Plano Tarrafa: churrasco a Brizola e curso de russo na mira em MS
Documento secreto da ditadura lista alvos prioritários em Mato Grosso do Sul, incluindo motivos como churrascos para Brizola e curso de russo.
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Trechos do Plano Tarrafa, operação secreta da Ditadura Militar, revelam que órgãos de repressão monitoraram e planejaram prender dezenas de pessoas em Campo Grande (MS) por motivos que iam desde oferecer churrasco a Leonel Brizola até fazer curso de língua russa. As fichas, datilografadas por militares, indicam prioridade de prisão e o quartel de destino de cada alvo.
Os irmãos Neder: prioridade máxima
A família Neder era um núcleo prioritário no plano. O médico Alberto Neder, classificado como “Prioridade 01”, foi acusado de ser secretário político do PCB, receber cartas da Rússia e ter ligações com João Goulart e Brizola. O próprio documento informa que ele foi absolvido por insuficiência de provas, mas teve os direitos políticos suspensos por dez anos.
O engenheiro René Neder também foi fichado. Entre as acusações, estava o fato de ter recebido Brizola com churrascos em sua fazenda em Rio Brilhante, além de ter emprestado avião e jipe ao político. Os militares o consideraram “filocomunista”, mas ao final admitiram: “Nada foi apurado”. O advogado Humberto Neder, apontado como procurador de Jango, foi descrito como “criptocomunista”, mas não foi denunciado pelo Ministério Público.
Curso de russo e militância estudantil
Pedro Chaves dos Santos Filho, que mais tarde seria senador pelo PSC, recebeu “Prioridade 01” por fazer curso de russo, possuir literatura comunista e buscar bolsa na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou. A ficha ainda o acusava de entusiasmo pela Revolução Cubana e de ter sido expulso do Exército. Ele negou filiação ao Partido Comunista e disse que passou seis meses preso em 1964.
Críticas ao reitor e jornal estudantil
O engenheiro Francisco Fausto Mato Grosso Pereira entrou na lista por ter dirigido o jornal O Dínamo e criticado o reitor da UEMT. Um informe anônimo o descreveu como “esquerdista”. Ele foi demitido da universidade, mas continuou ativo. Sua esposa, Maria Augusta, também foi vigiada por circular o jornal O Biológico.
Refugiado paraguaio e suposta sabotagem
O paraguaio Ricardo Apolinário Granda, proprietário do restaurante “O Gato que Ri”, foi acusado de descarregar armas da Tchecoslováquia e emprestar chácara para treinar guerrilheiros. Os militares temiam que ele se infiltrasse na usina de Itaipu, mas o próprio dossiê reconhece: “Nada ficou confirmado”.
Manifesto antiditatorial e sindicalistas
O charreteiro Acelino Granja foi alvo prioritário por assinar o manifesto “Ao Povo de Campo Grande e aos Trabalhadores”, que apoiava João Goulart e repudiava a Marcha da Família. Ele conseguiu habeas corpus. O presidente do sindicato dos trabalhadores da construção, Durvalino Pereira de Barros, também foi fichado pelo mesmo manifesto e absolvido.
Políticos e apoio a Brizola
O médico e ex-vereador William Maksoud foi acusado de publicar artigos no jornal O Democrata e defender Brizola. Teve o mandato cassado e foi proibido de entrar em instalações militares. O documento reconhece que, após investigado, ele se dedicava exclusivamente à medicina. O vereador Abel Freire de Aragão, outro alvo prioritário, foi cassado por apoiar Brizola e se opor ao golpe. Anos depois, ao assumir a presidência do diretório da Arena, partido da ditadura, os militares consideraram a atitude de “péssima repercussão”.
Discordar bastava para virar inimigo
O plano incluía ainda pessoas como o pintor Heitor Samaniego Bugarinho e o advogado Fernando Pereira Falcão, classificados como “criptocomunistas” mesmo sem provas. Em vários casos, os próprios militares admitiram que nada foi apurado. As fichas mostram que a repressão não mirava apenas militantes armados, mas também quem escrevia, ensinava ou discordava. O MPF prepara ação para responsabilizar a União e espólios de agentes envolvidos nas violações.
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Mariana Costa
Redatora especializada em cidadania e políticas públicas. No MS Digital News, dedica-se a apurar histórias que impactam diretamente a vida do sul-mato-grossense, com compromisso ético e transparência. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social.
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