Facções substituem tiros por assistencialismo para dominar interior de MS
Procuradora do Gaeco revela que PCC e Comando Vermelho usam ações sociais para ocupar territórios antes da violência armada.
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Em Mato Grosso do Sul, a aproximação de facções criminosas com a população começa antes dos tiros. Cestas básicas, festas infantis e promessas de dinheiro criam redes de influência que avançam pelo interior. De acordo com a procuradora Ana Lara Camargo de Castro, coordenadora do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), o Estado não está dominado, mas vive uma mudança no perfil da atuação criminosa.
PCC reduz foco no varejo e abre espaço para disputas locais
O PCC (Primeiro Comando da Capital) passou por uma “gentrificação”, segundo a procuradora. A facção concentra esforços em operações de grande escala, como tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Isso deixou espaço para o Comando Vermelho (CV) ocupar o varejo cotidiano em cidades do interior.
A procuradora explicou que o PCC não abandonou o varejo, mas perdeu interesse relativo. “Em certa medida, há um desinteresse do próprio PCC no varejo cotidiano”, afirmou. Com isso, o CV avançou sobre pontos de venda de drogas e lideranças locais.
Comando Vermelho planejava ocupação a partir do sistema prisional
Investigações do Gaeco, como a Operação Bloodworm, revelaram mensagens em que integrantes do CV anunciavam: “A partir desta data, 29/12/2021, será dado início a alguns trabalhos no Estado do MS”. O grupo destacava a importância estratégica do território para exportação de mercadorias ilegais.
Segundo Ana Lara, o conteúdo mostrou uma estratégia organizada, saindo do sistema prisional para as ruas. A facção passou a demonstrar interesse também pela ocupação de espaços locais, não apenas pela passagem de drogas.
Disputa territorial atinge 25 municípios em 2026
Dados do Ministério Público apontam confrontos e execuções em 25 cidades entre janeiro e julho de 2026. A procuradora chama atenção para o deslocamento pelo interior, com integrantes vindos principalmente do Mato Grosso e de Rondônia. “Eles vêm para tomar território”, afirmou.
A estratégia inclui pressão para que membros de grupos rivais mudem de facção. O CV é descrito como organização voltada ao controle territorial, buscando influenciar não apenas o comércio de drogas, mas as relações dentro do espaço.
Assistencialismo substitui o Estado na base da pirâmide social
O professor Rafael Sampaio, especialista em criminologia, explica que as facções ocupam lacunas deixadas pelo poder público. Cestas básicas, gás de cozinha, medicamentos e eventos esportivos são usados para criar dependência e silêncio. “Elas vão, aos poucos, substituindo o Estado”, disse.
Um exemplo recente foi a apreensão de cerca de 200 ovos de Páscoa em Sonora, que seriam distribuídos pelo CV. Segundo investigação, a ação beneficente visava fortalecer vínculos com a comunidade e ampliar a influência local. O caso foi noticiado pelo Campo Grande News.
Jovens são recrutados com promessa de dinheiro e status
A procuradora destaca que o recrutamento atual está menos ligado a ideologia e mais a lucro fácil e exibição em redes sociais. “É o lucro fácil, a própria exibição em mídias que atrai”, afirmou. O professor Sampaio acrescenta que o crime oferece pertencimento e uma carreira ilusória.
Os jovens, sem vínculo ideológico profundo, tornam-se descartáveis na estrutura violenta. “Quanto mais vulneráveis, mais descartáveis”, disse a procuradora.
Blindagem humana dificulta ação policial
A aproximação com a comunidade cria uma “blindagem humana”, segundo Rafael Sampaio. Moradores que recebem benefícios podem resistir a operações policiais, vendo a facção como referência de proteção. “A população acaba funcionando como uma barreira involuntária”, explicou.
A procuradora reforça que a presença do Estado ainda é forte em MS, mas o alerta está na mudança de perfil. “Mato Grosso do Sul não está dominado por facções”, afirmou. O enfrentamento depende de inteligência, integração e tecnologia.
Entre janeiro e setembro de 2026, foram registrados 397 homicídios no Estado. Dados não especificam quantos estão ligados a facções, mas o medo de testemunhar é um obstáculo. A procuradora conclui: “No caso das facções, há o medo”. O tiro é o momento visível, mas a construção do território começa muito antes.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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