MPF revela Plano Tarrafa: operação secreta para prender 63 opositores em MS
Documento sigiloso da ditadura militar lista 63 alvos; MPF aciona Justiça por reparação.
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O Ministério Público Federal (MPF) vai entrar na Justiça para obter reparação financeira a mais vítimas da ditadura militar em Mato Grosso do Sul. A decisão foi tomada após a descoberta do “Plano Tarrafa”, uma operação secreta de inteligência que listava 63 pessoas para prisão preventiva na porção sul do então Mato Grosso.
O que foi o Plano Tarrafa?
Elaborado pelo Comando da 9ª Região Militar, em conjunto com a DOPS e a Polícia Federal, o plano catalogava cidadãos considerados “subversivos” ou “comunistas”. O nome faz referência a uma rede de pesca. O documento, datado de 1981 mas com planejamento anterior, ficou oculto por mais de 40 anos.
Segundo o MPF, o plano prova a existência de um esquema estatal sistemático de detenção ilegal. A procuradora Samara Yasser Yassine Dalloul afirma que o material é “robusto e definitivo”.
Alvos em Mato Grosso do Sul
A lista incluía profissionais liberais, camponeses, professores, políticos e lideranças comunitárias. As prisões seriam concentradas em quartéis como o 10º GAC (Campo Grande) e o 9º BE Cmb (Aquidauana). A distribuição dos alvos era:
- Campo Grande: 21 nomes
- Corumbá: 11 alvos
- Ponta Porã: 6 alvos
- Jardim, Guia Lopes, Bonito e Nioaque: 6 alvos
- Aparecida do Taboado e Três Lagoas: 5 alvos
- Dourados e Fátima do Sul: 5 alvos
- Aquidauana e Miranda: 2 alvos
- Porto Murtinho: 1 alvo
Prioridade 01: os mais visados
Entre os alvos considerados de maior perigo estavam os irmãos Alberto, René e Humberto Neder. O médico Alberto Neder, classificado como “comunista confesso”, era ex-proprietário do jornal O Democrata. Outros nomes incluem o médico William Maksoud, o comerciante Ricardo Apolinário Granda, o vice-prefeito Nelson Trad e o empresário Pedro Chaves dos Santos Filho, que mais tarde se tornou senador.
Também foi perseguido o professor Francisco Fausto Mato Grosso Pereira, demitido da universidade por militância estudantil. Jornalistas como Antônio Roberto de Vasconcelos, Ronaldo Arruda Castro e Waldemar Ballock estavam na mira.
Documentação robusta e obstrução militar
A investigação do MPF, iniciada em 2016, reuniu provas de tortura em centros clandestinos, como o Porão da Ferrovia NOB, e em navios-prisão no Rio Paraguai. A atuação da milícia paramilitar Ademat, ligada a Cláudio Luiz Fontanillas Fragelli, também foi documentada.
O MPF tentou mediação consensual, mas as Forças Armadas se recusaram a cooperar e negaram acesso a documentos. Com isso, a procuradoria optou pelo ajuizamento direto de uma Ação Civil Pública (ACP).
Próximos passos
A ação pedirá retratação pública do Estado, exibição compulsória de documentos, indenização por danos morais coletivos e responsabilização patrimonial dos herdeiros de agentes repressores. Depoimentos de vítimas sobreviventes, com prioridade para os mais idosos, serão colhidos por videoconferência.
O MPF também requisitou ao Comando Militar do Oeste e ao 6º Distrito Naval a entrega de diários de bordo e registros de prisioneiros do período.
Cronologia do caso
- 2011: Abertura de procedimento preparatório para investigar o regime militar
- Maio de 2016: Instauração de inquérito civil sobre violações em Campo Grande e Aquidauana
- 2018–2019: Reuniões com o Comitê Memória, Verdade e Justiça (CMVJ-MS)
- 2020–2023: Oitivas desaceleradas pela pandemia
- 2024–2025: Reativação das investigações e extração de dados do Arquivo Nacional
- Agosto de 2026: Descoberta do Plano Tarrafa e decisão pela ação civil pública
O MPF informou, por meio de assessoria, que não comenta investigações em andamento, mas que o inquérito é público e os documentos estão disponíveis no Arquivo Nacional.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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