Moradores do Tiradentes, Novos Estados e Nhanhá em Campo Grande relatam medo e adaptação em minicracolândias
Terrenos abandonados e imóveis degradados concentram usuários de drogas e geram insegurança em três bairros da capital.
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Em diferentes bairros de Campo Grande, terrenos abandonados, áreas verdes e imóveis que perderam a função original passaram a concentrar pessoas em situação de rua e usuários de drogas. São pontos que, aos poucos, entram na rotina dos moradores e comerciantes, juntamente com o lixo, o movimento constante e o receio de circular pelas ruas. Para quem vive ou trabalha perto desses locais, a convivência se tornou uma espécie de adaptação forçada. Portões fechados, câmeras e cuidado redobrado ao sair de casa passaram a fazer parte da rotina.
Tiradentes: de lava-jato a ponto de drogas
No bairro Tiradentes, na Rua Francisco Lopes da Silva com a Dalva de Oliveira, funcionava o lava-jato do Gordão. O nome ainda aparece no resto de muro que sobrou, já que o restante da estrutura foi demolido e virou ponto de descarte de lixo e dormitório para moradores de rua. Mateus Cáceres, de 25 anos, conta que a área próxima à casa onde mora mudou completamente nos últimos anos. Hoje, a residência tem concertina para aumentar a segurança.
“Vai fazer 2, 3 anos desse jeito. Funcionava um lava-jato, depois desmoronaram e virou um ponto de droga. Tem sujeira, bagunça. A gente fica sem segurança, o pessoal entra e sai toda hora, vira uma bagunça. Às vezes sai briga entre eles”, comentou. Mateus afirma que evita sair de casa e permanece mais tempo dentro da residência.
Na mesma região, Isabela Nogueira, que tem um espaço de design de unha há 2 anos, acompanhou a transformação do imóvel. “Quando eu mudei para cá, era um lava-jato, era bem cuidado ali. O rapaz que tinha o lava-jato ali saiu, ainda ficou limpo, tinha portão. Quando ele saiu, começaram a jogar lixo. Fica um monte de usuários de drogas aí dentro, parece que fica aquele movimento de buscar droga.” A movimentação também passou a ser percebida pelos clientes. “Tem algumas clientes que ficam preocupadas. Eu já estou acostumada, não vejo muito perigo, nunca tentaram entrar aqui. Eu comecei a ficar incomodada depois que os lixos começaram a aparecer. Já teve cliente que chegou aqui e perguntou se não é perigoso. Eu só fico de porta fechada aqui. Eu meio que me acostumei”, pontuou.
Novos Estados: convivência com regras próprias
No Parque dos Novos Estados, a situação é antiga. Quando a reportagem chegou ao local, já encontrou andarilhos em frente às casas de madeira construídas na esquina das ruas Pinhão e Charim. Na calçada, os entulhos tomam conta e há um entra e sai constante. Mateus Augusto, de 25 anos, trabalha como atendente na loja de utilidades do pai. Conforme ele conta, um casal era dono de uma área verde que acabou sendo invadida e teve casas e barracos construídos. Fotos do Google Maps confirmam a história: em 2011, ainda havia mato e um cercado de madeira.
Apesar das reclamações de alguns vizinhos, Mateus afirma que nunca teve problemas diretamente com as pessoas que permanecem por lá. “Eles nunca mexeram com a gente. Eles são educados, mas acabam tumultuando, tem vizinho que não gosta. Eles consideram muito o meu pai, meu pai é pastor. A gente não trata como alguém à margem da sociedade, quanto mais trata uma pessoa como delinquente, pior ela fica. Meu pai dá água, dá as coisas, eles pedem oração às vezes”, disse. A própria organização do grupo, segundo ele, faz com que situações como o acúmulo de lixo sejam resolvidas de maneira informal. “Eles próprios vão se resolvendo, o lixo vem, daqui a pouco alguém manda tirar o lixo. Eles têm a regra deles.”
A rotatividade é grande, mas alguns rostos já são conhecidos. “É bem rotativo, tem gente que não conhece, tem gente que fica aqui, a gente até sabe o nome. Os outros vizinhos já se queixaram e reclamam, isso é mais um problema social e do bairro.” Mateus afirma que, apesar da tentativa de convivência, ainda existe cautela. “Teve um vizinho que até cortou a árvore, porque tinha uma sombra, então para eles era favorável. Sempre tem que estar com pé atrás com eles, mas não tem o que fazer, a gente tenta conscientizar, falar da palavra de Deus”, pontuou.
Vila Nhanhá: ações da prefeitura insuficientes
Na Vila Nhanhá, a situação já é velha conhecida. Um sobrado abandonado na Travessa Novo Rumo, quase na esquina com a Avenida das Bandeiras, transformou-se em um cenário degradante e desolador ao longo do tempo, marcado pelo abandono, pelo acúmulo de lixo e pela sensação de insegurança, deixando a rua com aspecto de beco. Por diversas vezes, o imóvel já foi alvo de força-tarefa da Prefeitura, que retirou quilos de lixo, entulhos e objetos acumulados no local, numa tentativa de impedir que o espaço voltasse a ser utilizado como moradia improvisada. As ações, no entanto, parecem não ter sido suficientes. A situação sempre volta a se repetir.
A vendedora Joyce Trindade, de 38 anos, se mudou para o bairro em março e relata que a presença de pessoas em situação de rua e usuários de drogas interfere principalmente na rotina durante a noite. “Fica meio complicado por causa desses sem teto que ficam na rua, esses usuários, é bem difícil a noite, muita bagunça na rua, andam a noite inteira, arrasta carrinho, botando fogo nas coisas para tirar o ferro dos fios.” A sensação de insegurança fez com que a família adotasse medidas para tentar se proteger. “A gente coloca câmera em casa, porque é o que tem. Nunca sentamos aqui na frente, só dentro de casa. Não ando a pé”, disse. Apesar do cenário, Joyce afirma que não pensa em deixar a casa. “Acaba convivendo, tem que se cuidar”, finalizou.
Medidas da Prefeitura de Campo Grande
A SAS (Secretaria de Assistência Social) informou que a Rede de Assistência Social do município desenvolve trabalho de abordagem por meio do Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social) para pessoas em situação de rua. O serviço atua 24 horas por dia, sete dias por semana, em todas as sete regiões da Capital. As ações são realizadas por meio de buscas ativas, denúncias e mapeamento das regiões conforme as demandas.
- Abordagem: equipes do SEAS realizam abordagens diárias nos pontos mapeados, ofertando acolhimento em unidades da rede.
- Recusa: o indivíduo tem o direito constitucional de recusar o acolhimento (Art. 5º, Inciso XV da Constituição Federal).
- Vínculo: em caso de recusa, as equipes intensificam as abordagens para criar vínculo e convencer a pessoa dos perigos de ficar nas ruas.
- Gerência específica: foi criada a Gerência de Proteção Social para a População em Situação de Rua, com planejamento intersetorial e estudo para criação de um sistema integrado de regulação de vagas.
Para denunciar pessoas em situação de rua, basta acionar o Seas pelos telefones (67) 99660-6539, 99660-1469 e 156.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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