Falta de UTI e materiais básicos suspende cirurgia cardíaca infantil em MS
Após 31 anos, equipe de cirurgia cardíaca pediátrica da Santa Casa de Campo Grande encerra atendimentos eletivos por falta de leitos de UTI e insumos essenciais; apenas urgências são mantidas.
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Sem vagas em UTI e sem materiais básicos como marcapasso e remendos cardíacos, a equipe responsável pela cirurgia cardíaca infantil da Santa Casa de Campo Grande suspendeu os atendimentos eletivos. Apenas os casos de urgência e emergência continuam sendo realizados.
Falta de leitos e insumos provoca paralisação
A médica cirurgiã cardíaca pediátrica Aparecida Afif, que liderou o setor por 31 anos, afirmou que os cinco profissionais que atuavam com ela pediram demissão. Segundo ela, as condições de trabalho se tornaram insustentáveis, com falta de equipamentos e materiais indispensáveis para as cirurgias.
“Isso é lamentável porque quem sofre é a criança. Nós fizemos isso para preservar as crianças. Não queremos fazer as coisas de qualquer maneira”, disse Aparecida, reforçando que a decisão foi tomada para garantir a segurança dos pacientes.
‘Nunca passamos por uma situação assim’
A médica relatou que o agravamento começou em 2017, quando quatro dos seis cardiopediatras da equipe saíram, restando apenas dois. Desde então, a instabilidade foi crescente. “Agora em 2026 é o pior momento. Nunca passamos por uma situação assim em 30 anos”, lamentou.
Aparecida destacou que a Santa Casa é o único hospital em Mato Grosso do Sul que realiza cirurgias cardíacas pediátricas pelo SUS. Mesmo assim, a falta de segurança inviabilizou a continuidade dos procedimentos programados.
Insumos essenciais em falta
- Órteses e próteses: remendos, enxertos e tubos valvulados para as operações
- Equipamentos: bombas de infusão, fios específicos para suturas e marcapasso
- Medicamentos: drogas vasoconstritoras para o pós-operatório
A médica enfatizou que os atrasos no pagamento não foram o motivo principal da saída da equipe, mas sim a falta de material e a desagregação do grupo.
UTI: seis leitos para demanda crescente
Outro entrave é a estrutura de UTI pediátrica. O setor conta com apenas seis leitos, os mesmos desde a inauguração do serviço em 1995. Aparecida contou que em 2006 já havia solicitado ampliação para dez leitos, mas o pedido nunca foi atendido.
“Passamos de 50 para 160 procedimentos ao ano, mas continuamos com os mesmos seis leitos. A população de Mato Grosso do Sul duplicou, o número de crianças cardiopatas cresceu, mas os leitos não”, afirmou.
Desde setembro do ano passado, nenhuma cirurgia eletiva cardíaca infantil foi realizada na Santa Casa, porque as demandas urgentes ocupam toda a capacidade.
Solução depende de hospital e prefeitura
Aparecida Afif declarou que a solução precisa ser definida pela Santa Casa em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande. “Eu não posso solucionar isso. É uma questão da Santa Casa com a Sesau”, disse.
Apesar da crise, até o ano passado a equipe conseguiu bater a meta do Ministério da Saúde, realizando 120 cirurgias por ano (10 ao mês). A reportagem procurou a Santa Casa e a Sesau para comentar a situação, mas ainda aguarda retorno.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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