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Relatório do Cimi denuncia ataques a tiros, sequestro e violência sexual em retomadas indígenas no Mato Grosso do Sul

Documento do Conselho Indigenista Missionário reúne casos de violência contra indígenas Guarani e Kaiowá em áreas de disputa fundiária.

13/08/2026 às 16:53
3 min de leitura
Relatório do Cimi aponta risco de escalada com ataques a tiros e sequestro a indígenas em Mato Grosso do Sul
Imagens mostram vítimas de ataque em novembro de 2025 em Pyelio Kue. (Foto: Cimi)

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Imagens mostram vítimas de ataque em novembro de 2025 em Pyelio Kue. (Foto: Cimi) Ataques a tiros contra barracos, ações policiais com bombas de gás e balas de borracha, sequestro e relatos de violência sexual aparecem entre os episódios registrados em áreas chamadas de “retomadas” pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e pelas próprias comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul ao longo de 2025.

O termo é usado para definir áreas que grupos indígenas voltam a ocupar por considerá-las parte de seus territórios tradicionais. Em vários desses locais há disputas fundiárias, processos de demarcação ainda não concluídos e propriedades rurais reconhecidas ou reivindicadas por particulares.

Ataques em Guyraroka: tiros, bombas e sequestro

Os casos constam no relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado pelo Cimi, e se concentram principalmente em áreas ocupadas por comunidades Guarani e Kaiowá. Entre os locais citados estão Guyraroka, em Caarapó, Iguatemipegua I, em Iguatemi, e Dourados-Amambaipeguá III.

Em Guyraroka, o Cimi afirma que os conflitos se intensificaram a partir de setembro, depois que indígenas voltaram a ocupar parte da Fazenda Ipuitã, área apontada pelo relatório como sobreposta à terra indígena. Segundo a entidade, a ocupação ocorreu após denúncias da comunidade sobre pulverização de agrotóxicos próxima às moradias.

Conforme o documento, no dia seguinte à ocupação a Tropa de Choque da PM (Polícia Militar) realizou uma ação no local. O Cimi afirma que pelo menos dois indígenas foram atingidos por balas de borracha e que outros sofreram agressões. A entidade também sustenta que a intervenção ocorreu sem ordem judicial e sem a presença da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).

A tensão continuou nas semanas seguintes. De acordo com o relatório, em 17 de outubro houve nova intervenção policial durante um protesto contra o avanço de tratores e o plantio próximo à comunidade. O Cimi relata que quatro indígenas, três mulheres e um adolescente de 14 anos, foram atingidos por balas de borracha. Outras cinco pessoas, entre elas duas gestantes, teriam sofrido intoxicação pela fumaça de bombas de gás.

Dias depois, o documento registra outro episódio em Guyraroka. Segundo o Cimi, uma adolescente de 17 anos foi capturada por homens apontados pelas lideranças como jagunços e levada até a sede da Fazenda Ipuitã. O relatório afirma que um indígena que tentou resgatá-la foi recebido com quatro disparos de arma de fogo e que, na sequência, houve tiroteio até a jovem ser libertada.

O próprio relatório informa que, posteriormente, uma escuta feita por órgãos públicos a pedido da Aty Guasu registrou relato de violência sexual contra a adolescente durante o período em que ela esteve retida.

Outro caso citado ocorreu em setembro na área chamada pelo Cimi de retomada de Porto Cambira, dentro da TI (Terra Indígena) Dourados-Amambaipeguá III. Segundo a entidade, homens armados atacaram a comunidade, efetuaram disparos e destruíram barracos. O documento também relata que policiais usaram bombas de gás e balas de borracha no mesmo dia.

Morte de indígena em Iguatemi

Em novembro, um dos episódios registrados terminou em morte na TI Iguatemipegua I, em Iguatemi. O Guarani-Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi morto com um tiro na cabeça durante um ataque à área de Pyelito Kue ocupada por indígenas.

Segundo o Cimi, lideranças relataram que a comunidade foi cercada por veículos ocupados por cerca de 20 homens que seriam ligados a fazendeiros da região. O documento informa que, além de Vicente, outros quatro indígenas, entre eles dois adolescentes e uma mulher, foram atingidos por disparos. Barracos, alimentos, roupas e outros pertences também teriam sido destruídos ou incendiados durante a ação.

O sumário executivo do relatório cita a morte de Vicente entre três assassinatos considerados emblemáticos de conflitos territoriais ocorridos no país em 2025. O Cimi relaciona os casos à demora na conclusão de processos de demarcação.

Dados oficiais: 37 assassinatos e 42 suicídios em MS

Além dos episódios individualizados pelo Cimi, dados oficiais reproduzidos no relatório mostram que 37 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025, sendo 33 homens e quatro mulheres. O Estado aparece atrás de Roraima, com 82 casos, e Amazonas, com 47.

Esse total, porém, não permite concluir que as 37 mortes estejam relacionadas a disputas por terra. Os números vêm de bases oficiais de mortalidade. O próprio Cimi informa que essas bases não trazem detalhes suficientes sobre o povo, o território ou a comunidade das vítimas e, por isso, não permitem uma análise mais aprofundada sobre as circunstâncias de cada assassinato.

Dessa forma, o levantamento não mostra quantas dessas mortes decorreram de conflitos fundiários e quantas podem estar relacionadas a violência doméstica, conflitos pessoais, criminalidade comum ou outras circunstâncias.

Para tentar compreender os contextos, o Cimi mantém um levantamento próprio, baseado em informações das equipes regionais e em notícias publicadas pela imprensa. Por essa metodologia, foram identificados 16 indígenas assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025.

O relatório também registra 42 suicídios de indígenas em Mato Grosso do Sul em 2025, segundo maior número do país, atrás do Amazonas. Esse dado integra outro eixo do levantamento e não é tratado pela entidade como consequência direta dos conflitos fundiários. Assim, o cenário descrito pelo Cimi nas áreas em disputa deve ser separado do conjunto das mortes registradas oficialmente.

O relatório aponta uma sequência de ataques armados em locais reivindicados por comunidades indígenas, mas não atribui automaticamente todos os assassinatos de indígenas ocorridos no Estado a conflitos pela posse da terra.

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Mariana Costa

Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.

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