Operação Lívia aponta vítima usada para atrair meninas
A Operação Lívia aponta que uma vítima de grupo que coagiu uma adolescente era usada para atrair meninas.
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“Ela não se tornava membro desse grupo. Ela teria que exercer outras funções, como, por exemplo, trazer outras meninas para esse grupo ou praticar atos contra animais.” A afirmação é da delegada Anne Karine Trevisan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) de Mato Grosso do Sul.
O novo detalhe foi apresentado na manhã desta quinta-feira (17), durante coletiva de imprensa na Delegacia-Geral da Polícia Civil. Também participou o delegado Ivan Barreira, diretor do DPE (Departamento de Polícia Especializada).
Segundo a investigação, as comunidades chamadas de “panelas” pelos próprios integrantes tinham estrutura organizada e funcionavam para praticar violência no ambiente digital. Material recolhido na Operação Lívia incluía a bandeira dos confederados, símbolo usado por grupos extremistas.
Vítimas eram forçadas a se automutilar
A violência contra as próprias vítimas fazia parte da dinâmica de permanência nas comunidades. Adolescentes eram obrigadas a se automutilar e, em algumas situações, a escrever nomes de integrantes com o próprio sangue. Lívia, de 13 anos, teria passado por esse tipo de violência antes da morte, em 22 de julho.
Anne Karine afirmou que não houve uma única ameaça determinante para a morte da adolescente. Foram diversas ameaças, todas graves no contexto de pressão exercida sobre Lívia. Uma Bíblia usada pela adolescente no ritual foi apreendida e está entre o material analisado.
A violência também funcionava como mecanismo de ascensão: quanto mais atos violentos, maior o prestígio da “panela”. “Eles ganham fama. Quanto mais violenta é a ‘panela’, mais famosa ela fica entre as outras ‘panelas’”, afirmou a delegada.
Duas “panelas” acompanharam a morte
A transmissão da morte de Lívia não ficou restrita a uma única comunidade. A Polícia Civil afirma que duas “panelas” se uniram para formar uma plateia que acompanhou o chamado “evento” em tempo real.
- Comandos: transmitidos pelo Zangi.
- Vídeo: circulou pelo Telegram, Discord e Instagram.
- Transmissão: ocorreu pelo Zangi e pelo Discord.
Recrutamento começava em redes abertas
Os integrantes buscavam adolescentes vulneráveis em redes sociais com bate-papo. Após identificar uma possível vítima, passavam-se por amigos e faziam uma espécie de engenharia social da vida familiar. As ameaças começavam a partir dessas informações.
Fotos íntimas não eram necessariamente o principal instrumento de ameaça. Dados sobre família, escola e situações pessoais também eram usados. Um exemplo citado foi o de uma adolescente que havia terminado um relacionamento e foi abordada por alguém com identidade falsa.
O recrutamento de integrantes também foi identificado. Adolescentes frequentavam comunidades públicas ligadas à misoginia e ao nazismo. Os donos das “panelas” conversavam com eles para verificar se tinham o perfil desejado. A maioria era do sexo masculino e não aceitava realizar “eventos” com meninos.
Perfil dos investigados
Os adolescentes apreendidos tinham perfis sociais variados, com presença em escolas públicas e particulares. O isolamento social era comum: muitos ficavam o dia inteiro no quarto, trocavam o dia pela noite e mantinham quase só amizades virtuais.
Durante os interrogatórios, segundo a delegada, eles não demonstraram arrependimento. Ao contrário, apresentavam satisfação e buscavam fama dentro das comunidades. Anne Karine afirmou que avaliações psicológicas devem ser feitas por profissionais especializados.
Segunda fase da Operação Lívia apreende seis adolescentes
A segunda fase da Operação Lívia começou depois da análise de celulares e equipamentos recolhidos na primeira etapa. Com apoio do Cyberlab, do Ministério da Justiça, e de forças policiais de outros Estados, a Polícia Civil cumpriu seis mandados de busca e apreensão nos seguintes locais:
- Distrito Federal
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Rio Grande do Sul
- Bahia
A polícia localizou e apreendeu seis adolescentes com idades entre 13 e 17 anos. Todos teriam participação efetiva no caso de Lívia e ocupavam posições relevantes nas comunidades, como donos, subdonos e responsáveis pela captação de novas vítimas. Eles determinavam quando ocorreria um “evento”, quem seria convidado e quem encontraria a vítima.
Com os novos alvos, 12 pessoas já são investigadas no caso, considerando os cinco adolescentes e um adulto apreendidos na primeira fase. A Polícia Civil ainda não detalhou individualmente a função de cada um porque os dados dos aparelhos seguem em análise.
Outras vítimas e orientação às famílias
Além de Lívia, a investigação identificou outros adolescentes submetidos à violência dos grupos. Há casos de automutilação sem morte, mas a quantidade exata não foi divulgada. Parte dos casos ocorreu em outros Estados e deve ser encaminhada às respectivas polícias.
A investigação também confirmou que uma vítima de automutilação foi usada para atrair meninas e praticar atos contra animais. O material virtual apreendido nas duas fases ainda não foi totalmente contabilizado. As extrações de celulares precisam ser analisadas individualmente.
Anne Karine orientou as famílias a acompanhar o que crianças e adolescentes consomem na internet, verificar com quem conversam e usar mecanismos de controle parental. “Antes se pensava que o perigo estava na rua. Hoje, o perigo para os adolescentes está dentro do espaço virtual”, afirmou.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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