre pontos de venda de drogas e lideranças locais.

Comando Vermelho planejava ocupação a partir do sistema prisional

Investigações do Gaeco, como a Operação Bloodworm, revelaram mensagens em que integrantes do CV anunciavam: “A partir desta data, 29/12/2021, será dado início a alguns trabalhos no Estado do MS”. O grupo destacava a importância estratégica do território para exportação de mercadorias ilegais.

Segundo Ana Lara, o conteúdo mostrou uma estratégia organizada, saindo do sistema prisional para as ruas. A facção passou a demonstrar interesse também pela ocupação de espaços locais, não apenas pela passagem de drogas.

Disputa territorial atinge 25 municípios em 2026

Dados do Ministério Público apontam confrontos e execuções em 25 cidades entre janeiro e julho de 2026. A procuradora chama atenção para o deslocamento pelo interior, com integrantes vindos principalmente do Mato Grosso e de Rondônia. “Eles vêm para tomar território”, afirmou.

A estratégia inclui pressão para que membros de grupos rivais mudem de facção. O CV é descrito como organização voltada ao controle territorial, buscando influenciar não apenas o comércio de drogas, mas as relações dentro do espaço.

Assistencialismo substitui o Estado na base da pirâmide social

O professor Rafael Sampaio, especialista em criminologia, explica que as facções ocupam lacunas deixadas pelo poder público. Cestas básicas, gás de cozinha, medicamentos e eventos esportivos são usados para criar dependência e silêncio. “Elas vão, aos poucos, substituindo o Estado”, disse.

Um exemplo recente foi a apreensão de cerca de 200 ovos de Páscoa em Sonora, que seriam distribuídos pelo CV. Segundo investigação, a ação beneficente visava fortalecer vínculos com a comunidade e ampliar a influência local. O caso foi noticiado pelo Campo Grande News.

Jovens são recrutados com promessa de dinheiro e status

A procuradora destaca que o recrutamento atual está menos ligado a ideologia e mais a lucro fácil e exibição em redes sociais. “É o lucro fácil, a própria exibição em mídias que atrai”, afirmou. O professor Sampaio acrescenta que o crime oferece pertencimento e uma carreira ilusória.

Os jovens, sem vínculo ideológico profundo, tornam-se descartáveis na estrutura violenta. “Quanto mais vulneráveis, mais descartáveis”, disse a procuradora.

Blindagem humana dificulta ação policial

A aproximação com a comunidade cria uma “blindagem humana”, segundo Rafael Sampaio. Moradores que recebem benefícios podem resistir a operações policiais, vendo a facção como referência de proteção. “A população acaba funcionando como uma barreira involuntária”, explicou.

A procuradora reforça que a presença do Estado ainda é forte em MS, mas o alerta está na mudança de perfil. “Mato Grosso do Sul não está dominado por facções”, afirmou. O enfrentamento depende de inteligência, integração e tecnologia.

Entre janeiro e setembro de 2026, foram registrados 397 homicídios no Estado. Dados não especificam quantos estão ligados a facções, mas o medo de testemunhar é um obstáculo. A procuradora conclui: “No caso das facções, há o medo”. O tiro é o momento visível, mas a construção do território começa muito antes.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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